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Desde que Lewis Hamilton e Nico Rosberg começaram a disputar vitórias e o título palmo a palmo na Mercedes em 2014, e a equipe não impediu que brigassem na pista, havia a expectativa geral pelo momento em que os dois se enroscariam. Um dia, aconteceria, era inevitável.

Esse momento veio ainda em 2014, no GP da Bélgica, e a polêmica foi enorme. Na reunião da equipe, Rosberg não negou que fez o mínimo possível para evitar o choque.

Diante do que aconteceu ontem, na Espanha, aquele sutil toque do alemão no pneu do rival foi ‘fichinha’. E, ao mesmo tempo, desta vez não há motivo para polêmica.

Nós avaliamos cada detalhe dos 29s que os dois duraram no GP da Espanha de 2016, e é difícil encontrar uma definição melhor do que esta para o termo “acidente de corrida”.

Hamilton, parado na caixa de brita, cobrindo os olhos após o acidente (Nico Rosberg, Lewis Hamilton (Foto: Reprodução))

A largada e o passadão na curva 1

 

Hamilton largou na pole-position, do lado esquerdo, limpo da pista. E ao contrário das outras duas oportunidades em que partira na pole em 2016, ele tracionou bem.

Rosberg, ao seu lado na primeira fila, tracionou tão bem quanto. Neste sentido, uma largada sem problemas.

O alemão, porém, pôde se aproveitar de uma característica marcante do Circuito da Catalunha: são cerca de 700 metros da posição de honra do grid até a curva 1.

Nico aproveitou o vácuo, encostou no #44 e se atirou por fora na freada em descida para a primeira curva. Um passadão e tanto — embora não inédito na Espanha; na verdade, lembrou bastante o que fez Rubens Barrichello para cima de Jenson Button em 2009 para também assumir a ponta.

Rosberg freou mais tarde que Hamilton na 1 (Rosberg freou mais tarde que Hamilton para tomar a ponta na curva 1 (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio))

O erro de Rosberg não foi na pilotagem

 

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A restrição na comunicação das equipes com os pilotos impede os engenheiros de ajudarem na hora de se selecionar os modos do motor que são usados em cada momento da prova. Essa limitação vale antes mesmo na largada, ou seja, os pilotos precisam puxar na memória quais as configurações que precisam ativar no volante. Uma tentativa de tornar a pilotagem mais humana e, consequentemente, gerar mais emoção às corridas. Aqui, deu muito resultado.

Rosberg escolheu a configuração errada da sua unidade de potência. Isso se manifestou no meio da curva 3, quando a luz vermelha começou a piscar na traseira do seu carro. Ela avisa quem vem atrás que o motor entrou no modo de economia e a velocidade é mais baixa.

Da câmera onboard de Hamilton, é possível ver a luz vermelha (Nico Rosberg, Lewis Hamilton (Foto: Reprodução))

Nico naturalmente percebeu do que se tratava. “Eu saí da curva 3 e percebi que estava com menos potência porque o botão do modo do motor estava na posição errada”, disse após o GP, no comunicado da Mercedes.

A sua reação foi colocar a mão primeiro no botão da parte inferior do volante para ajustar o modo do motor. Após isso, ele apertou o botão vermelho no canto superior esquerdo do volante, que vem a ser o botão de ultrapassagem — uma tentativa de ganhar mais potência. A partir dali, a luz vermelha parou de piscar.

No meio da curva, Rosberg corrige o ajuste no volante (Nico Rosberg, Lewis Hamilton (Foto: Reprodução))

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E veio a batida

 

Hamilton, atento, percebeu o que estava acontecendo, e imediatamente decidiu partir para tentar a manobra. Em um circuito como o da Catalunha, onde é difícil ultrapassar, ele podia não ter outra chance.

“Ele não podia ter esperado mais para passar com mais segurança?”

A telemetria mostrou que o #44 estava 17 km/h mais rápido. Era o momento, e ele mergulhou. “O espaço estava ali, e, se você é um piloto, você busca aquele espaço.” Uma vez tomada a decisão, não havia volta.

