Scuderia Bandeiras alega insegurança jurídica e relação ruim para sair da Stock Car
Após pouco mais de um ano de participação na Stock Car, a Scuderia Bandeiras confirmou que, após análises jurídicas e tributárias, vai deixar o grid. Equipe ainda alegou deterioração da relação com a Vicar, promotora da categoria
Bernardo Castro, Daniel Balsa e Giovani Danjo
A Scuderia Bandeiras confirmou nesta quarta-feira (1º) que vai deixar o grid da Stock Car, com efeito imediato, conforme apurou o GRANDE PRÊMIO. A decisão foi tomada depois de a equipe alegar “insegurança jurídica” e “deterioração” da relação com a Vicar, promotora da categoria.
A equipe soltou um comunicado em que elenca todos os motivos para a saída imediata, a começar por “preocupações relevantes relacionadas aos procedimentos tributários envolvendo a importação, circulação e comercialização dos pneus utilizados na categoria, operações conduzidas pela Vicar e por sua coligada Audace“. Pertencente ao Grupo Veloci, a Vicar tem Lincoln Oliveira como CEO. Já a Audace, fabricante dos carros da Stock Car, tem como diretor Enzo Bortoleto, filho de Oliveira.
Tal indicação expõe a cobrança financeira da Vicar às equipes pelos pneus Hankook, que é de R$ 16 mil por jogo, apurou o GRANDE PRÊMIO. Fontes ouvidas pelo GP indicaram que a empresa que promove a Stock Car traz os produtos via importação temporária, isentando de impostos e, portanto, não podendo ser cobrado ou comercializado.
Desde que entrou na categoria, na temporada 2025, a equipe de Átila Abreu e Christian Fittipaldi disse ter investido mais de R$ 20 milhões no projeto. No entanto, surgiram preocupações com relação a alguns procedimentos tributários, como explicou a equipe.

Diante de tais incertezas, a equipe concluiu que tais operações exigiam “esclarecimentos formais e documentação complementar capazes de assegurar a conformidade jurídica e afastar eventuais riscos de responsabilização das equipes perante órgãos fiscais”.
Porém, isso não aconteceu, mesmo com notificações extrajudiciais sendo enviadas à Vicar e à Audace neste período. “Parte das notificações permaneceu sem resposta e, nas manifestações recebidas, os esclarecimentos apresentados não foram considerados suficientes para eliminar as preocupações apontadas pelos consultores independentes”, justificou a equipe. Somado a isso, a equipe também relatou outras dúvidas a respeito dos “aspectos contratuais, regulatórios e de governança da categoria”.
De acordo com a Scuderia Bandeiras, a relação institucional com a Vicar ficou significativamente deteriorada após buscar esclarecimentos formais sobre os procedimentos tributários envolvendo a importação, circulação e comercialização dos pneus utilizados na categoria.
“Na avaliação da equipe, parte desse cenário decorre do atual modelo de governança adotado pela Vicar. A Scuderia Bandeiras entende que a elevada concentração das decisões estratégicas, comerciais e regulatórias reduziu a previsibilidade, a transparência e a segurança jurídica necessárias para equipes, patrocinadores e investidores”, informou no comunicado.

Segundo a Scuderia Bandeiras, o processo incluiu “cobranças extraordinárias” com destaque para a “exigencia adicional de R$ 157 mil referente ao Truck Lounge da etapa de Interlagos quando toda a estrutura já se encontrava montada”, além de “aproximadamente R$ 800 mil relacionados às adaptações da nova motorização, que, segundo sua interpretação contratual, seriam de responsabilidade da promotora”. Por fim, citam o “fornecimento recorrente de componentes que, segundo a equipe, eram incompatíveis com o regulamento técnico” e “aplicação de multas que ultrapassam R$ 2,37 milhões”.
Outro ponto levantado pela Scuderia Bandeiras diz respeito a um bloqueio imposto contra a equipe ao sistema Stock Manager, o que, segundo a notificação extrajudicial de rescisão contratual, impediu a solicitação de peças de reposição e prejudicou deliberadamente as atividades do time. Isso aconteceu apesar de uma decisão judicial determinar que a categoria não poderia impor essa restrição.
A Scuderia Bandeiras também alegou falta de segurança técnica na categoria como outro fator que contribuiu para a saída da equipe da Stock Car. O forte acidente de Bruno Baptista na etapa de Brasília em 2025, inclusive, é citado na nota oficial da esquadra como exemplo de problema envolvendo o novo chassi, introduzido no ano passado.
A equipe lembra que a batida de Baptista “ganhou repercussão nacional e é objeto de investigação pela Polícia Civil, além de ações em tramitação na Justiça”. De momento, um modelo SNG01 foi preservado para perícia judicial e o processo segue na Justiça Comum após a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) ter recursos negados para levar o caso para a Justiça Desportiva.
No final de 2025, antes da última etapa da temporada em Interlagos, o GRANDE PRÊMIO teve acesso às pastas de provas das rodadas da Stock Car do ano passado. Nestes documentos, o comissário técnico responsável atesta que os modelos estavam inaptos a irem à pista em 10 das 11 primeiras etapas do calendário.

