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Noite do dia 5 de agosto de 2016, Rio de Janeiro. Um sonho antigo era realizado: era a abertura dos primeiros Jogos Olímpicos na América do Sul e do Brasil. No momento mais icônico, a Pira Olímpica foi acendida por Vanderlei Cordeiro da Silva, aquele mesmo atleta que, em 2004, foi atrapalhado Cornelius Horan, o famoso padre irlandês, quando liderava a maratona. Um reconhecimento e uma redenção que poucos tiveram em vida. Uma volta por cima, mesmo que não tenha visto no atletismo que o consagrou, emocionou a todos nós.

De alguma forma, o espírito da volta por cima de Vanderlei contaminou esta Olimpíada. Claro, os jogos são famosos por suas grandes histórias de superação e por esportistas que confrontaram dificuldades e derrotas para alcançarem as medalhas. Mas também é fato que algo especial aconteceu nesta Rio 2016. 

De lado, meio que afastado, o automobilismo e motociclismo viram a Olimpíada de longe – afinal, não estamos falando de esportes olímpicos. A F1 recolheu-se às suas férias. A Indy ressurgiu apenas no último dia de competição, já com as luzes cariocas se apagando. Apenas o Mundial de Motovelocidade, mais enxerido, teve duas etapas durante as duas semanas de competição.

Porém, há um elemento que pode misturar as duas coisas e, quem sabe, fazer a ponte para levar um pouco dessas boas vibrações da Rio 2016 para as pistas do mundo – que estão precisando. É que Cornelius Horan foi o mesmo que invadiu, em 2003, a pista no GP da Inglaterra, aquela prova vencida por Rubens Barrichello. 

Pira Olímpica da Rio 2016 foi acendida por Vanderlei Cordeiro da Silva (Vanderlei Cordeiro da Silva nas Olimpíadas do Rio 2016 (Foto: Getty Images))

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Isso tudo poderia começar por um outro brasileiro, Felipe Massa. O piloto trocou a Ferrari pela Williams e chegou num momento importante do time inglês, que superou as dificuldades de tempos recentes para ter, a partir de 2014, um carro competitivo. Só que, este ano, o time está andando para trás – e Massa também teve a sua cota de infortúnios, sendo no momento, apenas nono colocado, 20 pontos atrás do companheiro Valtteri Bottas.

Felipe pode – e deve – olhar para o exemplo olímpico de Diego Hypólito para seguir no resto desta temporada (e até nas próximas). O ginasta, que já foi o maior do mundo do solo, chegou em Pequim, em 2008, como o grande favorito para levar a medalha de ouro. Falhou. Quatro anos depois, em Londres, nova falha. Agora, quando todos acreditavam que o ápice do desempenho do brasileiro era um passado distante, Hypólito conquistou a tão sonhada medalha de prata. 

“Isso mostra para qualquer pessoa que, se você acreditar nos seus sonhos, é possível alcançá-los”, disse Diego, logo após a conquista, para a TV Globo. “Eu tive uma Olimpíada em que caí de bunda. Outra em que, literalmente, eu caí de cara. E na terceira Olimpíada, eu caí de pé. Eu nem sou tão bom quanto era nas outras Olimpíadas, e eu consegui uma medalha. É inexplicável”. 

Se Massa olhar para o próprio passado, vai reconhecer um pouco de Diego em si. Em 2008, no GP do Brasil, quase ficou com o título, mas perdeu para Lewis Hamilton, literalmente, na última curva. Foi a “queda de bunda” do brasileiro. No ano seguinte, a “queda de cara”: a porca do carro de Barrichello atingiu o capacete do piloto, deixando-o de molho por diversos meses.

Em 2008, o vice não teve gosto de uma prata – o automobilismo, como todos sabem, costuma ser perverso com quem fica no segundo lugar. Porém, conquistar uma ‘medalha de prata’ nos GPs que faltam em 2016 pode ser a chance de “cair em pé” em um ano extremamente difícil, que deve ditar o futuro do piloto brasileiro na maior das categorias. 

