Cerca de duas horas depois do fim do primeiro treino livre da etapa decisiva da Stock Car, em Interlagos, a reportagem do GRANDE PREMIUM esteve nos boxes da Cimed para bater um papo com o líder do campeonato e homem que está prestes a fazer história no automobilismo brasileiro. Nesta manhã de domingo (11), Felipe Fraga precisa apenas terminar em 12º para se tornar o piloto mais jovem a ser campeão na Stock Car, com 21 anos, oito meses e cinco dias. Até então, o recorde é de Giuliano Losacco, que brilhou no meio da década passada, faturando seu primeiro título com 27 anos, oito meses e 15 dias.

Desde o início da sua carreira na Stock Car, Fraga se acostumou a quebrar recordes. Nascido em Jacundá, no Pará, o menino Felipe foi criado desde quase sempre no Tocantins, onde iniciou sua carreira. Foi lá que o jovem piloto deu suas primeiras aceleradas no kart, logo demonstrando um talento singular. Felipe conquistou nada menos do que cinco títulos brasileiros, além da Seletiva Petrobras, em 2010, e do Super Kart Brasil, competição que marcou época por aqui.

A grande jornada de Fraga no kart, quando ainda tinha 15 anos, lhe rendeu o convite para correr na estrelada equipe de Rubens Barrichello para disputar as tradicionais 500 Milhas de Kart. Voltaremos a este acontecimento logo mais.

No fim de 2011, Fraga assinou um contrato que mudou sua vida. Quando tinha 16 anos, se uniu à Red Bull para integrar o concorrido programa de formação de pilotos. Logo, cruzou o Atlântico para correr na Europa pela F-Renault Alps, disputando também algumas etapas da F-Renault Europeia a partir de 2012. Mas não foi uma jornada fácil, tanto que aquele ano representou uma transição na sua carreira. Depois de perceber que não valeria investir tanto dinheiro com resultados abaixo do esperado, Fraga voltou ao Brasil e alinhou para correr no Brasileiro de Turismo, que nascia para ser a divisão de acesso à Stock Car.

Seu desempenho foi acachapante, sendo pole-position em sete das oito corridas, conquistando nada menos que quatro vitórias. Um desempenho que lhe valeu o título, logrado com folga. E, de quebra, veio a chance de correr na disputada Stock Car. Fraga estreava na principal categoria do automobilismo nacional com 18 anos, sete meses e 20 dias, o terceiro mais jovem a fazê-lo na história — só atrás de Thiago Camilo e Gabriel Casagrande.

No entanto, Fraga quebrou seu primeiro grande recorde de precocidade ao ser o mais jovem piloto da história a vencer uma prova na Stock Car, triunfando na etapa de abertura da temporada 2014 na corrida de duplas ao lado de Rodrigo Sperafico, vestindo as cores da Vogel. Foi o cartão de visitas de um piloto que se mostrava diferente, ímpar, diferenciado e que, com o devido amadurecimento, teria tudo para brilhar ainda mais na Stock Car.

Aos 21 anos, Felipe Fraga está prestes a fazer história no automobilismo brasileiro ((Foto: Bruno Terena/Red Bull Content Pool))

Pouco mais de dois anos e meio depois daquela conquista histórica em Interlagos, Fraga volta ao circuito paulistano. Não mais na condição de novato que ocupava em março de 2014. De forma até inesperada pelo próprio, Felipe hoje não só é postulante ao título da Stock Car, mas é o grande favorito ao título, podendo se dar ao luxo de sequer precisar chegar entre os dez primeiros para garantir um triunfo para a história. Fraga chega a Interlagos após ter feito uma temporada memorável: cinco vitórias e quatro poles, a última conquistada no último sábado. Um desempenho incontestável que só não o levará ao título se o destino lhe pregar uma peça das mais cruéis e injustas.

Nos boxes da Cimed, o dono da equipe, João Adibe, brincava com o êxito do seu pupilo nesta temporada. “Nunca paguei tanta premiação na minha vida [risos]. A coisa que eu mais gosto é pagar premiação”, dizia o empresário, evidenciando o clima leve e tranquilo na equipe que vem dominando a Stock Car desde o ano passado, quando Marcos Gomes faturou a taça na mesma pista que recebe neste domingo a grande final da temporada 2016.

