Dois brasileiros de 17 anos começam neste fim de semana uma nova fase em suas carreiras. Sérgio Sette Câmara e Pedro Piquet serão os representantes do país no grid da F3 Europeia, que abre sua temporada em Paul Ricard com uma rodada tripla no sábado e no domingo.
Sette Câmara fará seu segundo ano na categoria e na equipe Motopark. A nova fase se dá mais é pela sua entrada no programa de pilotos da Red Bull, o que mais levou jovens até o Mundial de F1 nos últimos anos (o que foi tema de coluna aqui no Por Fora dos Boxes no mês passado).
Já Piquet, o filho do tricampeão da F1, estreará no automobilismo europeu. Ele vem do bicampeonato na F3 Brasil e passou pela Toyota Racing Series na Nova Zelândia no início do ano para ganhar ritmo, mas é a partir de agora que se deparará com uma realidade bem diferente.
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Ambos são candidatos a serem os brasileiros de maior destaque no exterior — ao menos na base — em um ano de talentos ainda mais escassos que o normal. Pela primeira vez desde a criação da GP2, o Brasil não terá representantes nela. Pietro Fittipaldi e Vitor Baptista vão andar na Fórmula 3.5 V8, a World Series, mas o campeonato vive um momento de transição com a perda do apoio da Renault. Depois deste quarteto, vêm nomes que disputarão campeonatos menores, como Giuliano Raucci e João Vieira na F4 Italiana.
Para Sette Câmara, o objetivo em 2016 é brigar pelo título até a última etapa. No caso de Piquet, a intenção é passar dois anos na F3 Euro, um para se adaptar e outro para partir pra valer em busca do caneco.
O GRANDE PREMIUM conversou com os garotos a respeito da preparação e das metas traçadas para a temporada que está para começar. A curto prazo, as intenções são diferentes, mas o sonho de consumo para o futuro é o mesmo.
Eu mudei bastante. Ano passado, eu não sabia o que esperar da categoria. Agora vou ter mais tempo e cabeça para os detalhes.

Sette Câmara, o ‘veterano’
Ao menos entre os brasileiros, o mineiro merece esta alcunha. É o mais experiente da dupla e já conhece bem a categoria, o carro e os circuitos. Em 2015, seu ano de estreia, a primeira metade da temporada foi meio lenta, mas ele emplacou pódios e top-10 frequentes no segundo semestre. A evolução chamou a atenção de Helmut Marko e levou ao convite para fazer parte do Red Bull Junior Team.
Em 2016, a tendência é que tudo que foi novo em 2015 se torne mais natural. “Eu mudei bastante. Ano passado, eu não sabia o que esperar da categoria. Não conhecia o carro, a equipe, e também era novo para mim andar de fórmula. Fiz algumas corridas no Brasil, mas o nível era bem baixo. Correr com 36 carros, raspando roda com outros pilotos, tudo era muito novo, muita informação de uma vez só”, descreve. “Agora sinto que já digeri essa informação e que estou preparado para aperfeiçoar mais. Vou ter mais tempo e cabeça para os detalhes.”
A preparação física e técnica veio sendo feita ao longo do inverno europeu na fábrica da Motopark e também junto da Red Bull. A opção por seguir na Motorpark, a propósito, foi dele mesmo e de seu staff, com o aval da Red Bull.
E pelos primeiros testes feitos neste ano, o piloto crê que o trabalho realizado já permitiu o salto de performance que se espera no início da segunda temporada em uma categoria. “Já senti esse salto”, garante. “Assimilo mais facilmente as informações, não faço tanta confusão na minha cabeça. E como eu falei, toda aquela coisa bruta, você já absorveu. Agora pode focar nos detalhes.”
“Eu sou um piloto bastante técnico, uso bastante a telemetria, trabalho bastante fora da pista, e acho que, sendo esse tipo de pessoa, maximiza ainda mais o salto do segundo ano. E é claro que isso vai impactar no resultado, já que os mais experientes saem da categoria. Agora eu sou um dos mais experientes, e espero brigar pelo título”, afirma.
