Desde a metade de 2014, quando o SporTV passou a ser o responsável pelas transmissões dos treinos livres e de classificação da F1 para o Brasil, Max Wilson acumulou duas funções: além de piloto na Stock Car, entrou de cabeça como comentarista.
Não é difícil entender como o piloto se deu bem na segunda profissão: nas coberturas da Stock Car, é um dos que fala com clareza de ideias, com tom que ajuda os repórteres e, consequentemente, o público a entender o que ele quer dizer.
Perfeito para a televisão, no caso, já que agradar ao público e conseguir transmitir a informação com compreensão total é essencial. Mas o curioso é: Max, de 46 anos recém-completados, não teve treinos para isso.
O GRANDE PREMIUM, então, conta histórias curiosas de Wilson fora da pista, mas dentro da cabine: com terno, calça e fones no ouvido. E tenta explicar por que o piloto se deu tão bem na TV.

Max Wilson ao lado de Sérgio Maurício, Lito Cavalcanti e Reginaldo Leme no SporTV (Max Wilson, SporTV)
Como Max Wilson virou comentarista? Nem ele sabe.
"Esse mistério nem eu sei como exatamente aconteceu. Eu vou contar uma coisa que aconteceu, mas não tive interferência nenhuma com essa nova profissão que eu tenho há quatro anos. Há mais ou menos 20 anos, quando eu corria na F3000, que hoje é a F2, eu também era piloto de testes da Williams. E me convidaram, em umas duas corridas, a Globo, para ser comentarista. Participei de duas transmissões no final dos anos 1990 com o Galvão [Bueno] e com o Reginaldo [Leme]. Mas algo pontual. Já em 2014, quando me convidaram de vez, eu recebi uma ligação de uma pessoa do SporTV, que na ocasião eu nem conhecia, e ele me chamou para participar da transmissão do GP da Hungria, primeira vez que o treino classificatório passou no canal. Não sei como chegaram a mim, nunca tive nada com televisão. E o pouco que me falaram foi: ‘Queremos alguém que já andou de F1'."
"A ligação foi na quinta-feira, 18h, para estar lá no sábado, dois dias depois. Falei que nunca tinha feito isso e pedi para ligarem amanhã, para ver minha agenda. Aí, no dia seguinte, acordei cedo para ver a transmissão [dos treinos livres] no SporTV e, de repente, o Sérgio Maurício anunciou meu nome como participante do dia seguinte. Bom, ficaria chato eu não ir, peguei e fui. Eles não tinham nem roupa para esse meu tamanhão todo — Wilson tem 1,67m —, fizeram adaptações… Fui, participei, na etapa seguinte me chamaram de novo, e assim foi. Ao final de 2014, após fazer todas as etapas, me convidaram para ser comentarista de fato da F1. E a partir de 2015, me tornei oficial."

Max vê dois nomes como bases para que seu trabalho funcione na TV: Sérgio Maurício e Lito Cavalcanti, seus principais parceiros nas transmissões. Segundo o piloto, são eles que lhe deixam à vontade.
Mesmo assim, curiosamente, não quer dizer que concordem em tudo. Lito contou ao GRANDE PREMIUM sobre como eles, constantemente, discordam: "Ele é uma surpresa em termos do desempenho da classe. Ele tem o raciocínio lógico, sabe se explicar muito bem. Mas a gente discorda muito, em punições da F1, por exemplo, mas simplesmente discorda. Ele é super articulado. Super racional, mas isso não quer dizer que concordamos em tudo. Ele acha o Carlos Sainz um ótimo piloto. Eu acho que ele é uma mentira. Mas tudo bem. Somos maduros", diz.
"É engraçado. Uma vez ele participou do ‘Linha de Chegada’ como convidado. A nossa coordenadora então disse para o Max que ele ia trabalhar em televisão um dia, porque o talento era visível. Isso lá por 2012", continua.

O fanático por automobilismo pede sempre que as transmissões do esporte no país sejam mais longas: seja com o pódio ao vivo, seja após treinos, com as entrevistas dos pilotos. O SporTV não fazia isso até 2015 — quando, de surpresa, Wilson se viu como responsável pela transmissão simultânea do que Lewis Hamilton, Sebastian Vettel e companhia falavam logo após o fim da sessão classificatória.
Sem treino específico e sem cursos de locução, já que o canal afirmou que não havia necessidade, Wilson se viu ao vivo sendo obrigado a traduzir para todo o público. O piloto/comentarista conta como resolveu seu pequeno 'drama'.
"Eles falaram que iam transmitir a coletiva e perguntaram na hora se eu podia traduzir. E eu nunca havia feito isso na vida, mesmo falando inglês. E tive dez segundos para responder sim ou não. Ao vivo, na hora. Fiquei um pouco nervoso, mas quando acabou falaram que ficou legal. Depois só adaptei algumas coisas para facilitar a tradução, que é basicamente tirar o retorno — espécie de fone na qual quem está na transmissão ouve sua voz e a de seus companheiros. Senão eu me ouço e aí não consigo ouvir os entrevistados. Depois de uma três, quatro etapas, percebi isso e me ajudou bastante", afirma.
E essa nem foi a transmissão mais difícil. Como também Max não considera a primeira a mais complicada, apesar da roupa que teve que utilizar no dia: "Na primeira, eu fiquei na frente da câmera com um terno que vinha até o meu joelho. Aí eu tinha que colocar a mão no bolso, ficou um negócio meio enrugado aqui", lembra Wilson, que ri ao lembrar do seu começo na telinha.
Em termos de dificuldade, Max recorda de um treino livre em que, ao lado dos seus companheiros de cabine, teve de 'se virar': "Teve uma corrida, há uns dois anos, que aconteceu algo chato na transmissão, mas por um lado também legal. A transmissão do TL3 demora mais ou menos uma hora, mas esse treino teve muita chuva, então a gente ficou no ar umas quatro horas, e sem um carro na pista".
"Não teve o treino, e você ficar quatro horas no ar falando coisas, você tem que falar bastante coisa para não perder o foco. Você não pode falar abobrinha. Começamos a conversar, mas não sobre o que estava acontecendo, afinal, nada acontecia. E ao longo desse tempo, foram chegando pessoas para acompanhar a gente na cabine, que é de vidro, pessoas de outras transmissões. E eles foram lá porque era algo meio que inédito, ficamos um tempão e eles assistindo, foi bem legal. Talvez até aprendendo com a gente. Foi engraçado e diferente. E acabou unindo nosso grupo."
Outra situação foi um pouco mais curiosa: um alarme de incêndio tocou durante a transmissão. Seria real, o prédio da Globosat estaria pegando fogo? Ou seria um treinamento?
"Eu não sabia se saía correndo ou o que eu fazia!", brincou. No fim, era treinamento para que os funcionários soubesse o que fazer durante um incêndio. Sorte, pois nem Wilson nem quem estava com o comentarista na transmissão saíram da cabine.

