Lewis Hamilton tem mais títulos, mais vitórias, mais carisma e pode até ser mesmo mais piloto que Nico Rosberg. Só não é mais respeitoso com os acasos do esporte que seu companheiro de Mercedes. O alemão teve comportamento exemplar no último domingo (2), no GP da Malásia, e fez tudo que estava ao seu alcance para se manter firme na busca por seu inédito título da F1. Do outro lado, o inglês sofreu com o azar, é verdade, e a partir daí, se mostrou só mau perdedor com patético piti ao insinuar boicote da equipe.
De motor novo, largando da pole, Hamilton tinha o cenário amplamente favorável para reequilibrar as coisas no Mundial de Pilotos. A sorte lhe pareceu sorrir ainda mais quando o rival na luta pelo título Rosberg foi atropelado na primeira curva por Sebastian Vettel e caiu para a última posição naquele momento. O tricampeão, no entanto, não poderia contar com a unidade motriz em chamas quando tinha 20 segundos de vantagem para o segundo colocado e já estava a 15 voltas da bandeirada final. O desespero ainda dentro do carro, com uma das mãos na cabeça como quem parece não acreditar já está entre os abandonos mais marcantes da categoria, mas não são condizentes com as estupidez lançadas ao vento ao chegar no paddock.
"Simplesmente não posso acreditar que, dentre oito carros com motores Mercedes, só o meu estoura desse jeito. Alguma coisa não parece estar certa", disse Hamilton. "Meu questionamento é para a Mercedes. Alguém precisa me dar uma resposta. Isso é inaceitável. Alguém não quer que eu ganhe este ano, mas eu não vou desistir."

Sem reclamar, Nico Rosberg superou o toque na primeira curva e foi ganhando posições na Malásia (Getty Images/Red Bull Content Pool)

Mas a ultrapassagem que mostrou que o alemão estava mesmo com a faca nos dentes foi a realizada na volta 38. Rosberg optou por um traçado diferente do escolhido por Kimi Raikkonen, da Ferrari, nas primeiras curvas e, na menor brecha do finlandês, jogou seu carro para conseguir a já honrosa quarta colocação. A manobra quebrou parte da asa dianteira de Raikkonen e, por isso, de novo sem chilique, Rosberg precisou colocar dez segundos de vantagem para não perder ainda mais pontos. Não só conseguiu cumprir a punição, como ainda foi beneficiado pelo abandono de Hamilton.
“Pensei que tudo tinha acabado na largada então fico muito feliz de lutar todo esse caminho de volta ao pódio. Em geral, queria um dia melhor, mas é desse jeito que funciona algumas vezes. É um bom momento e estamos ansiosos para a próxima corrida. Claro, ataque total”, disse Rosberg, agora com 23 pontos de vantagem, a cinco corridas do fim do campeonato.
(Getty Images/Red Bull Content)

Ainda assim, a Mercedes não o poupou de comentários igualmente duros. O diretor técnico Paddy Lowe não deixou barato e começou o contra-ataque, seguido até mesmo pelo fiel conselheiro Niki Lauda:
“Nenhuma falha é planejada. Trabalhamos o mais duro que podemos para evitar problemas de confiabilidade. Não há nada que indique o motivo de esses problemas caírem justo no carro do Lewis”, disse Lowe. “Posso convencê-lo de que não temos nada contra ele. Estamos aqui trabalhando para ele e estamos orgulhosos dele, mas essas coisas acontecem”, continuou Lauda.
Tão logo o motor foi pelos ares, o chefe Toto Wolff baixou a cabeça e respirou fundo sabendo que os problemas estavam só começando. Apesar de lamentar o resultado final dos dois carros, evitou criticar Hamilton.
"Cada comentário, cada resposta é permitida depois de tamanha frustração. Se você está na liderança da corrida, prestes a voltar para o campeonato, seu motor explode e alguém coloco um microfone na sua cara… Ele está permitido a falar o que quiser."
(Divulgação/Mercedes)
Longe da polêmica, Rosberg embarca para o GP do Japão, já no próximo domingo, não só com larga vantagem sobre Hamilton, como também com a atitude de campeão. Dentro e fora da pista. Por vezes insosso ao longo do ano, o alemão encontrou o ponto exato para somar a maior quantidade de pontos possíveis nas últimas cinco corridas e ainda se permitir uma ou outra ultrapassagem mais arrojada.

Eleição (na F1)
Em dia de eleições municipais em todo o país, uma votação que nada teve a ver com prefeitos ou vereadores levantou intriga: a de “Piloto do Dia” da F1.
Fãs espelhados pelo mundo escolheram o terceiro lugar Max Vestappen como o melhor na Malásia. O piloto propriamente dito não foi o culpado pelo resultado que pouco condisse com a realidade da corrida se comparado o desempenho dos principais adversários. Verstappen saiu na quarta colocação e chegou em segundo. Protagonizou, sim, um interessante duelo ao dividir algumas curvas com seu companheiro de Red Bull, mas tampouco conseguiu tirar a vitória de Daniel Ricciardo – esse que inclusive largou na quarta posição.
A falta de critério ficou escancarada mesmo no tratamento com Rosberg. Depois do toque na primeira curva, o alemão caiu para 21º e ainda subiu no pódio. Alguns eleitores talvez tenham acreditado que não passava de obrigação, já que estava a bordo da Mercedes. A reação, no entanto, não foi a mesma se levada em conta a do seu companheiro de equipe no GP da Bélgica. Depois de largar em 21º e também chegar em terceiro, Hamilton foi tratado como “gênio” e levou o título de Piloto do Dia.
Rosberg fez sua parte e não se importou com a má vontade dos fãs. Sem dar piti, o alemão aceita tomar até champanhe na sapatilha do vencedor Ricciardo para conquistar seu primeiro título na F1.