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La Source. Eau Rouge. Pouhon. Blanchimont. As curvas desafiadoras continuam lá, mas não são como em outros tempos. As subidas e descidas, idem. O clima imprevisível, a chuva que pode chegar a qualquer momento. Só que o desafio não é o mesmo de antes.

O circuito de Spa-Francorchamps sempre foi o favorito de nove entre dez pilotos. Palco do traçado mais espetacular, aquele de tirar o fôlego, o melhor do Mundial de F1. Alta velocidade, curvas de todos os tipos, tradição, história. Grandes pilotos tiveram passagens importantes de suas carreiras lá. Vitórias que sempre são especiais. Acontece que, nos últimos dez anos, o autódromo foi perdendo pouco a pouco as características que faziam dele tão fascinante.

Não, não é que Spa virou um circuito comum. Apenas deixou de ser uma pista à moda antiga para se transformar em um autódromo moderno. Algo que lembra os que são desenhados pelo famigerado arquiteto alemão Hermann Tilke.

Ainda não entendeu do que estou falando? Vamos lá.

Spa sempre terá um lugar nos nossos corações, mas não é mais a mesma (Spa sempre terá um lugar em nossos corações, mas não é mais a mesma (Foto: Mercedes))

  
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A volta começa pela La Source, uma curva fechada poucos metros após a linha de meta. Antigamente, ela tinha um muro bem próximo da pista em sua saída. O que imediatamente passou a acontecer: pilotos foram para lá da linha branca na largada para ganhar tempo caso ficassem encaixotados atrás de outros, rendendo polêmicas sobre limites da pista. O mesmo vale para ultrapassagens que ocorrem em outros momentos da pista.

Então vem a Eau Rouge, e aqui não há do que reclamar. Há asfalto na parte externa, na saída da curva, só que realmente é algo necessário e que não tira o charme da curva. É preciso menos ‘cojones’ para os pilotos? Talvez. Mas é realmente em nome da segurança. Vimos acidentes assustadores acontecerem ali e justamente por causa da falta de uma área de escape. O efeito colateral, de novo, é a questão dos limites da pista no topo do morro. Em categorias de base, a garotada se esbalda.

Após uma longa reta, os pilotos chegam para a Les Combes. Uma chicane que também ganhou asfalto na parte de dentro. O piloto sabe que, se errar, o prejuízo não vai ser grande. Em um treino classificatório, caso passe do ponto, terá outra volta. Na corrida, não sujará os pneus, não perderá contato com o carro da frente, tampouco perderá com o de trás.

A Rivage é outra asfaltada na parte externa, bem como a curva seguinte — track limits, track limits. E então vem a Pouhon, de alta velocidade à esquerda onde, de novo, um erro passa a ser sempre perdoado. O piloto ataca sem medo. Vai com as quatro rodas além da linha branca. Não tem pudor ao sair do traçado para se defender.

Mais adiante, na Blanchimont, ok, não vou reclamar. É também em nome da segurança, é uma curva contornada a mais de 300 km/h. Só que aí a volta termina em uma chicane insossa que já foi alvo de polêmicas por causa dos limites da pista. Ter asfalto para todo lado permite que um piloto, para ultrapassar ou defender a posição, corte por dentro e dê início à polêmica. Isso sem falar que a antiga Bus Stop era de uma personalidade muito maior.

Suzuka é hoje o autódromo com a volta mais difícil da F1 (Suzuka é hoje o autódromo mais difícil para os pilotos da F1 (Foto: Getty Images))

           
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Antes que digam que essas áreas de escape podem ser boas porque deixam o piloto que vem atrás mais propenso a atacar e tentar uma ultrapassagem, há também o outro lado. Se houver uma margem menor para o erro, a missão vai ficar mais difícil também para quem se defende. Achar o limite de até onde é possível ir para buscar a ultrapassagem ou a defesa da posição passa a ser outra história. O mesmo vale para a uma volta lançada na classificação. O talento dos pilotos é ressaltado.

Spa perdeu aquele algo a mais que separava os meninos dos homens.

É por isso que, hoje, não fica mais entre os meus circuitos favoritos. Suzuka é, sem dúvida, a pista mais desafiadora da F1. No Japão, o erro é punido. Em Monza, também — ok, asfaltaram a Parabólica no ano passado, mas já se arrependeram e vão voltar atrás. Montreal: muros colados, chicanes complicadas, retas rápidas. Mônaco, com seu traçado curto pelo qual os pilotos passam 78 vezes no domingo sabendo que precisam andar no limite sem cometer um deslize sequer. E por que não o Albert Park, com sua brita colorida, onde nunca falamos de limites da pista? Interlagos é outro circuito que está bom demais, porém são 71 voltas, ou seja, a chance de ser surpreendido em um dos pontos mais traiçoeiros da pista paulistana é maior. Além disso, são curvas de baixa, em que erros custam mais caro.

É justamente a história e a tradição que continuam isentando Spa-Francorchamps das críticas. Entretanto, se houvesse um “ódio eterno aos autódromos modernos”, este é um circuito que poderia muito bem entrar na lista. Como Austin, cujo traçado não é ruim, porém ainda não conseguiu empolgar tanto. Não que eu coloque entre as piores do calendário, muito longe disso. É que há outras que hoje me apetecem mais interessantes.

Sinto muito, Spa, mas já te amei mais.

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Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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