Fraga, da mesma forma, se mostra muito relaxado com o que está por vir. “Estou tranquilo, sabe? Não tem muita cobrança. Até perguntei ao Marcos mais cedo sobre ano passado, como foi a decisão. Talvez tenha sido mais difícil para ele do que para mim porque ele já tinha batido na trave outras vezes, então ele tinha mais cobrança, se não fosse campeão, seria difícil para ele. Então, estou tranquilo porque não esperava por isso, nem minha equipe. Quando entrei para a Stock Car, sabia que tinha talento para brigar com os ponteiros, mas brigar pelo campeonato é outro nível. Mas está dando certo neste ano.”

“Com certeza é algo precoce, mas estamos tranquilos. O que é para ser nosso, meu e da minha equipe, vai ser, e se for para ser domingo, vamos ser campeões. Se não der certo, vamos lutar ano que vem de novo, mas acho difícil não dar. O carro está muito bom, a equipe está muito tranquila, sinto que o time está mais tranquilo do que no ano passado porque já passaram por isso uma vez, então vai dar tudo certo”, diz o líder do campeonato.

Fraga creditou boa parte do seu sucesso ao trabalho duro da equipe chefiada por William Lube ( )

Fraga exaltou uma característica que contribuiu de forma decisiva para que hoje ele esteja com uma mão e meia na taça de campeão da Stock Car: a maturidade adquirida nos últimos anos.

“Acho que o ano passado serviu muito de aprendizado. Até o acidente eu não tinha um carro tão bom, mas mesmo assim deixei de fazer alguns pontos importantes por culpa minha. Muitas vezes estava em quinto e queria ganhar corrida, mas era impossível, ia lá e batia… e o Marcos fazendo o oposto, correndo bem mais tranquilo. Mas é assim mesmo, a gente só aprende errando. Ano passado errei muito, bati muito, dei muito prejuízo para a equipe, mas hoje estou com outra cabeça, o carro está bem melhor também, então acho que foram dois anos muito bons”, resume.

Felipe lembra que a atmosfera na Cimed é de muito trabalho e confiança, mas também de tranquilidade por saber que a missão tem sido cumprida com excelência. “A equipe está muito bem, cara. Eles estão muito tranquilos. A gente é líder do campeonato, mas os mecânicos da Cimed ficaram aqui até à noite ontem, foram os últimos a sair do autódromo. Todas as outras equipes estavam já com capas [nos carros], e os mecânicos aqui trabalhando… não que a gente esteja trabalhando mais que os outros, mas eles sabem que ainda não acabou. E eles estão muito confiantes. Eu também, estou tranquilo. Acho que não adianta ficar nervoso agora. É lidar com a corrida como se fosse qualquer outra, é acelerar para ver quem é mais rápido e na corrida a gente vê o Barrichello e vê o que faz.”

Outro fator decisivo que tem ajudado de forma fundamental no crescimento da carreira de Fraga atende pelo nome de Cacá Bueno. O maior campeão da Stock Car em atividade tem sido figura presente na vida profissional de Fraga tão logo o jovem piloto voltou ao Brasil para retomar sua carreira e fazer a transição nas pistas. Cacá acabou sendo importante ao mostrar que a Vogel era uma boa opção para seu início de carreira, da mesma forma como tem sido agora, com a Cimed. Cacá orientou Fraga a controlar mais seu ímpeto e ser conservador quando fosse preciso. E tem dado certo, muito certo.

“Desde o ano passado converso muito com ele. Quando batia muito no ano passado, ele me dizia para ser mais tranquilo, que eu tinha de aprender que quando tivesse carro para terminar em décimo, que eu terminasse em décimo; que quando tivesse carro para ser quinto ou então vencer, que essa teria de ser a posição. Estou seguindo mais isso, mas o carro está muito bom, consegui vencer cinco corridas. Mas aprendi”, diz.

