‘Snap’. Se existisse uma onomatopeia para definir o atual momento de Nico Rosberg na Fórmula 1, talvez essa fosse a ideal. Foi, literalmente, um estalo que fez o piloto ressurgir na temporada 2016, depois de (aparentemente) ter sido engolido por Lewis Hamilton – isso após um bom início de ano do alemão. O piloto do carro #6 não só ‘desvirou’ o Mundial, como parece estar no pico de sua força mental. A vitória acachapante no GP do Japão, no último domingo (9), foi mais uma demonstração disso.
Já Lewis Hamilton tem também um ‘snap’ para chamar de seu. Snapchat, no caso. Mais uma vez o inglês se viu em uma polêmica envolvendo a rede social, a parte visível mais recente de um ano conturbado para ele. O tetracampeonato – marca que faria com que Lewis iguale Alain Prost e Sebastian Vettel – parece cada vez mais longe, enquanto o piloto demonstra não ter mais paciência para a parte social da F1. Ele quer curtir, algo que claramente não está acontecendo este ano.
Agora, Rosberg lidera o campeonato com 33 pontos de vantagem para o companheiro de equipe. Com 100 ainda em disputa, Nico nem precisa mais vencer provas em 2016. Se ele fizer mais três segundos lugares e um terceiro, Lewis pode vencer todos os GPs que faltam que o título ainda será do alemão.
E, pra piorar, conseguir quatro vitória parece não ser o maior problema de Lewis Hamilton…

Lewis se preparando para entrar na pista no Japão
A última polêmica começou fora de pista. Na quinta, antes dos treinos, o inglês estava na tradicional coletiva com Fernando Alonso, Kimi RäIkkönen, Carlos Sainz, Pascal Wehrlein e Jolyon Palmer. Só que a atenção de Lewis não estava nos jornalistas, mas sim na câmera do celular. Brincava no Snapchat e, convenhamos, até aí estava tudo bem.
Veja bem: Hamilton domina o Snapchat (e as outras redes sociais) como poucos no grid da F1, ou entre as equipes de comunicação e marketing dos times. Até mesmo os próprios jornalistas não sabem o que fazer com o novo comportamento dos jovens, o que é extremamente visível quando encaramos a crise global da imprensa.
Com o Snapchat, o tricampeão dialoga com um público mais jovem que o tradicional da categoria, aquele mesmo que a Fórmula 1 precisa atingir e que é um dos objetivos de seu novo dono, a Liberty Media. Transformar a coletiva de imprensa em um evento pertinente em uma rede social é uma grande jogada, por mais que o próprio Bernie Ecclestone não aprove.
Um exemplo de celebridade que faz o mesmo uso da rede social é Arnold Schwarzenegger. O ator e ex-governador da Califórnia transforma coletivas, entrevistas e eventos de fisiculturismo em grandes acontecimentos no Snapchat. Ele se diverte, enquanto vende o próprio trabalho de uma outra forma. É uma situação na qual todo mundo ganha.
Só que, dessa vez, Lewis Hamilton perdeu totalmente a razão. Está tudo bem aloprar no Snapchat. Só que deixar claro que odeia tudo aquilo, como fez escrevendo “esta merda está me matando” em um de seus snaps, é um enorme desrespeito. Vamos combinar: ninguém tem saco para entrevistas intermináveis e coletivas. Nem os jornalistas. Mas pilotos e equipes precisam dar satisfação para os fãs do esporte enquanto mostram as marcas daqueles que pagam a conta, enquanto quem cobre o evento precisa de material para seus veículos. É a parte burocrática, acontece. Simples assim.

É óbvio que a reação contra comportamento de Hamilton foi grande, com grandes críticas na imprensa, principalmente a inglesa. O piloto sentiu o golpe na coletiva seguinte, no espaço reservado para jornalistas pela Mercedes em Suzuka. “Eu não estou aqui para responder às suas perguntas, eu decidi”, disse o piloto. “Outro dia houve uma coisa super pequena e, se eu tiver sido desrespeitoso com qualquer um de vocês ou se vocês acharam que eu fui despeitoso, honestamente não foi essa a intenção. Foi apenas uma diversão”. Após pedir desculpas, o piloto inglês abandonou o espaço.
Não que Lewis precisasse de mais alguma coisa para desestabilizá-lo após o abandono no GP da Malásia e as acusações de que seu próprio time teria feito algo para provocar a explosão do motor em Sepang. No entanto, as ações e reações ao episódio do Snapchat foram contundentes para que as nuvens negras sobre o piloto continuassem por lá. Hamilton não conseguiu ser nem uma sombra de Rosberg durante todos os treinos livres. Na classificação, o alemão superou o inglês em todas as três etapas, culminando com a pole.
É provável que Lewis nunca tenha ouvido falar de Valdir Pereira, jogador de futebol bicampeão mundial pela nossa Seleção em 1958 e 1962, mas uma máxima de Didi deve ter ecoado na cabeça do inglês: “Treino é treino, jogo é jogo”. Bom, pensar assim também foi em vão.
Quando as luzes vermelhas se apagaram neste domingo (9), dando início ao GP do Japão, o piloto dentro da Mercedes #44 não teve aquele que deveria ser o seu ‘snap’, o seu estalo, mais importante do fim de semana. Em um dos momentos que mais exige da cabeça e da rápida reação de um piloto profissional, que é a largada, Hamilton sentiu o baque e deixou o carro patinar. “Cometi um erro”, assumiu depois da prova.

Em poucos segundos, o tricampeão caiu de segundo para o oitavo lugar. Uma dura punição para o piloto, que via Nico despontar em primeiro.
Só que algo aconteceu. Talvez tenha sido apenas a enorme superioridade dos Mercedes F1 W07 Hybrid frente aos rivais, ou pode ser que Hamilton finalmente tenha reencontrado a alegria na pista. Bom, seja qual for a razão, o piloto começou a remar e a dar o melhor de si, buscando ultrapassar os rivais. Primeiro, passou por Nico Hülkenberg, da Force India, na volta de número sete. Após os pits, surgiu em sexto. Na pista, ainda conseguiu superar a Red Bull de Daniel Ricciardo e a Williams de Valteri Bottas para conseguir o quarto lugar ao final do 15º giro.
Na rodada seguinte de paradas, Lewis fez novamente a velocidade de seu carro e o próprio arrojo contarem, ultrapassando a Ferrari de Sebastian Vettel nos pits. Em seguida, o inglês foi caçar Max Verstappen nas voltas finais. O tricampeão até deu o bote, mas a defesa do holandês acabou fazendo com que Hamilton fritasse os pneus na chicane Casio, aquela mesma do toque entre Ayrton Senna e Alain Prost em 1989. A Mercedes chegou a protestar contra a manobra do piloto da Red Bull, mas desistiu pouco depois. “Max pilotou bem e ponto final”, disse tricampeão, acabando com a polêmica.

Isso não só com apenas quatro corridas para acabar a temporada de 2016, mas com um cenário totalmente novo para 2017, com um regulamento que pode mudar as coisas e tirar o domínio da Mercedes – o que adiaria ainda mais o sonho de um tetra para Hamilton.
Dessa vez não teve Snapchat, mas é fácil imaginar o que Lewis estava pensando enquanto estourava o champanhe em Suzuka:
– Essa merda está me matando.
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