O GP de Markham, 14ª etapa da temporada 2026 da Indy, entregou uma das corridas mais movimentadas do campeonato. Entre seis bandeiras amarelas, confusões no hairpin, estratégias distintas e uma disputa que terminou com Marcus Ericsson no topo do pódio, a prova no Canadá deixou uma série de recados para a reta final do ano.

Se a pista não ficou pronta para receber as atividades de sexta-feira (14), uma falha que marcou negativamente o fim de semana e a Indy como um todo, o traçado compensou no domingo com uma corrida caótica e imprevisível. E, em meio ao caos, alguns personagens saíram fortalecidos, enquanto outros perderam oportunidades importantes.

Da recuperação de Ericsson ao novo passo de Álex Palou rumo ao quinto título, passando pela força da Honda nos circuitos de rua e pela chance desperdiçada por Caio Collet, Markham entregou muito mais do que o esperado. Confira cinco coisas que aprendemos na 14ª etapa da temporada 2026 da Indy:

Indy acerta em receita do caos

Com exceção da vergonha que foi a pista não ter ficado apta para as atividades de sexta-feira (14) — o que é uma mancha enorme para o evento —, a Indy acertou em cheio com esse traçado, trazendo um caos necessário para a temporada.

A Indy tem como característica competir em todos os tipos de circuitos — autódromos, pistas de rua e ovais — e não pode pensar em ter uma temporada com enredos parecidos, ainda mais em anos dominados por Álex Palou, que tem se especializado em armar o bote na hora certa, seja com um ataque ou poupando pneus e combustível para dar o overcut.

Markham proporcionou uma corrida para lá de movimentada por conta das seis bandeiras amarelas e do polêmico hairpin, que trouxe confusões a rodo.

Ainda que a corrida tenha tido um trecho bem travado, com acidentes em sequência, também teve longos stints, como na parte final, o que deu aos pilotos a possibilidade de resolver a prova no braço — melhor para Marcus Ericsson, que venceu com uma atuação gigantesca.

Palou entra em modo espera pelo título

Álex Palou chegou a Markham com 110 pontos de vantagem para Kyle Kirkwood, vice-líder do campeonato. Já era uma questão de quando o espanhol confirmaria o título, e não se confirmaria. No Canadá, a cartilha foi essa: entrar no modo espera pelo quinto troféu.

Palou até tentou uma ultrapassagem no polêmico, mas também maravilhoso hairpin, que gerou um toque em Alexander Rossi durante a corrida. Só que o mergulho do espanhol foi diferente do de muitos outros pilotos. Quando viu que o contato aconteceria, estacionou o carro.

Álex Palou (Foto: IndyCar)

No fim, tentou atacar Romain Grosjean pela vitória, mas sossegou atrás do francês quando errou na curva 6. Depois, nem fez esforço para defender a posição diante de Marcus Ericsson e Will Power. Claro, precisou poupar combustível, mas era melhor levar para casa 32 pontos e ampliar a vantagem para Kirkwood, que bateu, e David Malukas, que teve problemas no fim e ficou em 17º.

Palou, agora, tem a chance de ser campeão já no GP de Washington. A possibilidade é remota, pois precisa ampliar a vantagem de 133 para 162 pontos sobre Kirkwood ou Malukas, mas seria curioso ver uma festa espanhola em meio à celebração estadunidense.

Nunca é tarde para virar o jogo

A temporada 2026 tem mostrado que nunca é tarde para virar o jogo dentro da Indy. A primeira prova disso tem sido Felix Rosenqvist, que era um piloto que mostrava estar fadado ao meio do pelotão por não ter aproveitado as chances na Ganassi e na McLaren, mas se recuperou com bons desempenhos e a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis, que lhe renderam um contrato para retornar ao time liderado por Tony Kanaan.

