O esporte a motor brasileiro tem uma rara e importante vitória para comemorar em 2016. Numa década em que perdemos para sempre o Autódromo de Jacarepaguá — que deu lugar ao Parque Olímpico do Rio — e vemos a situação incerta do Autódromo de Brasília desde a reforma não-concluída para receber a Indy, o nascimento de uma nova praça para as corridas por aqui é algo alentador. Mais do que isso, é fundamental para atrair um novo público que jamais teve acesso às grandes competições. Assim, o nascimento do Circuito dos Cristais, em Curvelo, coloca Minas Gerais, ainda que tardiamente, na rota dos principais eventos esportivos de automobilismo e motociclismo.
Cidade conhecida como o ‘Portal do Sertão’, Curvelo é uma aprazível cidade localizada no coração de Minas Gerais. Com cerca de 80 mil habitantes, distante perto de 150 km da capital, Belo Horizonte, o município é dotado de muito verde, terra boa e uma população bastante receptiva. O GRANDE PREMIUM visitou Curvelo durante o fim de semana que marcou a 11ª e penúltima etapa da temporada 2016 da Stock Car, além do Brasileiro de Marcas e do Brasileiro de Turismo, e pode ver de perto o mais novo empreendimento esportivo nacional.
O projeto, que começou a ser posto em prática em julho de 2014, compreende até o momento R$ 30 milhões investidos — sem nenhum centavo oriundo de cofres públicos. Ainda há muito mais por vir e gastar, mas Marco Túlio Ferreira dos Santos, empresário responsável pela direção da TecRacing, criada para administrar o novo Circuito dos Cristais, já conseguiu concretizar dois sonhos em um: ver a realização de competições de nível nacional e internacional no espaço por ele idealizado e também ter a chance de arrastar uma multidão e cativar novos amantes das corridas nas Minas Gerais.
O primeiro dos sonhos de Marco Túlio se tornou realidade no último fim de semana. Nada menos que 42 mil pessoas, compreendendo staff, equipes, organização, convidados, camarotes e arquibancadas, estiveram no complexo do Circuito dos Cristais no último fim de semana em Curvelo. Há tempos não se via um sábado de Stock Car com tanta gente nas dependências de um autódromo.
A realização da prova se tornou rapidamente um dos eventos principais da cidade, juntando muita gente nas arquibancadas e também nas amplas áreas de estacionamento. Pela noite, o que se viu foram bares e restaurantes lotados e muita gente empolgada e feliz por ver a economia aquecer e a cidade pulsar pelo esporte a motor.
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Curvelo abraçou a Stock Car neste fim de semana dentro e fora do Circuito dos Cristais (Curvelo abraçou a Stock Car neste fim de semana dentro e fora do Circuito dos Cristais)
É verdade que ainda há muito o que melhorar, sobretudo na rede hoteleira e de serviços, bem como no transporte público. Mas a primeira grande experiência com um evento do porte da Stock Car seguramente deve fazer com que a cidade se mobilize em torno de uma estrutura melhor, que será benéfica para a própria Curvelo e todos estiverem por lá.
O empresário mineiro não escondeu a satisfação e a felicidade com a chance de ver seu projeto se tornar realidade no automobilismo brasileiro e de ver tudo o que movimenta a complexa organização de uma etapa da Stock Car e das categorias que formam parte do chamado ‘guarda-chuva’ da Vicar, empresa que promove e organiza o evento.
“Todos nós do Circuito dos Cristais estamos impressionados com a organização e com a forma como essa equipe trabalha e como se organiza um evento desta envergadura. É impressionante, realmente. A gente não imaginava que tanta coisa acontecia ao mesmo tempo. E, realmente, é muito legal, estamos aprendendo muito, com a equipe toda do autódromo tentando ajudar da melhor forma possível. Infelizmente estamos com alguma dificuldade por conta da chuva, então estamos vencendo algumas dificuldades”, salienta.
De fato, o primeiro fim de semana da Stock Car em Curvelo foi complicado. Choveu muito na sexta-feira, quando tiveram início as atividades de pista no Circuito dos Cristais, e isso se converteu em uma pista mais suja em razão da lama. As áreas de escape também não estavam totalmente prontas, causando apreensão a muitos pilotos com quem a reportagem do GP* conversou.
Na manhã de sábado, já sem chuva, a forte batida sofrida por Galid Osman no segundo treino da Stock Car e um incidente com Sergio Jimenez, que perdeu o controle do seu carro e subiu num barranco, fez com que a organização da prova interrompesse a sessão por mais de uma hora para fazer ajustes em algumas das áreas de escape.
Porém, as rodadas duplas do Brasileiro de Marcas, Brasileiro de Turismo e da Stock Car foram realizadas sem maiores problemas ou sustos. Ainda há muito trabalho a fazer, como diz o próprio Marco Túlio, que ressalta as dificuldades de um projeto tão complexo como o do Circuito dos Cristais.