(Sérgio Sette Câmara (Foto: Divulgação))
A ideia aqui na F3 seria fazer um ano para adaptar, aprender as pistas e tentar já andar bem, e aí, no segundo ano, brigar pelo título.

Em termos técnicos, a transição para o brasiliense pode ser menos complicada do que se imagina. Não há dúvidas de que a F3 Europeia está em um estágio bem mais avançado que a F3 Brasil. Mas, segundo Piquet, os primeiros contatos na pista com a categoria lhe mostraram que o carro usado na Europa é mais lento.
“A F3 Brasil usa um chassi mais antigo e pneus diferentes, mais macios. E o carro do Brasil é mais rápido por conta dos pneus e do motor, que é um pouco fora do regulamento comparado com a F3 mundial. O carro da F3 tem que ter motor 2.0, e no Brasil usam 2.3 para baratear um pouco o custo, e assim fica mais rápido”, compara. “A maior diferença é que a competição é muito maior aqui fora e você tem que olhar muito mais para os detalhes se quiser melhorar. Tive até que mudar meu estilo de pilotagem para me adaptar melhor ao carro e às pistas daqui.”
A preparação teve início ainda no ano passado, com testes no Brasil e na Europa, e passou por quatro dias de testes particulares em Barcelona e em Jerez e mais dois coletivos em Vallelunga. Também atravessou o mundo para disputar a Toyota Racing Series na Nova Zelândia.
“O carro não é tão bom, mais lento que o F3 em todos os aspectos, mas o melhor disso tudo é que eu pude fazer corridas em cinco semanas seguidas”, destaca. O campeonato utiliza modelos de F-Renault e tem cinco rodadas triplas consecutivas. “É uma maneira de não ficar dois, três meses parado. Fiz 15 corridas, e isso me ajudou muito a entrar no ritmo de novo. Você pode testar em qualquer lugar, não vai correr, e lá eu pude fazer essas corridas.” Ele obteve seis pódios, duas vitórias e o quinto lugar na tabela de pontuação.
“A ideia aqui na F3 seria fazer um ano para adaptar, aprender as pistas e tentar já andar bem, e aí, no segundo ano, brigar pelo título. O ideal seria fazer dois anos de F3 Europeia, depois é difícil falar. Depende de quais vão ser as categorias boas”, avalia, lembrando que a FIA tem o plano de criar uma nova versão da F2.
Uma dificuldade que Piquet espera ter diz respeito aos circuitos de rua. Se já foi possível conhecer alguns dos autódromos, as pistas urbanas são usadas apenas nas corridas, e nesse aspecto os veteranos da categoria levam vantagem. “Para esse primeiro ano, a gente tem que ver depois das primeiras corridas aonde que vai estar brigando, e sempre tentar ir para a frente. Vão ter lugares em que vou sofrer mais porque nunca andei, mas a gente vai trabalhar ao máximo para estar ali e sempre brigar.”
A preparação vai sendo acompanhada pelo engenheiro Felipe Vargas, que trabalhou com o irmão Nelsinho no caminho para a F1. Pedro também está de mudança para Amsterdã, para ficar perto da sede da holandesa Van Amersfoort.
(Pedro Piquet (Foto: Divulgação))

A F3 Europeia de 2016
É um fato que o grid vem reduzido em relação a 2015. O pulo de Max Verstappen da categoria direto para a F1 ao final de 2014 foi um atrativo e tanto para a formação do grid no ano passado, com mais de 30 carros alinhando a cada corrida. A quantidade, porém, não se refletiu tanto em qualidade, como diversos incidentes trataram de mostrar. O campeão foi Felix Rosenqvist, um veterano que foi campeão no quinto ano no grid, e justo quando mudou para a Prema.