Diego Hypólito deu a volta por cima e foi prata na Ginástica (Diego Hypólito ganhou a prata da Ginástica (Foto: Getty Images))

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Já Daniil Kvyat pode esquecer o mau-exemplo do banimento de diversos atletas russos pelo grande escândalo de doping e também usar os atletas olímpicos brasileiros como inspiração. Ele sofreu diversas críticas pelo começo de temporada ruim na Red Bull, se envolvendo em dois incidentes com Sebastien Vettel, da Ferrari. A má performance rendeu um rebaixamento para a Toro Rosso, outros resultados ruins e ainda viu Max Verstappen vencendo uma corrida com o carro que era anteriormente dele. As críticas a Daniil, agora, surgem de todos os lados. 

“Quando você diz isso, é uma grande decepção. Ultimamente, tenho tido muitas decepções em minha vida”, disse o russo após durante o fim de semana do último GP, o da Alemanha. “Então temos que seguir lutando e esperando que algum dia chegue o momento.  Agora nós estamos muito longe. E, agora, não estou pilotando no meu normal.”

A história tem semelhanças com a trajetória de Arthur Nory Mariano. Integrante do time da Ginástica Artística Brasileira, o atleta teve um ano de 2015 para esquecer, após fazer declarações consideradas discriminatórias contra outro integrante do time, Ângelo Assumpção, de quem era amigo. Acusado de ser racista pela imprensa, Nory foi muito criticado.

E aí, na Rio 2016, o ginasta deixou de lado todas as críticas e acusações, conquistando o bronze no solo – e, ao lado de Diego Hypólito, formando o primeiro pódio da ginástica com dois brasileiros em uma Olimpíada. 

Felipe Nasr pode aprender algumas lições. É só o piloto prestar um pouco de atenção na história de Martine Grael e Kahena Kunze. Para conquistar o ouro, as duas tiveram uma sintonia fina incrível, vencendo uma disputa acirrada por justamente fazerem, em conjunto, a melhor aposta na reta final. Na F1, Nasr está em uma temporada complicada, com uma falta de dinheiro da Sauber que parece, aparentemente, resolvida com a compra da equipe pela Longbow Finance. Assim, resta agora ao brasileiro — e ao seu companheiro, Marcus Ericsson— fechar com o resto do time, buscando com eles a mesma sintonia e as estratégias certeiras que a dupla brasileira da categoria 49ex FX da vela. 

Já Ferrari e McLaren vivem uma espécie de limbo. Mesmo que em partes diferentes do grid, os times estão longe das glórias do passado, apenas cumprindo tabela. Lembra, de alguma forma, o que a seleção masculina de vôlei brasileira estava fazendo neste último ciclo olímpico: de passado glorioso, o time brasileiro estava batendo na trave e ficando longe das grandes conquistas nos últimos quatro anos. Quando o torneio desta Olimpíada começou, o Brasil parecia estar em seu pior momento, sofrendo duas derrotas e se classificando em quarto lugar no grupo, o último que prosseguiu para o mata-mata. 
(Martine Grael e Kahena Kunze foram ouro na vela (Foto: Getty Images))

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Só que a nossa seleção acordou, voltando a ter a combatividade do passado e superando problemas físicos para conquistar o ouro em uma final com um inesperado 3 a 0 contra a Itália. Se os “meninos do vôlei” conseguiram voltar à glória do passado, é possível torcer para o mesmo destino para Ferrari e McLaren. Pena que, na F1, é difícil resolver tudo de forma tão rápida. 

Ainda no vôlei, Serginho é um grande exemplo para os campeões do grid da F1 que, hoje, não conseguem mais chegar em primeiro. Após a conquista em Atenas 2004, o brasileiro bateu na trave nos dois Jogos seguintes. Ele chegou a se aposentar da seleção, mas retornou no ano passado para não só conquistar o ouro no Rio, mas também para ser eleito, aos 40 anos, o MVP – o jogador mais valioso do torneio olímpico. Não é pouco e é uma ótima inspiração para Kimi Räikkönen, Jenson Button, Fernando Alonso e até Sebastian Vettel, por que não?

