Silverstone deixou um recado importante para a segunda metade da temporada 2026: a disputa entre Aprilia e Ducati mudou de patamar. É preciso, claro, colocar o resultado britânico em perspectiva. Silverstone é um circuito de circunstâncias bastante particulares, tanto que vem apresentando vencedores diferentes ​nas últimas 12 corridas. Não é prudente transformar uma etapa em regra. Ainda assim, seria um erro diminuir o que a Aprilia tem feito em 2026.

Graças ao trabalho feito em Noale, a Aprilia hoje tem uma moto capaz de deixar a Ducati para trás em diferentes tipos de traçado. A RS-GP mostrou velocidade em pistas distintas ao longo da temporada e chegou a Silverstone em condição de dominar classificação, ​c​orrida sprint e GP. A explicação de Massimo Rivola sobre a vantagem aerodinâmica nas curvas de alta velocidade ajuda a entender o resultado, mas não explica sozinho a diferença apresentada no fim de semana passado.

E, principalmente, Jorge Martín voltou a parecer o piloto que a Aprilia esperava ter quando contratou o campeão mundial. Depois de um período turbulento, com problemas físicos e dificuldades para encontrar regularidade, ​o espanhol respondeu com autoridade. A vitória na ​c​orrida curta e o segundo lugar no GP ​reforçam o #89 no centro da disputa pelo título e, mais importante, mostraram que existe confiança ​novamente entre piloto e moto.

Marco Bezzecchi também merece atenção especial. Depois de um período abaixo das expectativas​ no fim da primeira metade da disputa, o italiano reencontrou desempenho e voltou a ocupar o lugar de protagonista​, mesmo ainda em fase de recuperação da fratura na clavícula esquerda. A Aprilia tem, portanto, uma dupla de fábrica em ascensão justamente quando a Ducati ​e​nfrenta várias dificuldades para encontrar respostas.

Jorge Martín (Foto: Divulgação/MotoGP)

E há ainda Ai Ogura. O resultado de Silverstone, com a queda no GP, não muda a avaliação sobre o japonês. Ogura é, talvez, a grande história da MotoGP em 2026. A campanha colocou um piloto da Trackhouse na briga direta pela lideran​ça e a disputa do título. Mesmo com o fim de semana ruim na Grã-Bretanha, ​o​ #79 tem pontos ​e performance suficiente para incomodar até o fim.

É aí que a situação começa a ficar particularmente interessante para a Ducati.​ Borgo Panigale sentiu o golpe de Silverstone. Não apenas pelo resultado, mas porque o fim de semana expôs uma combinação de problemas que não estava presente no mesmo nível em 2025.

Marc Márquez, que reinou na temporada passada, ainda lida com as consequências físicas da cirurgia no ombro. A recuperação limita o piloto justamente em um momento em que a Ducati precisaria da principal referência para encontrar caminhos de desenvolvimento.

Marc Márquez (Foto: AFP)

Além disso, a GP26 não parece encaixar perfeitamente com a pilotagem de nenhum dos nomes da estrutura. Marc terminou o GP em sétimo; Francesco Bagnaia caiu; Álex Márquez foi o melhor representante da Ducati e Fabio Di Giannantonio novamente mostrou capacidade para extrair um desempenho competitivo. O problema, portanto, não parece estar restrito a um único piloto. A dificuldade é encontrar uma combinação entre moto, estilo de pilotagem e condições de pista que permita à Ducati voltar ao nível mais alto. Mas agora existe uma terceira variável: a Aprilia.

É um cenário completamente atípico para a Ducati. Em 2025, a questão era como as rivais poderiam reduzir a vantagem de Marc Márquez e da GP25. Em 2026, Borgo Panigale precisa lidar com um campeonato no qual existe uma equipe capaz de colocar quatro motos na frente e, principalmente, com três pilotos da Aprilia ocupando as primeiras posições da classificação.

Gigi Dall’Igna tratou Silverstone como um episódio que não merece alarmismo, mas falou em “choque de realidade.” O dirigente reconheceu que a Ducati “nunca esteve realmente na disputa”, mas também afirmou que não havia nada particularmente preocupante e que momentos favoráveis voltariam a aparecer. A leitura faz sentido do ponto de vista de uma temporada longa. A Ducati tem recursos, experiência e capacidade técnica para reagir. Mas a própria necessidade de reagir já representa uma mudança.

Gigi Dall’Igna (Foto: Reprodução)

A situação é nova não apenas para a Aprilia, que passou de equipe em ascensão a candidata real ao título, mas também para a Ducati, que deixou de ser a referência incontestável do grid.

Pela primeira vez em muito tempo, A Ducati precisa observar uma rival e encontrar maneiras de alcançá-la, enquanto tenta simultaneamente resolver questões internas. O desafio é enorme e tem tudo para criar ainda mais entretenimento ao fã da MotoGP no fim do mês, em Aragão.

MotoGP volta a acelerar entre os dias 28 a 30 de agosto para o GP de Aragão, 13ª etapa da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha toda a programação do fim de semana, assim como as demais categorias do Mundial de Motovelocidade.

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