“Por exemplo, em Tarumã, tinha carro para ganhar a corrida, mas desisti porque estava com o desgaste do pneu muito alto, então preferi garantir 25 pontos. Então o Cacá me ajudou muito, fala muito comigo, me fala que neste fim de semana é correr para o campeonato, que não adianta ganhar a corrida… daqui a dois meses, o pessoal vai esquecer se ganhei a corrida ou não, mas não vai esquecer nunca se eu for campeão. Então vamos com calma que o objetivo é só o campeonato”, alerta.

“Depois dos erros que a gente comete, fica bem mais fácil de analisar. Tive muitas corridas em que estava em quarto, quinto, e acabei batendo sozinho nas últimas voltas. Era muito desnecessário. Mesmo com um carro não tão bom, poderia ter chegado em quinto, sexto… seria bem melhor que nono. Hoje vejo que não adianta andar mais que o carro, que se não for o dia, não vou ser eu que vou fazer ganhar a corrida. Então tem de ir na boa. E aqui em Interlagos vai ser assim. Na Stock Car não há meio termo: duvido que alguém queira ir na boa e ao mesmo tempo bem rápido, não tem como. Tem de acelerar da mesma forma. Mas, por exemplo, na chicane não dá para arriscar. Na corrida, é ver o que a gente faz. O Cacá até falou que nesta corrida, se precisar, tenho de deixar alguém passar como jamais deixaria, deixar de tentar uma ultrapassagem que eu conseguiria, então são pontos que dá para evitar. Mas não vou ser tão lento, tão conservador, que acho que isso acaba atrapalhando. Aí, quando você vê, está em 11º, ficando só a uma posição [de perder o título], então não quero deixar chegar a esta situação.”

Cacá Bueno é o grande mentor da carreira de Felipe Fraga (Cacá Bueno e Felipe Fraga (Foto: Divulgação))

Fraga tem uma ótima relação com Marcos Gomes, seu companheiro de equipe desde o ano passado e que vai continuar a sê-lo no ano que vem, quando a Cimed terá quatro carros — Marquinhos, Cacá Bueno, Fraga e Denis Navarro. Felipe não escondeu que torce para Gomes ganhar a última corrida desta temporada, por alguns motivos: primeiro, pelo merecimento diante de um ano que não foi nada fácil para sua carreira depois da conquista do título. E, depois, para ajudar a Cimed e a si próprio a garantir os dois títulos em jogo em 2016. No entanto, Marquinhos larga em décimo, o que torna mais difícil o desejo de Fraga ser atendido.

“Minha maior preocupação e torcida é pelo Marcos Gomes. Quero muito que ele ganhe essa corrida. Se ele ganhar essa corrida, não preciso nem chegar em 12º, mas sim em 17º, aí a gente estaria ajudando a equipe no campeonato de construtores e também me daria uma folga maior. Então estou torcendo para que ele vá bem. Ele teve um pouco de azar neste ano, faltou um pouco de sorte para ele estar disputando o título neste ano. Na última corrida, ele até poderia ter vencido, mas se segurou, então espero que ele consiga sumir na frente e deixar eu e o Barrichello para trás, aí eu ficaria mais tranquilo”, analisa.

A principal preocupação de Fraga, que vai largar na posição de honra do grid em Interlagos neste domingo, é o S do Senna. Na Corrida do Milhão, vencida pelo jovem piloto da Cimed há exatos três meses, Marquinhos se envolveu em um incidente com Ricardo Maurício justamente no S do Senna e ficou pelo caminho. Mas apesar da preocupação, Fraga garante que não vai ser tão cauteloso.

“Com certeza. A largada é muito perigosa, mas é aquele negócio, não adianta ficar se preocupando. Do mesmo jeito que é perigoso para mim, também é perigoso para o Barrichello, então não tem diferença. Quem tem de correr atrás de 37 pontos é ele. Então vamos com o objetivo de marcá-lo na corrida.”