Bruno, o levantador do vôlei, pode ser o espelho de superação para Nico Rosberg, da Mercedes. O jogador foi um dos grandes expoentes de uma geração do vôlei que viveu à sombra de um grupo vitoriosíssimo e que conquistou duas pratas em Olimpíadas – assim como o piloto alemão, que vive a sombra de outro grande campeão local — Michael Schumacher — e teve dois vices nos últimos dois anos.

Serginho teve papel decisivo na recuperação da Seleção de Vôlei do Brasil nas Olimpíadas do Rio (Serginho foi um dos destaques da seleção de vôlei do Brasil (Foto: Getty Images))

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2016 parecia o de Nico, que começou avassalador – mas o companheiro de Lewis Hamilton respondeu e agora lidera o Mundial de F1. Se o alemão não virar o jogo, este pode ser o último ano de domínio amplo da equipe Mercedes, já que o regulamento técnico vai mudar na próxima temporada, e isso pode mexer com o equilíbrio de forças. Assim como era em Bruno, o peso nas costas é grande em Rosberg.

Falando em Hamilton, o inglês pode trocar algumas palavras de motivação com Michael Phelps. O americano, assim como o tricampeão da F1 nas temporadas recentes, parecia praticamente invencível nos dois Jogos Olímpicos anteriores. Só que, após Londres 2012, Phelps anunciou a aposentadoria do esporte – isso após viver quatro anos muito difíceis, com uma grande exposição, inclusive sendo fotografado usando um “bong”, aparelho utilizado para fumar ervas (que pode ser desde tabaco a maconha). 

O multimedalhista voltou para a natação em 2014, mas, ainda assim, as coisas não melhoraram: foi preso naquele ano por dirigir embriagado. Sem ninguém saber, o atleta sofria de depressão e com o alcoolismo. Procurou a ajuda dos Alcoólicos Anônimos e, no começo de 2015, casou com a ex-Miss Califonia Nicole Johnson, que também lhe serviu de apoio.

“Eu era um desastre ambulante”, disse o nadador recentemente para a ESPN dos EUA, comentando sobre o período de descontrole. “Eu era como uma bomba-relógio, esperando para explodir. Eu não tinha autoestima. Tinha horas que eu não queria estar lá.  Não era bom. Eu me sentia perdido”.

Michael Phelps saiu da Rio 2016 consagrado (Michael Phelps foi um dos grandes nomes da Rio 2016 (Foto: Getty Images))

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Phelps se reencontrou. Com a esposa e o filho, o pequeno Boomer, na arquibancada, o norte-americano conquistou cinco medalhas de ouro no Rio de Janeiro, além de uma de prata. Um recorde de 23 ouros, transformando-o no maior atleta da história – seja ela moderna ou antiga. 

Hamilton liderou com facilidade os dois últimos mundiais. Um tricampeonato incontestável, mas o piloto passou a ser ele próprio contestado após um início mediano em 2016, fotos em baladas e curtindo a vida noturna de Nova York – enquanto não faz questão de ter uma boa convivência com o companheiro de equipe, com eles se encontrando, e se estranhando, algumas vezes pelas pistas do mundo. 

Lewis Hamilton, assim como Michael Phelps, precisa se reencontrar. A grande vantagem é que o piloto inglês parece estar próximo desse objetivo. Agora, ele lidera o Mundial de Pilotos, 19 pontos na frente de Rosberg.

Não acabou, não. Ainda tem a Indy. O exemplo Olímpico pode servir para dar mais garra para a dupla Scott Dixon e Tony Kanaan, da Chip Ganassi. Dixon, campeão de 2015, não está tendo uma boa temporada atualmente: foi apenas uma vitória, em Phoenix, e um quinto lugar no geral até este momento. O brasileiro também ainda não se encontrou na equipe, na qual está já pelo terceiro ano seguido. No momento, Kanaan é sexto colocado no campeonato – justamente empatado com o neozelandês.

