O protagonista desta história é um piloto que sonhou traçar um caminho diferente dos compatriotas. Em tempos onde os Estados Unidos ainda eram distantes da Fórmula 1 como de outro mundo, saiu do estado de Nevada onde passou a infância para partir rumo à Europa. Mas era em casa que o destino estava. Praticamente sem experiência na Indy e na primeira corrida num superoval, escreveu o nome na história. Alexander Rossi se eternizou ao conquistar a vitória da 100ª edição das 500 Milhas de Indianápolis.
Foi há dez anos, num 29 de maio como hoje. Uma década passou desde que Rossi desembarcou na Indy meio cabisbaixo. Muito esforço na Europa, algumas vitórias na GP3 e até um vice-campeonato na GP2 renderam apenas cinco corridas na F1. E pela Manor, a última das nanicas, em 2015. As portas que se abriram foram as da maior categoria de monopostos de casa, para onde partiu.
A contratação de Rossi foi tratada com pompa. O principal representante dos Estados Unidos no planeta Europa chegou ao grid pela parceria Andretti Herta, o que fazia dele o quinto piloto da equipe do clã mais famoso da velocidade. Não era o único novato vindo do outro universo: Max Chilton, mais um sofredor da Manor, chegara para a Ganassi. A expectativa pela centésima edição da Indy 500 era o grande fio condutor do ano e vinha após um campeonato de 2015 encerrando de maneira eletrizante.
Mesmo assim, a corrida ficou sem bump. Foram 33 os inscritos e todos eles, assim, largariam. Rossi chegou sem pompa: tinha conquistado apenas um top-10, justamente no misto de Indianápolis, na corrida anterior. E passou por treinos e testes em percalços. Na estreia em ovais, em Phoenix, ficou longe das grandes aspirações. E o teste para a maior das provas era apenas parcial, uma vez que as características de ambas as pistas eram — como são até hoje — muito distintas.
Apesar de melhorar ao longo dos treinos e ter nas mãos um bom carro, Rossi não espantou ninguém. Sequer entrou no Fast Nine da classificação, embora passar a primeira fase no décimo posto tenha sido extremamente respeitável. Foi o suficiente para ser o melhor dos cinco novatos — Spencer Pigot (23º), Matthew Brabham (26º), Stefan Wilson (27º) e Chilton (31º) eram os outros.
Estava claro que a Andretti tinha um bom carro: três dos outros quatro pilotos garantiram vaga entre nos nove primeiros incluindo o vencedor de 2014, Ryan Hunter-Reay. No segundo dia da tomada de tempos, quando tinha o décimo posto como a melhor posição de largada possível, confirmou o 11º lugar e um espaço na quarta fila. A pole era de James Hinchcliffe.

A primeira parte da corrida não teve nada de Rossi em conversa de liderança. Hunter-Reay passou Hinchcliffe de saída e os dois, juntos de Josef Newgarden, começaram a trocar posição na dianteira durante as voltas iniciais. Buddy Lazier, ícone de outros tempos, nem mesmo conseguiu largar.
A primeira janela de pit-stop abriu na volta 27, quando Hinchcliffe perdeu muito tempo depois do carro apagar. O último a parar foi Sage Karam, na 32, mostrando até onde os carros podiam ir. Com tudo restabelecido, Hunter-Reay liderava novamente, mas era perseguido por Simon Pagenaud, Newgarden e Towsend Bell. Tony Kanaan e Hélio Castroneves, os brasileiros na corrida, eram oitavo e nono colocados.
O que faltava era uma bandeira amarela, que veio na volta 46 e por detritos na pista. Eis que o pelotão voltou aos boxes. O tráfego no pit-lane fez até gente que sonhava com a vitória duelar lá dentro: Will Power chegou a espremer Kanaan na faixa de rolamento, mas evitou acidentes. Power, contudo, foi punido depois e pulou para último. Hunter-Reay se mantinha na frente, ainda que Bell tivesse tomando a frente por breves quatro voltas. Nos giros subsequentes, os dois e Hinchcliffe voltaram a trocar a dianteira.
O próximo distúrbio na corrida seria causado por Juan Pablo Montoya. O veterano vencedor de edições passadas estava sumido quando, na volta 63, perdeu o controle do carro da Penske na tomada da curva dois e estalou a suspensão no muro. Fim de prova para ele e mais uma oportunidade de encher os boxes. Na realidade, conforme Lazier aparecia muito após os outros apesar de não largar no começo, Montoya se tornava dono do primeiro adeus do dia. No pit, Hinchcliffe quem levou a melhor. E outra desinteligência no pit-lane: Pagenaud sofreu a mesma punição que Power após quase bater em Mikhail Aleshin.

