Um piloto supercampeão, em uma equipe ainda mais vitoriosa seria a combinação perfeita para outros tantos títulos. Para não ir muito longe na rica história da F1, nos últimos dois anos, Sebastian Vettel e Ferrari até chegaram a ensaiar o mesmo discurso, mas não falaram a mesma língua. Ao final da temporada 2016, o quarto lugar no Mundial de Pilotos e o terceiro no de Construtores escancararam o desempenho mutuamente aquém do esperado.

O alemão experimentou na escuderia italiana um terrível jejum de vitórias que levantou uma série de perguntas: “é possível jogar todo o mau desempenho nas costas do piloto?”, ou ainda, “é possível jogar todo o mau desempenho nas costas da equipe?”. Quem ficou devendo para quem? Ainda assim, seria muito simplista pensar que o relacionamento está acabado por um até o momento improvável convite da Mercedes. A “cláusula Schumacher” ainda tem validade para próximos bons anos.

Fosse por talento, sorte ou equipamento, o mais contestado dentre os tetracampeões conquistou 42 vitórias (uma pela Toro Rosso, 38 pela Red Bull e três pela Ferrari), 86 pódios, em 179 largadas até aqui. Está acostumado então a andar na frente e, no atual grid, só perde para as incríveis 53 vitórias do só tricampeão Lewis Hamilton.

Mas é exatamente a frieza dos números que apontam para a pior temporada de Vettel até aqui. Assim como já havia acontecido em 2014, em seu último ano de Red Bull, também não cruzou a linha de chegada em primeiro. Até aí, estaria tudo bem se não fosse um pra lá de incômodo jejum: Vettel já soma 27 corridas sem vitória, cinco a mais que no período de sua estreia pela BMW Sauber, no GP dos Estados Unidos em 2007, até a consagração pela Toro Rosso, no GP da Itália no ano seguinte.

Em recente entrevista ao jornal alemão Blick, Vettel, claro, manteve aquele discurso tão otimista quanto batido da maioria dos pilotos de F1. Tampouco elegeu um culpado para o baixo rendimento. O #5 (uma alusão ao ainda perseguido pentacampeonato) demonstrou ter passado uma borracha nas turbulências internas e preferiu ressaltar a primeira metade da temporada quando foi ao pódio em cinco oportunidades.
(Divulgação/Red Bull Content Pool)

Se um piloto campeão não conseguiu liderar uma equipe campeã, o que fazer para a próxima temporada? Mudanças no regulamento à parte, o que tende a embaralhar o grid, e melhor gestão das relações pessoais em Maranello, há também a “cláusula Schumacher” que deve dar novo fôlego para o também alemão na escuderia italiana.

Já bicampeão, Michael Schumacher precisou de cinco anos para reconduzir a Ferrari ao título mundial. Perdeu para Damon Hill (Williams), Jacques Villeneuve (Williams) e Mika Hakkinen (McLaren) duas vezes para só aí, em 2000, tirar a escuderia italiana de uma fila que já durava 21 anos. Depois disso, foram outros quatro títulos e seu nome para sempre no coração ferrarista.

Quarto lugar no Mundial de Pilotos e terceiro no de Construtores traduzem ano ruim de Vettel e Ferrari (Divulgação/Ferrari)

De novo principal alemão no agitado paddock da F1, o próprio Vettel não fugiu da comparação em entrevista ao Blick. O piloto reconheceu que o “título é sempre a meta da Ferrari” apesar de ter passado longe nos dois primeiros anos.

"Como eu disse, o objetivo é se tornar campeão do mundo com a Ferrari. Tudo o mais está subordinado a isso", explicou Vettel. "Não estou dizendo que em um ou dois anos seremos campeões, e se isso não acontecer, eu pararia. Não poderíamos jogar tudo fora. Esperamos colher os frutos, mas também não podemos fazer promessas."