Para Kanaan, o estimulo pode vir da seleção de futebol. Sem nunca ter conquistado antes o ouro olímpico, o time liderado por Neymar, Weverton e companhia chegou na Rio 2016 extremamente questionado, no pior momento do futebol brasileiro e vendo aquele que seria o técnico do time, Dunga, demitido após o vexame na Copa América Centenário. Mesmo com tudo contra e com um começo de campeonato criticado, a seleção venceu. Foi ouro, finalmente.

Não que Tony, ou mesmo Dixon, tenham chances de serem campeões este ano – Simon Pagenaud, da Penske, parece estar vivendo seu ano de Usain Bolt e está liderando com grande folga. Porém, o brasileiro pode planejar uma volta por cima no próximo ano. 
(Usain Bolt fez história na Rio 2016 (Foto: Getty Images))

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Ao menos, diferentemente da seleção, esse ouro ele já tem: foi campeão da Indy em 2004, ainda pela equipe Andretti Green. E, se alguém falar que ele, aos 40 anos, já está velho, é só citar também o exemplo do Serginho do vôlei… 

Ainda nas fileiras norte-americanas, outro que está precisando um pouco da superação proporcionada pelo espírito olímpico é Juan Pablo Montoya. Depois de anos fazendo apenas figuração na Nascar, o colombiano parecia ter se encontrado mais uma vez na Indy. Ano passado, o veterano venceu as 500 Milhas de Indianápolis e lutou pelo título da temporada até o final, ficando com o vice-campeonato. Só que essa chama se apagou: em 2016, o piloto da Penske é apenas o 12º, enquanto o companheiro de time segue na liderança. Isso mesmo tendo vencido na abertura da temporada, em São Petersburgo. 

Está claro que Montoya, sempre famoso por ser “rechonchudo”, está bem fora de forma. Mais do que qualquer inspiração para superar as dificuldades deste ano, o colombiano precisa reencontrar a motivação para a própria carreira e a forma ideal. Ela pode vir, porque não, da nadadora brasileira Poliana Okimoto: após abandonar a maratona aquática em Londres com hipotermia, ela conquistou o bronze na Rio 2016 após a desclassificação da francesa Aurelie Muller.

Assim como Montoya, Poliana teve as próprias frustrações. Em seguida aos Jogos de Londres, a nadadora entrou em depressão, sem acreditar mais em si. Ela só se reencontrou no Mundial da categoria de 2013, quando foi campeã. 

Por último – mas nem por isso menos importante – há Valentino Rossi. O piloto da Yamaha vive o maior jejum da carreira: não é campeão da MotoGP desde 2009. Ele bateu na trave nos dois últimos anos e, agora em 2016, aparece novamente em segundo, atrás de Marc Márquez, da Honda. O já citado exemplo do Serginho do vôlei cai como uma luva para o italiano, mas não é só esse. Há também o do nadador Anthony Ervin.

Anthony Ervin arrasou nos 50 m (O nadador Anthony Ervin (Foto: Getty Images))

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Ervin foi, em Sidney 2000, o mais jovem vencedor da história dos 50 m livre, a “F1 da natação”. Porém, em 2003, o atleta resolveu se aposentar e até leiloou a medalha de ouro no eBay para arrecadar dinheiro para as vítimas no Tsunami de 2004. Depois de anos vivendo uma vida fora dos holofotes, o americano voltou a nadar em 2011. Agora em 2016, Ervin reapareceu na Olimpíada para vencer mais uma vez nos 50 m – e se transformar no nadador mais velho a conquistar uma medalha de ouro na história dos Jogos. Além disso, ele também garantiu o ouro no revezamento 4×100 m livre.

Acha pouco? Teve Rafaela Silva, Thiago Braz da Silva e outros atletas que, silenciosamente, superaram histórias de vida difíceis para conquistar o ouro. São relatos que servem de inspiração para pilotos e para todos nós, que sofremos, em maior ou menor grau, com as dificuldades das nossas vidas e do dia a dia. 

Exemplos dos Jogos Olímpicos de 2016 é o que não faltam. Resta, agora, aos pilotos se deixarem ser contaminados pelo espirito do Rio de Janeiro e mudarem um pouco o panorama do automobilismo e do motociclismo no restante do ano. Será que ainda dá?