"Um pilotaço"! Logo após João Paulo de Oliveira conquistar a pole da Corrida de duplas da Stock Car, neste mês de março, em Interlagos, a reportagem do GRANDE PRÊMIO entrevistou Cacá Bueno e perguntou sobre o então parceiro de Daniel Serra em seu carro da Eurofarma. A resposta foi simples: duas palavras, um elogio claro.
JP de Oliveira confirmaria sua qualidade 24 horas depois, conquistando de fato a vitória na abertura da temporada da Stock. E isso mesmo praticamente sem treinos, já que encarou viagem de 30 horas e ficou sem dormir, além de perder as duas primeiras sessões exclusivas para novatos. Nada disso importou: dentro do carro, mostrou todo seu talento.
Só que o fã brasileiro pode ter se surpreendido: quem é este piloto que vem como convidado e domina a principal categoria do Brasil como se estivesse nela há anos?
Radicado no Japão há 15 temporadas, JP pode não ter o nome mais famoso entre os pilotos brasileiros. Mas é reconhecido, e muito, por seus iguais. Se o Japão é a terra dos super-heróis, guarda também quase a sete chaves um 'super-piloto'.
O GRANDE PRÊMIO tenta mostrar, então, um pouco deste gigante piloto,hoje no Super GT, um daqueles que dá esperança ao automobilismo nacional.

João Paulo de Oliveira chegou ao Brasil, pouco treinou e, mesmo assim, venceu a Corrida de Duplas com Daniel Serra (João Paulo de Oliveira)
GRANDE PREMIUM: Por ser um nome pouco conhecido do público brasileiro, por correr no Japão há anos, você consegue sentir reconhecimento de seu talento ao menos dos pilotos?
João Paulo de Oliveira: Dos pilotos, com certeza. Acho que, destes pilotos (da Corrida de Duplas da Stock Car) a gente teve alguma participação junto, em alguma categoria do mundo, ou até no período em que eu estava correndo no Brasil. Então tem um certo reconhecimento, mais por eles já me conhecerem e saberem de onde eu vim e para onde eu fui. Acho muito legal isso. Agora, com relação à mídia, de não ser tão falado, acho que isso é o de menos para mim. Não me preocupo.
GP*: Por que essa escolha em sair do país (JP corre fora do Brasil desde 2001 e, no Japão, desde 2004)?
JP: Surgiu a oportunidade quando eu fui vice da F3 Sul-Americana (2000). Então, eu utilizava um chassi um pouco defasado em relação ao campeão, Vitor Meira, eu usava um chassi 94 e o Vitor usava um 2000. E o engenheiro da Dallara, que veio da Itália para dar assistência à equipe, me conheceu e me chamou para fazer um teste de F3 na Itália, um teste coletivo da F3 alemã. Fui para fazer esse teste e quando fiz alcancei um resultado muito bom: fiz o primeiro tempo com 30 e poucos pilotos na pista. E isso me deu a oportunidade de fechar contrato para correr lá fora. A partir daí tudo foi meio que engatinhando. De um galho fui ao outro, porque as oportunidades foram aparecendo depois que fui correr lá. E eu nunca tive a oportunidade de levar um suporte financeiro, então tive que fazer o que eu podia com aquilo, sem a possibilidade de escolher onde eu ia correr, e mais aceitando as possibilidades que apareciam pelo caminho.