Porém, a relação mais especial de Wilson é com Sérgio Maurício, a quem chama de amigo mais do que de parceiro de transmissão. E de quem recebe ligações em momentos únicos na vida.
"Minha relação com o Sérgio passou a ser mais próxima em 2014. E a maneira com que ele fala com você, principalmente com quem está começando, ainda mais algo com essa exposição da TV, ele me deixou tão à vontade… Foi um diferencial muito grande. E trabalhando juntos há cinco anos nos tornamos muito amigos. Quando a esposa dele engravidou, ele contou primeiro para o pai dele e para mim. Eu tenho 46 anos, tenho amigos há muito tempo, mas a amizade dele é nova e muito forte. A gente fala sobre tudo, profissionais e pessoais. Sou muito grato. Amizade para mim é para sempre, eterna. Mesmo sem saber por quanto tempo trabalharemos juntos."
O narrador confirma a história, e conta que Wilson é também muito amigo de sua esposa, Viviane, que é "mais fanática por automobilismo do que eu e ele juntos":
"Realmente aconteceu essa situação, quando a Viviane ficou grávida ele foi a segunda pessoa para quem contei. Ela é fanática. Então ele vivendo aqui em casa sempre teve um contato muito legal com ele. É um irmão."
(Sérgio Maurício e Max wilson)
Sérgio também vê o piloto como exatamente isso: um irmão. E lembra de momentos em que se ajudaram, mostrando a força que a relação ganhou com os anos.
"Eu passei por problemas, desabafei com ele. Ele passou por problemas, até depoimentos dei a favor dele. São coisas que temos que é difícil nesse nosso mundo. Fazemos muitos colegas, mas amizades, mesmo… Então me sinto orgulhoso de ter o Max como amigo, irmão. Alguém que sempre está sorrindo, nunca o vi de cabeça baixa, nem nos piores momentos. Ele é sempre positivo e tenho muito orgulho de trabalhar com ele. Acho que ele vai muito longe quando sair da pista e se tornar um comentarista para valer, em tempo integral."
"Eu sempre admirei ele porque guiou tudo: V8 Australiana, carro de turismo, fórmula em várias categorias, foi piloto de testes da F1, fora os anos todos dele de kart… É um cara que tem um conhecimento de automobilismo muito grande. Sempre disputando, ganhando, batendo roda com os melhores, com a geração de ouro do nosso automobilismo. É um cara maduro, cascudo, que pôde agregar para nós na transmissão uma informação técnica, uma informação de dentro, que a gente não tinha", seguiu o narrador – que, inclusive, vê méritos do piloto no aumento de audiência das transmissões da F1 nos comentários de Max.
"Eu fui piloto de kart seis anos, disputei carioca de kart, brasileiro, mas de uma forma amadora, não profissional. Mas uma coisa é participar de forma amadora, outra coisa é ter o cara que conhece o meandro da coisa, o interno, e não só a parte mecânica, e sim a parte estrutural, o ambiente, e fora a pilotagem. Então isso agregou muito à nossa transmissão e as nossas audiências aumentaram muito no SporTV, e eu acho que em decorrência disso também. O Max, para nós, é o cara que nos faz entender as coisas. Fora isso, ele é um sujeito formidável, agradável, um pai e filho maravilhoso. Ele é uma pessoa de uma generosidade, de uma benevolência…"
Por fim, Max conta se pensa em seguir como comentarista após parar de correr nas pistas.
"Eu estou com 46 anos. Por quantos anos vou correr? Não sei dizer. Depende da vontade, das oportunidades… Mas hoje me sinto bem para correr. E gosto muito disso, apesar de fazer há muito tempo. Por enquanto, não vou parar tão cedo. Se vou me focar só na televisão? Não sei. Consigo fazer as duas ao mesmo tempo. Uma agrega à outra. Cada dia é um aprendizado aqui e lá. Mas a tendência é começar a me engajar mais com a televisão.. Sem plano definido, porém."
O maior gosto, enfim, é o de passar informações para o público.
"Por ter um microfone na mão, tenho a oportunidade de falar sobre coisas sobre postura, valores… Se eu fosse um jovem, uma criança, eu ia gostar de saber dessas coisas. Já que tenho essa oportunidade de passar uma mensagem boa…"