{"id":28706,"date":"2011-01-24T16:11:02","date_gmt":"2011-01-24T18:11:02","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/vacaciones-6\/"},"modified":"2026-06-16T22:16:33","modified_gmt":"2026-06-17T01:16:33","slug":"vacaciones-6","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/victor-martins\/noticias\/vacaciones-6\/","title":{"rendered":"Vacaciones, 6"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>QUASE DE VOLTA<\/strong> | O Thiago Arantes, velho colega do <strong>Grande Pr\u00eamio<\/strong> e hoje na ESPN, mandou um texto escrito\u00a0pelo fluminense\u00a0M\u00e1rcio Madeira. O Madeira participou da sele\u00e7\u00e3o de <em>O Grande Estagi\u00e1rio 1,<\/em> foi um dos finalistas, redige bem demais e entende muito de automobilismo. Mas lidou de perto com a hecatombe ocorrida na regi\u00e3o serrana do Rio de Janeiro. Reproduzo na \u00edntegra sua cr\u00f4nica que fala por si s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">De um lado, o pesadelo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">Uma madrugada sem dormir, a falta de luz, o alto barulho da chuva vencendo um sil\u00eancio de tens\u00e3o compartilhada. Ta chovendo demais, ta chovendo demais. Pela janela a luz de rel\u00e2mpagos revela a rua alagada, enquanto o estrondo e o chacoalhar de um carro que tentava escapar revelam o enorme buraco escondido pela \u00e1gua escura. O dia amanhece, os olhos ainda exploram os estragos vis\u00edveis, quando o som indescrit\u00edvel de uma avalanche anuncia algo de grandioso acontecendo. O cora\u00e7\u00e3o dispara, o olhar se volta para a esquerda, e a consci\u00eancia duvida do que os olhos est\u00e3o vendo. Todo o morro esta descendo. \u00c9 muita, muita terra. O entulho some da vista, escondido pelos pr\u00e9dios. Um forte estrondo \u00e9 ouvido, surge uma gigantesca nuvem de poeira. N\u00e3o era encosta, n\u00e3o havia falhas na topografia nem tampouco casas em local de risco. \u00c9 mata nativa, reserva natural. Se ali est\u00e1 desabando, ent\u00e3o todo o resto j\u00e1 ter\u00e1 ca\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">O pensamento se volta para os amigos que ali residem. Nomes, rostos. Corremos para o telefone. Mudo. Ainda chove forte, mas \u00e9 preciso ir l\u00e1 ver. H\u00e1 lama e destrui\u00e7\u00e3o por todos os lados, pessoas choram e correm. Na rua anterior um verdadeiro rio impede a passagem, permitindo apenas ver um caminh\u00e3o dos bombeiros esmagado por entulhos. \u201cSeis bombeiros morreram\u201d \u2013 algu\u00e9m diz, aos prantos. N\u00e3o era boato. Mais alguns minutos e a chuva para. Podemos chegar mais perto.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">Corpos passam em macas o tempo todo, bombeiros perguntam se algu\u00e9m tem experi\u00eancia em primeiros socorros ou reanima\u00e7\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil saber qual a melhor forma de ajudar. Amigos de inf\u00e2ncia est\u00e3o debaixo de uma montanha de lama e escombros, onde antes havia belas casas tradicionais. Uma gr\u00e1vida \u00e9 resgatada enquanto d\u00e1 \u00e0 luz um filho morto. Do outro lado da pra\u00e7a, a \u00e1gua cobre carros e pontes, invade o shopping. Pessoas buscam lugares elevados, cachorros nadam a seus lados. H\u00e1 p\u00e2nico e informa\u00e7\u00f5es desencontradas por todos os cantos. \u201cA igreja de Santo Ant\u00f4nio est\u00e1 destru\u00edda\u201d, \u201co telef\u00e9rico acabou\u201d, \u201cedif\u00edcio tal est\u00e1 para cair\u201d, \u201cfulano de tal morreu\u201d, \u201cestrada tal est\u00e1 interditada\u201d, \u201ctal bairro n\u00e3o existe mais\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">Uma volta pela cidade come\u00e7a a dar a dimens\u00e3o da trag\u00e9dia, enquanto a luz n\u00e3o volta e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ver os jornais. A coisa foi grande, foi muito grande. Devem estar tentando falar com a gente, querendo not\u00edcias. O drama extrapola os limites da zona atingida. N\u00e3o