Ao passo que Castroneves subia para o quarto posto e Rossi continuava no meio de pelotão, a bandeira amarela voltava a brilhar, mas agora somente por três voltas após uma nuvem passageira molhar pontos da pista. Na 75, tudo estava normalizada. Quando veio a retomada, Power, tentou alongar o stint, liderava, mas foi alvo fácil para Hinchcliffe e toda a horda que o acompanhava. Hunter-Reay incomodava, mas Bell caía de ritmo e era superado por Castroneves. Nos minutos seguintes, o brasileiro embalou: quando ultrapassou Hunter-Reay e assumiu a liderança, a corrida se aproximava da metade e estava na 90ª de 200 voltas.
A despeito do acidente de Montoya e das quase batidas nos boxes, a 100ª Indy 500 transcorria com certa tranquilidade. Um acidente mais forte veio em seguida, quando Karam, empolgado pela vaga entre os primeiros colocados, mergulhou por fora para tentar desbancar Bell na curva um. Mas Townsend jogou duro, apertou a defesa e fez Sage se assustar e perder o controle. Arrebentou o carro da Dreyer & Reinbold. Era o segundo abandono da corrida. Até a volta 100, Ed Carpenter também iria embora com problemas.
Bryan Clauson chegou a liderar por meia volta até ser chamado aos boxes e devolver a dianteira para Castroneves. Na relargada pós-amarela, entretanto, Hunter-Reay voltava a tomar as rédeas, ao passo que Kanaan arrancava rumo ao terceiro lugar. Demorou pouco até passar o compatriota e, na 109, arrancou a posição de honra. Mas foi rápido. Hunter-Reay e Bell o deixaram no caminho antes da amarela seguinte, causada pelo acidente entre Aleshin e Conor Daly. Pior para Daly, que se tornou o quinto a abandonar.
Foi justamente no corre-corre da entrara nos pits que Castroneves saía normalmente quando Bell se assustou, balançou o carro e espanou para cima de Hélio e de Hunter-Reay também. Os dois pilotos da Andretti tiveram prejuízo maior, mas Castroneves saiu ainda em condições de continuar entre os primeiros. No vai-não-vai, Alex Tagliani, ele mesmo, assumia a dianteira e tinha Rossi, enfim aparecendo, em segundo. Castroneves, Pagenaud, Hinchcliffe e Kanaan davam sequência na fila.

Tagliani e Rossi, diferentes de outros ponteiros de ocasião que pareciam ter apenas o desejo de respirar o glorioso ar do topo por meros instantes, mantinham-se em cima. Entre as voltas 121 e 125, duelaram e trocaram quem andava de rosto pro vento. Antes mesmo de Tagliani ir aos pits, Rossi estava em vantagem e encontrou com Bell, companheiro de Andretti e agora retardatário. O trabalho em equipe falou alto: Bell deixou o novato andar em seu vácuo e poupar combustível. Por ali continuava quando Tagliani parou, deixando os brasileiros Kanaan e Castroneves em segundo e terceiro. E ambos subiram ao topo quando, na volta 138, foi a vez de Alexander parar.
Depois de não largar e ainda voltar para a corrida, Lazier reapareceu na prova de maneira cômica. Assim que saiu dos boxes, um dos pneus se soltou e correu sozinho, pista afora. Agora, sim, abandono para ele. E sorte para Tony e Hélio, que tinham acabado de parar e continuavam puxando o bonde. A relargada viria somente na volta 158, já no período de decisão, e Kanaan saiu melhor. Castroneves perdeu rendimento quase de imediato. Demorou um pouco até ficar claro que o parachoque tinha se desprendido. Antes que conseguisse ir aos boxes, entretanto, deu sorte de novo: Takuma Sato bateu e forçou mais uma rodada amarelas.
JR Hildebrand e Tagliani permaneceram na pista, mas a ordem era parar. Kanaan relargou em quarto, mas disparou e ultrapassou em série até voltar ao primeiro posto, onde permaneceu até Newgarden chegar, na 178. Na 182, voltou a levar a melhor. Assim permaneceram até Carlos Muñoz surgir meio com fôlego de quem tinha guardado para o fim. Depois de bater na trave em 2013, na derrota que acabou sendo justamente para Tony, tinha satisfação a tirar. O rival de três anos antes foi superado, mas Newgarden escapava. os dois iam embora do pelotão juntos.
A realidade que ficou clara a cerca de dez voltas do fim foi que os ponteiros não tinham combustível para chegar ao final, apesar da vantagem na pista. Contavam com uma amarela mais, que não veio após o acidente de Sato. Kanaan parou a oito voltas do fim; logo depois, Newgarden; na 195, Muñoz. A interrupção com a qual contava há mais ou menos 30 voltas não tinha aparecido. Todos precisavam dum splash & go.