O artigo 27.7 do regulamento diz que o piloto que está defendendo a posição precisa deixar a largura de um carro para o que vem atrás, mas desde que exista uma parcela significativa do carro já lado a lado. Antes disso, tem todo o direito de escolher de qual lado da pista deseja ficar.

O leitor pode observar a sequência de imagens que segue para entender bem como tudo aconteceu de forma muito rápida, quase que simultânea:

(Nico Rosberg, Lewis Hamilton (Foto: Reprodução))

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Notem, na última imagem, que Hamilton só vai ter o seu eixo dianteiro alcançando o eixo traseiro de Rosberg quando já tem a roda direita cruzando a linha branca. Foi tudo muito rápido, e os comissários levaram isso em conta ao tomarem a decisão de não puni-los — e sabemos bem que, se alguém não é punido na F1, é porque realmente é difícil apontar um culpado.

“Lewis estava chegando, então eu decidi fazer uma manobra clara para o lado direito o mais cedo possível, para fechar a porta e mostrar que não era uma opção. Fiquei surpreso que ele mesmo assim tenha ido para o lado de dentro. Depois disso, só sei que estávamos na brita”, comentou Rosberg. É por aí mesmo.

Por mais experiência tenha, por mais que exista o instinto de quem está atrás do volante desde a infância, a necessidade de se fazer um ajuste no carro em meio a uma curva de 4G e a mais de 200 km/h tira do piloto um pouco da noção de espaço.

Os dois tomaram a mesma decisão, e com Hamilton bem mais rápido, descobriram quase que ao mesmo tempo que essa decisão havia sido a mesma. Falou mais alto uma das mais elementares leis da física.

Crash.

(Lewis Hamilton, Nico Rosberg (Foto: Reprodução))

Estou desapontado pela equipe, principalmente porque perdemos 43 pontos hoje. Estamos todos aqui trabalhando juntos em busca do mesmo resultado, e o time trabalha para me dar a oportunidade de correr. Quando eu paro na caixa de brita, tudo o que consigo pensar é em como fico chateado pela equipe. É ali que sinto a dor. Mas vamos seguir em frente juntos e voltar mais fortes em Mônaco.Estou muito chateado, não só por mim, mas por toda a equipe. É a pior sensação como piloto.“Na minha opinião, foi um acidente de corrida, com os pilotos disputando a posição, e não quero culpar ninguém. Ao deixar os pilotos livres como deixamos, isso pode ocorrer eventualmente, mas não vamos mudar a nossa abordagem: devemos isso à F1 e aos fãs. Hoje, o trabalho de uma equipe foi parar na caixa de brita, e não é o que queremos ver acontecer. Os dois sabem do trabalho duro a cada fim de semana e da responsabilidade que têm de trazer o carro para casa. Amadurecemos muito nos últimos anos e vamos saber seguir e frente e dar a volta por cima em Mônaco”Para mim, é muito simples. Lewis cometeu um erro de cálculo, e eu culpo mais ele do que o Nico. Mas para a equipe e a Mercedes, é inaceitável. Lewis foi agressivo demais, e por que Nico deveria lhe dar espaço? Ele estava na liderança. Foi completamente desnecessário para mim e o desastre é que as duas Mercedes saíram depois de duas curvas.É difícil engolir, especialmente por todo o trabalho feito para resolver os problemas de confiabilidade e apresentar a performance da classificação. Nós nos orgulhamos por dar aos pilotos liberdade para disputarem na pista, e no limite, e isso envolve algumas manobras duras de Lewis e Nico que às vezes não funcionam, como vimos hoje.

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Aconteceu…

 

…e a forma como aconteceu faz com que não haja motivo para drama. Dos personagens diretamente envolvidos, apenas foi incisivo ao indicar um culpado. Toto Wolff garantiu que a Mercedes vai manter a sua filosofia, mas o que pode vir pela frente?

Uma possibilidade é um pacto que não feriria essa liberdada dada pela Mercedes aos pilotos para brigar pela vitória, contudo, minimizaria os riscos no momento mais delicado da prova: a largada. Quem sair da primeira curva à frente fica na dianteira até o final da primeira volta. Daqui a duas semanas provavelmente descobriremos se algo neste sentido será acordado por Lewis, Nico e seus chefes.