GP*: Você conseguiu como melhor resultado no Super GT o vice em 2015 (foi campeão da Super Formula em 2010). Algo faltou para o título ?
JP: O Super GT é muito difícil de acompanhar à distância. Porque é uma categoria que é uma guerra de fabricantes de carros, de montadoras de carros e de fabricantes de pneus. As fabricantes de pneus acabam sendo muito importantes, talvez até mais importantes que as montadoras de carro. Porque as corridas são longas, são corridas de Endurance, e o pneu faz toda a diferença.
Então na Nissan temos a equipe oficial da Nissan, as NISMO, Nissan Motorsport, e três equipes satélites. Infelizmente nunca tive a oportunidade de correr na equipe principal da Nissan, por motivos nos quais não vou tocar porque é muito longo, mas eu gostaria de ter guiado o carro principal da Nissan para ter brigado por campeonato. Na história, o carro da Calsonic nunca venceu o campeonato, nem outro carro da Nissan (em 2018, JP correrá pela Kondo). Então tem essa, vamos dizer, dentro da fábrica da Nissan tem essa superioridade da NISMO.
E eles usam pneu Michelin. E o pneu Michelin acabou sendo desenvolvido por eles. Nós usamos o pneu Yokohama, que na categoria, hoje em dia, não vem produzindo os melhores resultados. Então estamos trabalhando para conseguir um desenvolvimento bom. Mas a Bridgestone e a Michelin estão um passo à frente. A Yokohama e nós continuamos a trabalhar, a cada ano a gente tenta mudar a construção de pneu, é uma guerra enorme de construção de composto de pneu.
No Japão tem ida de teste em que eu coloco 20 jogos de pneus, construção diferente na frente, construção diferente atrás… A gente vai buscando o balanço do carro com a construção do pneu. Às vezes, quando você tem o teste do pneu, você pode trabalhar só no pneu, você não pode trabalhar no carro, para você ter o que apenas o pneu está fazendo. Então é realmente um automobilismo bem tecnológico, bem desenvolvido. Acho que muita gente hoje está começando a voltar a atenção para o Japão, a Super GT está crescendo bastante, muitas equipes europeias de GT3 estão colocando carros agora, a Audi, a Mercedes, a Porsche, colocam equipes de fábrica, e isso engrandece a categoria.
(João Paulo de Oliveira no Super GT)
GP*: Que você tenha corrido junto, que nome de piloto japonês te marcou?
JP: Japonês acho que, hoje, alguns pilotos têm um nível excepcional. Quer dizer, o (Hiroaki) Ishiura, atual campeão da Super Formula, o próprio Kazuke Nakajima, um piloto que tem um leque de adaptação muito grande, porque ele anda no WEC, na Super Formula, no Super GT, então você tem que estar andando com três carros diferentes e, ao mesmo tempo, você tem que estar desenvolvendo sua capacidade de adaptação.
GP*: Como foi se mudar aos 19 anos e se entrar na vida adulta no Japão?
JP: Tudo foi diferente. A cultura japonesa, a forma de viver, de conversar, de se relacionar com as pessoas é muito diferente daqui. Eu estou há 15 anos no Japão, e acho que isso me mudou como pessoa. Porque o Japão é um lugar em que, posso dizer assim, a tradição, a educação é um diferencial. A organização… Então isso, acho que acabou me esculpindo. Hoje tenho até um pouquinho de dificuldade em encontrar algumas palavras em português, porque faz muito tempo, no meu dia a dia eu falo japonês, não fluente, mas me viro, e o inglês, que é a língua mundial do automobilismo, que o piloto tem que estar bem habituado com o inglês.
GP*: E a adaptação de pilotos estrangeiros em geral ao Japão?
JP: Muitos estrangeiros não conseguem adaptação completa no Japão, mas pela cultura, pela forma com que eles trabalham, que você precisa de adaptar a ela, você não pode tentar mudá-la, os japoneses não estão lá para que você tente mudar o jeito com que eles trabalham. Os pilotos estrangeiros que acabam não tendo uma adaptação completa reclamam inicialmente, e isso atrapalha a confiança do japonês no próprio piloto.

GP*: Qual o seu plano em relação ao Brasil? Você pensa em voltar?
JP: Por enquanto não está nos planos. Mas a gente vai ver, dependendo do andamento das coisas… Eu sempre fui um piloto que gosta de brigar por campeonato. E hoje, infelizmente, pelo menos nos dois últimos anos, eu não tive como brigar por campeonato por 'N' fatores. Pela categoria ser tão complexa, em termos de tecnologia. Mas o reconhecimento… Eu estou com a Nissan pelo 13° ano. E o reconhecimento por parte deles é algo que me deixa preso, no bom sentido, de ter essa confiança, essa lealdade que existe entre nós, deles confiarem no meu trabalho e me darem condições muito boas.
GP*: Foi surpresa a vitória na Corrida de Duplas?
JP: O objetivo é sempre vencer, independentemente da categoria, independentemente da situação a gente tem que buscar fazer o melhor trabalho. Agora, diante da dificuldade dos dois últimos dias, de perder os dois primeiros treinos para novatos – ou seja, quase duas horas que eu perdi -, isso me atrapalhou um pouco na adaptação. Mas soube manter a calma e virar, fazer meu melhor resultado na hora mais importante.