Ainda assim, os dois representantes brasileiros em 2016 confiam que o campeonato pode servir aos seus propósitos nos próximos meses.
“O grid vai ser bastante forte”, analisa Sette Câmara. “Está chegando um pessoal bastante forte da F4, e tem os que ficam. Tem equipes muito fortes, como a Prema e a Hitech, e pilotos muito fortes, como o George Russell, o Ben Barnicoat e o Maximilian Günther. O pódio está bem difícil, não vai ser uma posição fácil de chegar. Eu diria que as dez primeiras posições estão em um nível bem, bem alto.”
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Pedro Piquet chama a atenção para os benefícios que a participação na F3 Europeia propicia. “É a categoria de base com carro de potência mais baixa mais forte do mundo, e tem grande importância no cenário internacional. O ganhador soma 40 pontos na carteira da FIA para a F1, é mais até do que a Fórmula 3.5. Se você quer traçar uma carreira forte, chamar a atenção dos grandes times, tem que ir bem na F3”, fala.
O grid mais esvaziado também tem relação com o ‘fator Prema’. A escuderia italiana foi campeã nas últimas cinco temporadas. Se o piloto campeão sempre sai de lá e não terei vaga, melhor procurar outra categoria, certo? É um raciocínio que muita gente tem, e que faz sentido.
Por outro lado, nos últimos anos, o título em si não tem dito muita coisa. Verstappen, o piloto que saiu da F3 para a F1, correu pela Van Amersfoort e terminou apenas em terceiro, vendo o caneco ficar com Esteban Ocon, da Prema. Enquanto isso, nenhum dos campeões chegou a ingressar na elite do automobilismo. A mesma lógica pode ser aplicada a outras categorias, como a GP2. Jolyon Palmer derrotou Felipe Nasr, mas foi o brasileiro que chegou primeiro à F1. E nomes como Davide Valsecchi e Fabio Leimer se viram preteridos. Mostrar resultados e capacidade é o ideal, mas tem-se olhado bastante para o segundo item na hora de avaliar quem está na base.
O apoio da Petrobras
Mas se o dinheiro realmente falar alto, não é como se Piquet e Sette Câmara estivessem com uma mão na frente e outra atrás. Ambos estão contando com apoios fortes, e nesta semana foi confirmado o patrocínio da Petrobras.
É a volta da estatal às categorias de base na Europa. De 1999 a 2002, houve um grande programa que manteve uma equipe na F3000. É uma espécie de retomada, embora, dessa vez, o apoio seja a pilotos que estão em times diferentes. De toda forma, escolhas feitas a dedo: um piloto que tem sobrenome de peso (que inclusive facilitou um acordo com a Mercedes) e apresentou resultados no Brasil, e outro que recebeu o apoio de uma empresa importantíssima no automobilismo internacional.
Em um dos períodos de maior escassez de brasileiros no exterior, pode ser um primeiro passo para que mais jovens voltem a buscar o caminho da F1.

Na pista…
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No início de março, no teste coletivo em Vallelunga, Sette Câmara e Piquet se destacaram: andaram atrás apenas do britânico Callum Ilott, fechando a atividade em segundo e terceiro no geral, respectivamente.
E nesta quinta-feira, no último teste antes do início da programação oficial da temporada, marcaram o quinto e o 12º tempos. Esse quinto tempo de Sette Câmara, contudo, foi apenas 0s083 superior ao do líder Maximilian Günter — da Prema. Pela manhã, o mineiro havia sido o líder. Já Piquet, fora do top-10, foi 0s487 mais lento que o líder.
Nesta sexta, acontecem mais dois treinos livres de 40 minutos e as sessões classificatórias. No sábado, a primeira corrida está marcada para as 5h05 (de Brasília) e a segunda, para as 11h05. No domingo, o complemento da rodada tripla será a partir das 4h50. As provas podem ser assistidas por streaming no site oficial da F3 Europeia.
Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.