Além disso, a Scuderia Bandeiras também lembra as muitas falhas apresentadas pelos carros em pista desde a introdução do novo regulamento técnico no ano passado. Para a equipe, que lembra também o cancelamento da etapa do Velocitta em 2025, os problemas mecânicos sucessivos “comprometeram resultados esportivos”.
Na notificação extrajudicial de rescisão contratual com a Stock Car, a Scuderia Bandeiras também cita inconsistências em peças fornecidas pela Audace Tech, que se mostraram “incompatíveis com os
padrões dimensionais exigidos para sua instalação”. A equipe ainda relata que a Stock Car, diante desta situação, “ora determinou a devolução dos componentes, ora autorizou expressamente sua adaptação e retrabalho para viabilizar a continuidade das atividades esportivas”.
Todo esse cenário representou, para a equipe de Átila, uma “mudança relevante no ambiente da categoria”. A Bandeiras, inclusive, cita a saída de importantes patrocinadores e parceiros nos últimos anos, como Shell, Mobil, Ipiranga e Globo. A Scuderia Bandeiras também destaca as punições e “multas elevadas” aplicadas para manifestações públicas de pilotos e equipes contra a Stock Car, algo que “limita o debate institucional sobre temas relevantes para o desenvolvimento da categoria”, segundo o time.
A Scuderia Bandeiras também deixa claro na nota oficial à imprensa que a decisão de abandonar a Stock Car “não decorre de desempenho esportivo”. Para a equipe, inclusive, a campanha foi encerrada em um momento de alta, com duas poles, cinco vitórias, 14 pódios e três voltas mais rápidas conquistados dentro de um ano e meio de participação na categoria.
“A decisão mais difícil da história da Scuderia Bandeiras não foi tomada porque deixamos de acreditar na competição. Foi tomada porque acreditamos que nenhuma vitória dentro das pistas justifica colocar em risco a confiança de patrocinadores, investidores, pilotos, colaboradores e parceiros. Nossa reputação foi construída ao longo de décadas e continuará sendo nosso maior patrimônio”, afirmou a direção da equipe.
Fundador da Scuderia Bandeiras, Átila Abreu explica razões da saída imediata da Stock Car
Stock Car cita “irregularidade” e diz que segurança é “valor inegociável” em saída da Scuderia Bandeiras
Na nota oficial compartilhada através do perfil nas redes sociais, a Vicar — promotora da Stock Car — destaca que a decisão da Scuderia Bandeiras vem na esteira do julgamento da equipe no STJD, em que punições por irregularidades técnicas contestadas pelo time foram mantidas por unanimidade. Segundo a categoria, o processo foi tocado de maneira correta e respeitou o direito de defesa do time.
Além disso, a nota reforça que a segurança é um valor “inegociável” da categoria. Porém, logo após emitir o posicionamento, a Vicar bloqueou os comentários da postagem e impediu reações por parte dos seguidores. Confira o esclarecimento abaixo, na íntegra.
A Vicar Promoções Desportivas recebeu a comunicação oficial das equipes Bandeiras e Bandeiras Sports sobre a decisão de encerrar sua participação na Stock Pro Series, com efeito imediato.
A decisão ocorre após o julgamento conduzido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), que manteve, por unanimidade (5 x 0), as penalidades aplicadas anteriormente pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) em razão de irregularidades técnicas identificadas durante a fiscalização de componentes homologados dos veículos das equipes que impactam diretamente a segurança dos competidores, incluindo os das próprias escuderias acima citadas.
Todo o processo foi conduzido conforme os regulamentos da categoria e pelas instâncias competentes do esporte, com respeito ao devido processo legal e ao direito de defesa das partes envolvidas.
Para nós, da Vicar, a segurança é um valor inegociável e qualquer conduta que possa comprometer a integridade dos pilotos, equipes, profissionais envolvidos ou do público é tratada com absoluto rigor. Seguimos atuando com responsabilidade para garantir um ambiente competitivo, seguro e alinhado às regras do campeonato.
A saída das equipes não altera a realização da temporada, o calendário da Stock Pro Series ou os compromissos previstos com patrocinadores e parceiros.
Seguimos comprometidos com a transparência, o respeito às normas esportivas e o fortalecimento do automobilismo brasileiro.”