O fato é que Fraga ainda não tem a dimensão de que está perto de fazer história e se tornar o mais jovem campeão da Stock Car. “É legal, sabe? Vi que mudou muito de duas corridas para cá. Hoje o pessoal me vê na rua e brinca: ‘Olha, não vai perder para o Barrichello’ [risos]. A galeria tá em cima, mas a ficha ainda não caiu, e isso é até bom para ficar com os pés no chão e estar tranquilo. Mas sei que, se ganhar, vai ser muito legal.”

“Quando entrei na Stock Car, sempre falei com meu irmão, com meu pai, que se ganhasse rápido um campeonato seria muito legal para a minha carreira. Então estamos perto de chegar lá, e se der certo no fim de semana, creio que isso vai abrir muitas oportunidades na minha carreira. Foi tudo muito rápido. Conversei com meu amigo, que sempre trabalhou com o Cacá Bueno e me acompanha a carreira inteira, e eu dizia: há dois anos eu nem tinha patrocínio para entrar na Stock Car. E hoje estou aqui, disputando o campeonato à frente do Cacá, à frente do Thiago Camilo, dos caras que eu sempre fui fã quando era moleque. E estou disputando o título com o Barrichello, que é o maior nome do automobilismo aqui depois do Senna, na minha opinião. Então tudo isso para mim é muito legal.”

Fraga travou grandes duelos com Barrichello, um dos seus grandes ídolos quando era menino no kart (Felipe Fraga e Rubens Barrichello (Foto: Fernanda Freixosa/Vicar))

Hoje rivais na luta pelo título da Stock Car, Fraga e Barrichello já foram companheiros de equipe lá em 2010, lembra? Nas 500 Milhas de Kart daquele ano. Mas antes mesmo daquela prova em que foi chamado para correr ao lado de grandes estrelas, Fraga já tinha grande admiração por aquele piloto que trilhava sua carreira na F1. Hoje, Felipe vive uma situação completamente inesperada ao batalhar pela maior conquista da sua trajetória ao lado de um dos seus maiores ídolos no esporte.

“Eu não consigo nem explicar. Para mim, é muito normal estar ao lado dele. No começo, quando eu ainda estava no kart e comecei a me destacar, ele me chamou para fazer as 500 Milhas com ele… Era fã dele… Lembro que ele me seguiu no Twitter, quase tive um treco [risos]. Falei para minha mãe, para o meu pai, meus amigos… ele ainda estava na Brawn na F1. Fiquei louco [risos]. Barrichello me seguindo no Twitter! E hoje estou aqui disputando com ele.”

“Então, nesse tempo no kart, eu me aproximei muito dele. Tenho uma relação muito boa com ele. Mas hoje eu não o vejo mais como um ídolo, mas sim como um concorrente. E isso tudo é muito louco, meio estranho, porque as pessoas acham o máximo, muito legal. Mas isso acaba sendo um pouco normal para mim, mas é muito legal. Sempre acompanhei o cara. Quem entende um pouquinho de automobilismo sabe o quão bom ele é, então eu o admiro demais. Se ganhar o campeonato, com ele em segundo, com certeza vai dar ainda mais brilho para o título”, destaca.

No fim das contas, quando olha para trás e vê o que já conquistou, o sentimento de Fraga é de felicidade, mas também de surpresa pela rapidez como chegou lá. E, se depender dele, vai continuar sendo assim por muito tempo em sua carreira nas pistas, seja no Brasil, seja ao redor do mundo.

“Tive uma carreira boa no kart, muito legal, ganhei bastante coisa. Na Europa, não fui tão bem no primeiro ano, mas era um ano de aprendizado. Depois faltou patrocínio lá na frente. No Brasileiro de Turismo, fui campeão, e agora estou na Stock Car. Então foi tudo muito rápido. Foi um projeto que nunca botei muita fé, me questionava: ‘Será que estou certo aqui na Stock Car?’. E hoje não troco isso aqui por nada. O mais jovem a ganhar o título da Stock Car foi o Losacco, com 27 anos, espero que eu bata esse recorde e torne essa marca mais difícil ainda de ser batida”, finaliza Fraga, enquanto conta as horas para fazer história.

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A imagem do ano: Fraga comemorando vitórias em um ano repleto de glórias na Stock Car ((Foto: Bruno Terena/Red Bull Content Pool))