
Pensei em usar a expressão mais tradicional, mas o bonde caiu em desuso faz algum tempo aqui no Brasil. O povo corre mesmo é para pegar aquele trem na estação da CPTM que vai demorar para passar de novo, ou aquele ônibus que está parado no ponto quando você ainda está do outro lado da rua.
Essa é mais ou menos a situação de Romain Grosjean no início da temporada 2016.
O francês é um excelente piloto, mesmo. Um piloto com talento para ganhar GPs na F1. É rápido e demonstra amadurecer a cada dia mais nas corridas. Desde 2012, só seis pilotos têm mais pódios que ele. Quatro são campeões mundiais e os outros dois são Nico Rosberg e Mark Webber, que corre/correu nos times que mais venceram corridas.
Grosjean, enquanto isso, está empatado em pódios com Daniel Ricciardo e à frente de Felipe Massa, Valtteri Bottas e Sergio Pérez. Todos estes estão ou estiveram em equipes que passaram pelo top-3 do Mundial de Construtores nos últimos cinco anos.
E cadê essa vaga em uma escuderia de ponta que não se abre para ele?
(Grosjean Haas)

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Nico Hülkenberg é outro que está em um estágio parecido da carreira. Tanto ele quanto Grosjean estão desde o início da década em equipes médias, esperando a chance pular para um cockpit de ponta, e a oportunidade não aparece.
Entre esses dois, há algum tempo que tenho certa preferência por Grosjean. Hülk é muito bom, mas se eu fosse um chefe de equipe e tivesse de escolher entre um dos dois, contrataria Grosjean. E o que ele está fazendo neste começo de 2016 mostra como o potencial realmente está lá.
Sabem aquela história de sair da zona de conforto, que tanto falamos que deu certo com Felipe Massa em 2014 e com Sebastian Vettel em 2015? Bem, eu — e provavelmente ninguém — não imaginava que o mesmo aconteceria com a saída da Lotus para a Haas. A situação é bem diferente, claro. Não foi que ele saiu de uma equipe grande, consolidada. Era um time que convivia com dificuldades financeiras e oscilando muito de um ano para o outro. De qualquer maneira, ele saiu de lá para se arriscar em uma escuderia construída do zero — e pudemos acompanhar como foi a jornada das três equipes que entraram na F1 assim em 2010. Se desse errado, podia muito bem ser o fim da linha.
Pois depois de duas corridas, Grosjean é a sensação da temporada. Foi nomeado o ‘Piloto do Dia’ na Austrália e no Bahrein. Surpreendeu ao chegar em sexto no Albert Park e foi ainda melhor em Sakhir com um quinto lugar. Está entregando resultados em um time diferente daquele que conhecia há uma década, desde o programa de jovens pilotos da Renault. E está encantado com o trabalho de Gene Haas, Günther Steiner e cia., disse que é o melhor de sua carreira.
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É só o começo da temporada e a Haas já avisou que pensará mais em 2017 do que em 2016. Resultados como estes, portanto, devem se tornar mais raros ao longo do ano. De qualquer forma, o que Grosjean vai fazendo é o que ele precisa fazer para assegurar o seu futuro na F1: sua qualidade ficou provada de vez.
Indo para a Haas, o francês poderia muito bem estagnar e ver o bonde, o trem, o ônibus, passar. Mas não. Ele está correndo e ainda tem tempo para pegá-lo. Para os padrões da F1 atual, será um pouco tarde, é verdade. Se de repente for escolhido para substituir Kimi Räikkönen na Ferrari, já terá 30 anos. Só que terá chegado lá. Ele é piloto para isso.
Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.