{"id":25181,"date":"2025-01-08T11:00:32","date_gmt":"2025-01-08T14:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/circo-redes-sociais\/"},"modified":"2026-06-16T22:07:46","modified_gmt":"2026-06-17T01:07:46","slug":"circo-redes-sociais","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/victor-martins\/noticias\/circo-redes-sociais\/","title":{"rendered":"O circo e as redes sociais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha rea\u00e7\u00e3o ao receber um convite para ir ao circo foi pensar na exist\u00eancia do circo. Os outdoors na rua estavam l\u00e1 indicando, na sequ\u00eancia, que o circo est\u00e1 na cidade, mas poucos veem porque, estando no carro, quem est\u00e1 dirigindo nem presta aten\u00e7\u00e3o direito e quem est\u00e1 de carona geralmente est\u00e1 com a cabe\u00e7a para baixo vendo qualquer coisa no celular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVamos, uai\u201d, respondi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 noite, o circo brilha, mostra suas luzes todas e ganha vida. Usa aquele espet\u00e1culo de cores como um alarme pedindo encarecidamente para que, de \u00faltima hora, os v\u00e1rios algu\u00e9ns se compade\u00e7am e larguem aquele maldito aparelho que nos prende a um mundo digital por alguns minutos que sejam. Durante a semana, a miss\u00e3o falha miseravelmente: o circo est\u00e1 longe de lotar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 pode ser pelos pre\u00e7os, que, come\u00e7ando a cinquenta lulas por pessoa, mesmo sendo metade para crian\u00e7as, pesa. Porque tem o algod\u00e3o-doce, a pipoca, o refrigerante e o crepe que acabam entrando na balan\u00e7a e s\u00e3o salgados como um todo. Mas a disposi\u00e7\u00e3o da plateia em torno do palco mostra que poucos se entregam com suas fam\u00edlias nos setores mais caros, deixando \u00e0 mostra as v\u00e1rias cadeiras simples e pouco confort\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O espet\u00e1culo come\u00e7a com sete meninas em uma coreografia que precisa de um ajuste final, depois traz o palha\u00e7o que tem a fun\u00e7\u00e3o de ser palha\u00e7o em v\u00e1rios momentos, chamando o p\u00fablico ao palco, pedindo palmas, pedindo mais palmas, pedindo muito mais palmas, a\u00ed, satisfeito com as palmas, joga \u00e1gua em alguns e pipoca na cara de outros, depois vem a mo\u00e7a fazendo malabarismos com o tecido, subindo nele como em um pole dance fren\u00e9tico, a\u00ed vem o casal que vai trocando de roupa e confundindo a cabe\u00e7a sobre como aquilo \u00e9 feito sem que ningu\u00e9m perceba, o palha\u00e7o volta e bota medo no p\u00fablico que teme em n\u00e3o ser chamado para participar das palha\u00e7adas, depois vem o ato da mo\u00e7a que \u00e9 cortada ao meio e de repente aparece na ponta do palco, o locutor pede o intervalo, as pessoas buscam ali uma \u00e1gua ou v\u00e3o ao banheiro que remete ao de um aeroporto, as pessoas voltam, o espet\u00e1culo \u00e9 retomado l\u00e1 em cima, com mo\u00e7as e rapazes se deslocando pelos trap\u00e9zios, depois vem o globo da morte com quatro motos que, pelo momento da vida, me remeteu ao Rali Dakar, e o palha\u00e7o volta para fazer malabarismo com tr\u00eas chap\u00e9us, chamar seus demais colegas e dar adeus ao respeit\u00e1vel p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foram 80 minutos de nossas vidas entregues a um divertimento que est\u00e1 l\u00e1 h\u00e1 175 anos, e a mente vai longe, compondo a timeline deste tempo, pensando em um mundo l\u00e1 do s\u00e9culo XIX mais purista, avan\u00e7ando aos \u00faltimos anos, de pandemia aos momentos atuais, de pensar em como esta gente sobreviveu e que precisa mesmo, quase em tom de piedade e dor, que o povo assimile que o circo abre suas portas e emprega profissionais dedicados por horas \u00e0quilo, e por a\u00ed se entende por que, na entrada, a pessoa pergunta como se soube da exist\u00eancia do circo, e sorri quando v\u00ea que algu\u00e9m viu aqueles outdoors, e indiretamente convida a sair do mundo nefasto em que nos acostumamos a viver em torno destas redes sociais que, sem nenhum pudor, abriram a caixa de pandora da discrimina\u00e7\u00e3o e da mentira e nos desafiam a participar deste jogo &#8216;Round 6&#8217; que vai nos matando aos poucos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 estranho ver que o comportamento geral de adultos que l\u00e1 est\u00e3o \u00e9 de se permitir ir, de peito aberto, para simplesmente gostar do circo. Como se a alegria da nossa vida estivesse concentrada nas nossas m\u00e3os atrav\u00e9s de um aparelho que a cada dois anos precisa ser trocado para nos dar mais alegria, sendo que os aplicativos que ali est\u00e3o nos transmitem raiva, desgosto e desilus\u00e3o. H\u00e1 muitas coisas que o circo precisa melhorar para se adaptar a estes tempos, mas a fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica dele, a de entreter, est\u00e1 ali. O circo cumpre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois eu agora convido: v\u00e1 ao circo. Troquemos as redes sociais pelo circo. Encarecidamente. N\u00e3o sejamos n\u00f3s os palha\u00e7os neste globo da morte dos tempos atuais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Cr\u00f4nica que abre a coluna <strong>6\u00aa Marcha<\/strong>, que ser\u00e1 publicada \u00e0s sextas-feiras<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha rea\u00e7\u00e3o ao receber um convite para ir ao circo foi pensar na exist\u00eancia do circo. 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