A Aprilia construiu a RS-GP mais competitiva de sua história recente, mas uma sequência de erros, azares e um Marc Márquez em nível monumental transformou a líder absoluta do início do ano em uma equipe obrigada a correr atrás na reta final do campeonato.
A casa de Noale chegou ao campeonato de 2026 bastante forte e, ao longo das primeiras provas, conquistou a condição de equipe a ser batida, com dois pilotos capazes de vencer e uma vantagem que parecia suficientemente grande para transformar a disputa pelo título em uma questão interna. O problema é que, desde então, quase tudo que poderia dar errado começou a acontecer com o time de Massimo Rivola.
E aqui está a grande contradição da temporada da marca italiana: a Aprilia não deixou de ser competente. Ela simplesmente deixou de conseguir transformar competência em resultado.
A RS-GP se mostrou, desde o início do ano, uma máquina plenamente capaz de superar a Ducati. Bezzecchi começou o ano em ritmo fulminante, enquanto Martín, quando conseguiu entrar no ritmo, mostrou que também tinha condições de lutar pelo título. A vitória da marca no Brasil, por exemplo, com Bezzecchi seguido por Martín, foi apenas uma das primeiras demonstrações de força.

O problema apareceu quando Marc Márquez começou a fazer exatamente aquilo que sabe fazer melhor: crescer enquanto os adversários tropeçam. A diferença não está na velocidade, mas na capacidade de transformar praticamente qualquer oportunidade em pontos.
Marc chegou a estar muito distante da liderança — 102 pontos atrás de Bezzecchi depois de Mugello — e, em poucas etapas, conseguiu eliminar completamente essa diferença. O #93 veio mais forte a partir da Hungria e, de lá para cá, conseguiu 203 pontos ― 78,3% do que foi distribuído. Ao longo do ano, o mais velho dos irmãos Márquez acumula cinco pódios, todos por vitória.
Na segunda metade do campeonato disputado até aqui ― recorte que compreende os GPs de Hungria, Tchéquia, Países Baixos, Alemanha, Grã-Bretanha, Aragão e San Marino ―, enquanto o #93 fez 203 pontos, Jorge Martín, que foi o segundo que mais pontuou no período, somou 118. Bezzecchi marcou apenas 68.

Bezzecchi passou a conviver com quedas justamente nos momentos em que precisava capitalizar a superioridade da RS-GP. O episódio de Misano talvez seja a síntese mais cruel disso tudo: pole-position, recorde da pista e, no domingo, queda ainda na primeira volta enquanto liderava a prova. O italiano recuperou a forma e mostrou bom ritmo na pista, mas isso basta diante do desafio de superar uma lenda do esporte?
Do outro lado da garagem, Martín segue para Spielberg assombrado por uma síndrome compartimental que provavelmente afetará a performance, assim como aconteceu na Itália. E é justamente aqui que a análise precisa fugir do maniqueísmo.
A Aprilia errou, mas também foi punida por circunstâncias que não estavam completamente sob seu controle. Não existe estratégia capaz de prever uma síndrome compartimental no meio de uma corrida. Não existe acerto capaz de impedir uma queda provocada por um erro de pilotagem — como foi o caso do #72 em Misano. E não existe equipe que consiga controlar o nível de um rival que voltou a encontrar a própria versão mais assustadora.

O desafio agora é conseguir fazer tudo funcionar ao mesmo tempo. Esse talvez seja o aspecto mais doloroso para Noale. A Aprilia fez aquilo que parecia mais difícil ao construir uma moto capaz de enfrentar a Ducati de igual para igual. Bezzecchi se transformou em candidato real ao título. Martín encontrou velocidade para liderar o Mundial.
Só que um campeonato do mundo não se ganha só com a melhor moto. Ganha-se com consistência. Com pontos nos domingos ruins. Com capacidade de sobreviver aos erros. Com um pouco de sorte. E, sobretudo, evitando entregar ao adversário as oportunidades que ele precisa.
Marc Márquez já se regenerou, cresceu e vestiu a pele de Lobo Mau para perseguir quem quer que seja pelo décimo título mundial. Do lado de Noale, o tempo está acabando. Ainda é possível, mas talvez seja tarde demais.
A MotoGP volta a acelerar de 18 a 20 de setembro no GP da Áustria, 15ª etapa da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha toda a programação do fim de semana, assim como as demais categorias do Mundial de Motovelocidade.