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O ano era 1982. A F1 era um campeonato completamente diferente. Nelson Piquet, Alain Prost, Gilles Villeneuve e Niki Lauda eram apenas alguns dos nomes de destaque de uma categoria que estava perto de atravessar um de seus momentos mais conturbados. Os pilotos, mais unidos, estavam muito perto de aproveitar a instabilidade do certame para fazer uma greve e apresentar reinvindicações.
O ano é 2016. A F1 é um campeonato completamente diferente. Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Nico Rosberg e Daniel Ricciardo são apenas alguns dos nomes de destaque de uma categoria que já atravessa um de seus momentos mais conturbados. Os pilotos, dessa vez, estão menos mobilizados e parecem ter opiniões muito divergentes sobre o que deve ser feito em um momento de instabilidade. Mal sabem eles que o exemplo está em 1982.
A GPDA, Associação de Pilotos da F1, tenta fazer uma resistência contra os mandos e desmandos de um corpo dirigente corretamente avaliado como “obsoleto”. A entidade, agora capitaneada por Vettel, Alexander Wurz e Fernando Alonso, merece todos os méritos por finalmente tomar uma posição mais agressiva, clamando por uma renovação na categoria.

Os pilotos de 2016 precisam ser ouvidos. Que nem os de 1982 ((Foto: Getty Images))
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A verdade é que ainda falta muito para vermos a GPDA sendo um personagem decisivo na tomada de decisões da F1. Boa vontade não é nada sem pilotos mobilizados – algo quase inexistente na atualidade. Belas intenções não levam ninguém a lugar nenhum se contratos e patrocinadores atravancam tudo.
E é aí que está o desafio. A GPDA pode tentar muito, mas ainda será conduzida por pilotos que precisam zelar por suas equipes ou patrocinadores. Isso já foi um problema na greve 1982, quando os pilotos se uniram por discordar de novas imposições da FISA. As duplas da Toleman e da Tyrrell, por exemplo, foram obrigadas a participar do célebre GP de San Marino pela necessidade de satisfazer contratos.
Não sejamos utópicos, pois. Não vamos acordar no domingo de GP do Bahrein e descobrir que todos resolveram boicotar a prova. Mas os pilotos podem pressionar e ser ouvidos de outras formas. Através de cartas como a da semana passada, por exemplo. Dando ideias, sendo incisivos. Isso já seria um grande passo.

As disputas entre FISA e FOCA remontam o fim de 1980. Por volta de novembro, as equipes associadas à FOCA resolveram fundar uma entidade independente da FIA para reger seu próprio campeonato mundial. Em tradução livre, a Federação Mundial de Automobilismo foi responsável por organizar o GP da África do Sul de 1981 – prova que havia sido eliminada do calendário da temporada por conflito de datas.
O GP, independente, foi realizado normalmente e vencido por Carlos Reutemann, então na Williams. A prova, todavia, foi o único ato do campeonato independente: sem o apoio de grandes montadoras, como Ferrari e Renault, ou cobertura da mídia, o projeto estava fadado ao fracasso. Passado o entrave de Kyalami, a temporada 1981 da F1 transcorreu sem grandes problemas.
1982, por sua vez, foi um ano para lá de complicado. Tudo começou quando a FISA incluiu uma cláusula estranha na superlicença dos pilotos. Todos pilotos seriam obrigados a correr, por até três anos, por uma única equipe. Trocar de equipe ao fim da temporada – ou mesmo durante, algo muito comum na época – seria um processo muito mais complicado.
Niki Lauda e Didier Pironi organizaram uma greve de pilotos para o GP da África do Sul de 1982, que voltava ao calendário oficial da F1. A adesão foi incrivel: apenas Teo Fabi ficou de fora. Todos estavam concentrados em um hotel, sem sair de lá por qualquer motivo. Elio de Angelis, pianista, mantinha todos entretidos com um pouco de música. A prova esteve muito perto de ser cancelada, destino que só foi evitado por um acordo de última hora entre FISA, FOCA e GPDA. Era uma solução ao curto prazo, mas todos sabiam que o futuro era incerto.
O GP de San Marino, terceiro do campeonato de 1982, foi a prova disso. As equipes da FOCA, incomodadas com a desclassificação de Nelson Piquet e Keke Rosberg no GP do Brasil de semanas antes, optaram pelo boicote. Colin Chapman e Frank Williams chegaram ao ponto de dizer que não seguiriam na F1 enquanto Jean-Marie Balestre, manda-chuva da FISA, comandasse o campeonato.
Enquanto dirigentes batiam cabeça, pilotos e equipes nem se davam ao trabalho de aparecer em Ímola. Dos 31 pilotos do grid, apenas 14 alinharam na prova.
Depois do episódio, a briga entre FISA e FOCA começou a ficar mais amena, resultando em um acordo extremamente arrastado. Mas o exemplo já estava dado: os pilotos poderiam, sim, mostrar sua força.
(F1 1982)
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Como 1982 nos mostra, milagres podem acontecer quando um grupo de pessoas se reúne e se apoia. Os eventos de 24 anos atrás provavelmente nunca se repetirão, mas devem servir como marco entre pilotos. Pouco a pouco, passo por passo, avanços significativos podem ser alcançados.
Mas é importante que a harmonia de ideias exista. Hamilton, por exemplo, não quer saber de propor novas ideias ou de tentar mudar um campeonato em que obteve muito sucesso. O tricampeão é o exemplo que salta aos olhos, mas certamente não é o único: o que não falta na F1 atual são pilotos que pouco se preocupam com a politicagem que os circunda.
E aí, meu amigo, não tem como Vettel e mais dois ou três comandarem uma revolução na F1. A voz ativa, tão desejada, inexiste quando apenas uma minoria luta por ela. Como algo tão importante quanto o poder de expressão pode ser ignorado?
Resta torcer para que o que esteja acontecendo hoje seja a toada de um movimento duradouro. O que aconteceu em 1982 não pode ser um ponto tão fora da curva assim.