Marcus Ericsson (Foto: IndyCar)

Marcus Ericsson entrou nessa turma durante o ano, mas cravou a recuperação com a renovação com a Andretti e a vitória em Markham. O sueco teve uma atuação memorável no circuito canadense, com um ritmo impressionante depois da última bandeira amarela, quando a equipe optou por deixá-lo na pista enquanto os demais paravam. O #28 acelerou tudo o que podia na relargada e abriu 14s de Grosjean em poucas voltas. Voltou em quinto, caiu para sétimo e escalou o grid até reassumir a liderança, cruzando a linha de chegada com 7s de vantagem para o francês.

Por outro lado, Grosjean tem mostrado uma faceta praticamente inédita na carreira. Apesar de o desempenho geral não ter sido de tamanho destaque na Dale Coyne, o ex-Haas na F1 tem andado distante das confusões e raramente tem batido.

Pois bem, em Markham, fez uma corrida cerebral ao fugir das confusões e, aliado à boa estratégia da Dale Coyne, colocar-se em condições de vitória. Depois de uma sequência de bandeiras amarelas, teve azar com o longo stint final, o que o obrigou a poupar muito combustível e ficar sem possibilidade de utilizar os 94s de push-to-pass que guardou para a parte decisiva, mas teve um desempenho que pode convencer alguma equipe a tê-lo em 2027, mesmo sem o piloto levar algum combustível financeiro.

Honda faz a lição de casa e vira dona dos circuitos de rua

Pódio do GP de Markham da Indy (Foto: IndyCar)

A Honda fez o dever de casa em Markham e dominou o pódio com Ericsson, Grosjean e Power. Na rebarba, ainda tinha Palou, que cruzou em quarto. O fato é que a montadora japonesa fincou o pé no evento, patrocinado pelas concessionárias locais, e não deu brecha para os rivais da Chevrolet.

De certa forma, evitou qualquer tipo de constrangimento que é visto, por exemplo, no GP de Detroit, que agora é realizado no centro da cidade e nos arredores dos escritórios da Chevrolet. Por lá, a Honda tem nadado de braçada, e a tradicional selfie dos pilotos, utilizando os bonés das montadoras — nesse caso, da japonesa —, tem a sede corporativa da fabricante norte-americana ao fundo.

Outro detalhe é que a Honda está perto de varrer os circuitos de rua da temporada. Palou venceu em St. Pete, Long Beach e Detroit, enquanto Kirkwood levou em Arlington e Ericsson em Markham. Falta só o GP de Washington para completar a cartela.

Collet perde chance de ouro

Caio Collet (Foto: Foyt)

Caio Collet teve uma chance de ouro para avançar e garantir um lugar na temporada 2027 da Indy, mas a desperdiçou em Markham. O brasileiro mostrou muito desempenho durante os treinos livres, mas tocou o muro no fim do TL2 durante uma freada forte ao ver o carro de Graham Rahal rodado.

Isso gerou um efeito-cascata quase inacreditável: o motor híbrido de Collet não ligou antes da classificação, o que fez a Foyt correr para ajustá-lo. Na correria, o time esqueceu de reabastecer o tanque, e o brasileiro ficou sem combustível na classificação. Largando lá atrás, envolveu-se em um toque com Felix Rosenqvist na largada e precisou ir aos boxes para arrumar o carro.

Sem pretensões, voltou à pista para tentar capitalizar em cima de alguns acidentes, o que lhe rendeu o 19º lugar. Menos mal que Mick Schumacher e Christian Rasmussen, com quem briga pela última vaga no Leader’s Circle — que dá uma premiação de cerca de US$ 2 milhões (aproximadamente R$ 10,2 milhões) aos 22 melhores carros da temporada —, bateram e abandonaram.

Essa premiação é muito importante para Collet conseguir renovar com a Foyt, visto que alguns endinheirados, como Sting Ray Robb e Nolan Siegel, estão disponíveis no mercado. Sem esse valor, a permanência vai depender ainda mais do valor do cheque dos patrocinadores.

A Indy volta nesteo próximo fim de semana, entre os dias 22 e 23 de agosto, com o GP de Washington, em um circuito de rua montado nas cercanias do Capitólio.