Quem diria, hein? Passadas apenas duas provas da temporada 2016 da F1, temos a certeza de que a Haas é uma equipe do meio do pelotão – para dizer o mínimo – e Romain Grosjean voltou a ser um piloto que merece atenção das gigantes da categoria. Os americanos conseguiram inverter a lógica recente de fracasso certeiro para equipes que fazem sua estreia no certame.

Depois do fracasso de gente como Hispania, Caterham e, de certa forma, Marussia, a Haas chega como um alívio para aqueles que se importam com equipes nanincas. Depois de tantos anos vendo o sucesso apenas de projetos apoiados por grande empresas ou montadoras, os americanos chegaram arrombando a porta da F1.

Mas o que é que faz a Haas ser uma estreante tão diferenciada?

A Haas, com toda dignidade, vai brigando com os grandões do mundo da F1 (Romain Grosjean, de novo, foi o grande destaque da corrida (Foto: Beto Issa))

Bem, o planejamento da Haas é digno de aplausos: já em 2014 a equipe havia decidido entrar na F1, garantindo quase dois anos de preparação.

O carro só foi testado em fevereiro deste ano, mas certamente já vinha sendo construído há muito tempo. E com mão de obra terceirizada: a equipe de Gene Haas passou a missão de conceber um chassi para a Dallara, marca italiana com muita experiência no negócio.

A caixa de câmbio e o motor, por sua vez, são cortesia da Ferrari. Os italianos, aliás, cumprem um papel importantíssimo enquanto parceiros técnicos da Haas. As pessoas mais maldosas podem dizer que os americanos são uma equipe satélite da esquadra de Maranello e que, por isso, não carregam tantos méritos. Mas não é bem assim: a finada Caterham, entre 2012 e 2014, usou o mesmo motor e a mesma caixa de câmbio que a Red Bull. E, mesmo assim, nunca saiu do fim do grid. Os representantes da Carolina do Norte merecem, sim, todos os aplausos.

Pode ser simplório dizer que o VF-16 é tão somente bem-nascido, mas parece ser verdade. O chassi é bom e rendeu um ritmo muito bom em um circuito tão técnico quanto veloz, como é o de Sakhir. Some isso ao conjunto bom fornecido pela Ferrari e a uma estratégia certeira. Pronto, um quinto lugar já não parece uma coisa tão absurda assim.

Além disso, a equipe conseguiu acertar nos pilotos. Grosjean é um talento que, até hoje, apenas sofreu na F1: em 2009 com um carro horrível; entre 2012 e 2013 na sombra de Kimi Räikkönen; 2014 e 2015 com mais carros lentos. A situação sempre foi tão mediana que a ideia de correr com a pior equipe do grid passou a ser algo compreensível. O francês não só sonha com o retorno a um papel mais digno na F1, como também percebe que é o homem para conduzir o projeto da Haas.

Do outro lado da garagem, Esteban Gutiérrez. O mexicano nunca fez brilhar os olhos de ninguém, verdade seja dita. Trata-se de uma versão muito piorada de Sergio Pérez. Mas, se não comprometer, o #21 pode ser um coringa no baralho da Haas: depois de meses no posto de piloto de testes da Ferrari, pode ser um piloto mais maduro. Talvez o mesmo processo de amadurecimento que Grosjean experimentou nos últimos anos. Mas, sobretudo, ele traz o dinheiro. E nós sabemos que é este o fator que importa.

Pelo rádio, após o GP do Bahrein, Grosjean disse estar vivendo o "sonho americano". Mas sonho não é o termo correto. Não é um devanio circustancial de uma força sobrenatural que rege a F1. O que acontece hoje com a equipe fenômeno é tão real e verdadeiro quanto poderia ser.

A Haas não está onde está só por causa da Ferrari. A equipe tem méritos próprios (Romain Grosjean, Haas, Austrália, 2016)