“Este complexo está localizado exatamente no centro geodésico de Minas Gerais por alguns motivos: primeiro, pelo clima e pelo relevo de Curvelo. Autódromo não dá certo com chuva, e o fato é que não chove aqui em Curvelo. Os curvelanos dizem que chove por aqui cerca de 35 dias por ano. Infelizmente, a Stock Car deu azar que choveu, no meio desses 35 dias. Então, uma das grandes dificuldades daqui foi em preparar as áreas de escape”, diz o empresário.
“Porque tudo é muito quente, então toda a grama que a gente plantava morria. Por outro lado, quando chove, chove muito forte. Então tivemos dificuldade em tratar o piso para proteger as áreas de escape. A drenagem também foi muito complexa. Tivemos de refazer vários cálculos para isso e, pelo que ouvi do pessoal, até da própria Vicar, é que a drenagem foi perfeita. Isso foi muito bem feito”, explica.
Marco Túlio entende que ainda há muito a ser feito e que os trabalhos ainda vão continuar por pelo menos mais um ano e meio para que todo o projeto seja concluído, sobretudo para finalizar a estrutura no que diz respeito às áreas de escape e também o pavimento externo dos estacionamentos do circuito, além da manutenção em si.
A ideia é deixar tudo pronto até 2018, quando há pela frente uma grande e ousada meta: trazer o Mundial de MotoGP de volta ao Brasil. Não faz muito tempo, o Circuito dos Cristais recebeu uma comitiva da FIM (Federação Internacional de Motociclismo) e também da Dorna, empresa que organiza o Mundial.
“O Franco Uncini, ex-piloto, campeão mundial, comissário de segurança, esteve junto com o Javier Alonso, que é o diretor de eventos da Dorna. Eles vieram e fizeram uma visita bastante detalhada aqui, andaram de carro, andaram a pé, e fizeram um trabalho muito interessante, nos deram várias sugestões e recomendações. Em termos de autódromo, estamos sim preparados para receber a MotoGP. Temos algumas questões na área de escape, pequenas correções. Três pontos em que temos de trabalhar melhor. No mais, a pista é perfeita, elogiaram, gostaram muito. Quanto às instalações, eles dizem que tudo atende à necessidade da MotoGP”, garante.
“Obviamente, ainda temos de preparar melhor a parte de piso para receber um evento desta envergadura. Tenho feito alguns contatos com organizações de fora para promover o evento, mas trata-se de algo muito grande, de porte internacional. Temos isso como meta para 2018. Tá muito incipiente ainda. Está começando. Temos esse sonho, esse desejo em trazer. Mas até 2018, temos um bocado de tempo para trabalhar nisso”, explica o diretor da TecRacing.

Que tal uma casa no autódromo?
Para que o Circuito dos Cristais se tornasse realidade, Marco Túlio partiu da premissa de que o tudo deveria ser todo gerido pela iniciativa privada. E ele se orgulha de não ter recebido dinheiro público para tocar o projeto. Contudo, é preciso tornar o empreendimento autossustentável. Daí nasceu uma ideia inovadora: a Casa de Pista.
“É um condomínio residencial, vinculado ao autódromo, em que as pessoas adquirem uma cota deste clube e têm vários benefícios e direitos aqui do autódromo, como assistir todas as corridas sem ter de pagar ingresso. São lotes, áreas de 500 m² em que as pessoas podem construir seu chalé, sua casa, sua casa de pista. Então ela pode morar dentro do complexo. E o grande benefício do Casa de Pista é o uso do autódromo. Durante 60 dias por ano, o autódromo fica fechado e exclusivo para o Casa de Pista. Então, para quem gosta de acelerar, os pilotos amadores, vamos ter os track days, para utilizar a pista. Já tivemos sete track days com o pessoal do Casa de Pista, e está sendo bacana”, detalha.
Na visão de Marco Túlio, trata-se de uma alternativa bastante criativa para manter uma nova e promissora praça para o esporte a motor. O diretor da TecRacing só torce para que o Brasil tenha mais autódromos, sejam eles públicos ou privados.
“Sempre acompanho as iniciativas para construção de autódromo e me ofereço para ajudar. No Brasil, nós temos cerca de 15 autódromos. É pouco perto, por exemplo, da Argentina, ou mesmo da Espanha, que tem três vezes mais. Tenho sempre, na medida do possível, conversado, interagido com as pessoas, de que nós precisamos de mais autódromos. Se for do governo ou da iniciativa privada, não importa muito. E mesmo nós sendo da iniciativa privada, temos de atuar junto ao governo, não conseguimos trabalhar longe do governo, e nem é o nosso objetivo. Sem o governo, nós não conseguimos realizar a coisa”, reflete o empresário.

Ao ser questionado a respeito da possível privatização de Interlagos na gestão do futuro prefeito João Doria, Marco Túlio se mostrou favorável. “Acho que vai ser muito bom se Interlagos passar para a iniciativa privada, acho que vai fomentar ainda mais o esporte. E tenho certeza que [se isso acontecer], a parceria com a SPTuris, com a Prefeitura de São Paulo, vai continuar, e tende a melhorar. Torço para que isso aconteça, não só lá, para que isso fomente mais o esporte a motor”, finaliza.
Com tudo o que se viu nos últimos dias na Stock Car, com o esforço incessante do Circuito dos Cristais em fazer o melhor trabalho possível e acolher bem a todos, em corrigir os problemas que surgiram e garantir um grande fim de semana de velocidade, diversão e entretenimento, já é possível dizer com segurança: Curvelo veio para ficar. Quem ganha somos todos nós. Quem ganha é o esporte a motor brasileiro. Finalmente, um bom motivo para comemorar.