Rossi, o novato, que havia relargado em décimo após acidente de Sato, pintava na dianteira na sequência de voltas poupando combustível. Era uma estratégia desenhada por Bryan Herta, seu spotter e dono da equipe, e que se comunicava diretamente com Alex. Herta, de longa trajetória nas pistas, cantava a pedra das voltas finais: em que parte da pista ir, quando e quanto acelerar, quando planar e o que fazer para segurar o combustível que se aproximava do fim.
A duas voltas da chegada, tirou o pé de vez. Agora, apenas a sorte e a diferença construída na estratégia podiam salvá-lo — Hunter-Reay, fora da briga, contribuiu com vácuo tanto quanto pôde também. Na abertura da última volta, tinha 20s de frente. Dava ou não dava? Dava! Mesmo com uma volta final a menos de 290 km/h de média de velocidade, recebeu a quadriculada na frente por 4s5 para Muñoz, companheiro de Andretti e segundo colocado pela segunda vez em quatro anos. Mas assim são as corridas. A situação do vencedor era tão drástica que o combustível terminou antes que conseguisse voltar aos boxes, e precisou ser carregado até o Victory Lane.
“Não sei nem por onde começar”, disse um emocionado Rossi na saída do carro, enquanto visivelmente sofria para encontrar palavras. “Em fevereiro, nem pensava na Indy e acabei de ganhar as 500 Milhas de Indianápolis”, declarou.
“Muito obrigado ao incrível grupo de pessoas que me deram a oportunidade de vir aqui neste ano, mesmo sendo relativamente desconhecido nas categorias de formação americanas, e terem me dado uma chance. Agradeço a Michael Andretti e Bryan Herta por me darem um carro tão sensacional ao longo de todo este mês”, vibrou.

“Acabou nosso combustível na curva quatro [após a chegada]. Estávamos planando pela reta oposta. Sabíamos que a chegada seria apertada, mas Ryan (Hunter-Reay) me ajudou com um vácuo nas últimas duas voltas. Resultado incrível. Os pneus Firestona também estavam fantásticos, uma plataforma extremamente consistente. Foram ótimos o mês todo. É um privilégio guiar um carro tão maravilhoso”, continuou.
“O leite aqui tem um gosto melhor que qualquer coisa que eu já provei. Serei para sempre um fã de leite. Agradeço demais à Indy e à Associação Americana de Laticínios”, finalizou.
Rossi se tornava o primeiro novato a vencer as 500 Milhas de Indianápolis desde a virada do século: Castroneves, em 2001, fora o último.
Depois da glória da edição 100, Rossi não saiu mais da Indy. Tampouco voltou a vencer a Indy 500, embora tenha terminar no top-5 mais cinco vezes. Ainda esteve na briga pelo título algumas vezes, com o vice-campeonato em 2018 e o terceiro lugar em 2019. Ao todo, até hoje, tem oito vitórias em 170 provas da Indy. Mas o ponto alto foi aquele dia, uma década exata atrás, quando seu nome virou sinônimo dos 100 anos de um dos eventos de maior prestígio do mundo.
A Indy 2026 retorna neste fim de semana, no dia 31, com o GP de Detroit, em circuito montado nas ruas da cidade mais populosa do estado do Michigan, nos Estados Unidos.
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Indy 2026, programação completa do GP de Detroit:
| Sessão | BRA* | CBV | POR | ANG | MOZ |
| TL1 (29/05) | 16:00 | 18:00 | 20:00 | 21:00 |
| TL2 (30/05) | 10:00 | 12:00 | 14:00 | 15:00 |
| Classificação (30/05) | 14:00 | 16:00 | 18:00 | 19:00 |
| Warm-up (31/05) | 10:30 | 12:30 | 14:30 | 15:30 |
| Corrida (31/05) | 13:30 | 15:30 | 17:30 | 18:30 |
* horário de Brasília [GMT -3]
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