h\u00e1 como tranq\u00fcilizar amigos ou parentes. Voltamos para casa. A comida na geladeira amea\u00e7a estragar. \u00c9 preciso fechar o registro de \u00e1gua, para que a lama e o esgoto n\u00e3o contaminem o que resta na cisterna. \u00c9 preciso economizar. H\u00e1 pessoas presas em elevadores, e a luz n\u00e3o voltar\u00e1 em menos de dois dias. A subesta\u00e7\u00e3o foi afetada, postes ca\u00edram, e h\u00e1 fios de alta tens\u00e3o entre os escombros, onde tamb\u00e9m h\u00e1 vazamento de g\u00e1s. O com\u00e9rcio est\u00e1 fechado, hospitais est\u00e3o isolados e\/ou destru\u00eddos, n\u00e3o h\u00e1 gasolina. Amigos se reencontram e cumprimentam em sil\u00eancio. N\u00e3o cabe perguntar se est\u00e1 tudo bem, \u00e9 preciso buscar novas formas de sauda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">O sol se p\u00f5e, \u00e9 preciso tentar dormir. Mas como? Bateria do celular come\u00e7a a acabar, na eterna busca por sinal. Lanternas e velas se esgotam apesar do racionamento. O mundo fica cada vez mais escuro, somos todos cegos. A noite se arrasta no medo de que volte a chover. Um banho r\u00e1pido e gelado no escuro talvez ajude a passar o tempo e a diminuir um pouco a sensa\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia e tens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">O sol torna a nascer. Parentes de v\u00edtimas n\u00e3o se afastam dos montes de escombros. Passaram a noite por l\u00e1. N\u00e3o existem \u00f4nibus circulando, pessoas caminham dias inteiros. O dinheiro \u00e9 curto, bancos e caixas eletr\u00f4nicos n\u00e3o funcionam. Filas se formam nos poucos estabelecimentos que se atrevem a funcionar. A entrada de pessoas \u00e9 controlada, pois h\u00e1 medo de saques. Os pre\u00e7os se multiplicam, uma \u00fanica vela pode custar at\u00e9 dez reais. Revolta e tristeza invadem a alma: \u201ch\u00e1 necessidade disso? J\u00e1 n\u00e3o sofremos o bastante?\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">A presidente est\u00e1 na nossa rua, os helic\u00f3pteros n\u00e3o param. \u201cA coisa deve ter sido ainda maior do que parece\u201d \u2013 pensamos. Ainda sem luz, n\u00e3o temos tanta no\u00e7\u00e3o. A cidade se enche de bombeiros, policiais, homens do BOPE, da Guarda Nacional. O Ex\u00e9rcito tamb\u00e9m est\u00e1 aqui, \u00e9 muita gente trabalhando. Na pra\u00e7a ergue-se um hospital de campanha; no Instituto de Educa\u00e7\u00e3o um IML \u00e9 improvisado. Um m\u00e9dico pede um pouco de pomada descongestionante, pois o cheiro dos corpos j\u00e1 em decomposi\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se tornar insuport\u00e1vel, e se espalha por toda a cidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">Uma grande caixa d\u2019\u00e1gua se rompe num bairro afastado. A not\u00edcia ganha propor\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas no boca-a-boca de uma popula\u00e7\u00e3o apavorada. Interfone e telefone tocam ao mesmo tempo. \u201cCorre que a represa rompeu, vai inundar a cidade inteira, a \u00e1gua vai chegar at\u00e9 o segundo andar\u201d. Bombeiros apavorados sobem em caminh\u00f5es, doentes s\u00e3o transportados para os andares superiores de hospitais improvisados, pessoas s\u00e3o pisoteadas e atropeladas, ou brigam ferozmente por uma vaga nos caminh\u00f5es que abandonam o centro \u00e0 toda velocidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">N\u00e3o haveria volume d\u2019\u00e1gua na maior represa da cidade que fosse suficiente para causar nem um mil\u00e9simo do que era alertado, mas pouca gente consegue pensar calmamente quando at\u00e9 mesmo os militares est\u00e3o em p\u00e2nico. Alarme falso, terror real.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">De outro lado, a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">Caminh\u00f5es com donativos come\u00e7am a chegar um ap\u00f3s o outro, enquanto pessoas surgem de todas as cidades dispostas a ajudar. Os telefones come\u00e7am a tocar timidamente, ainda \u00e9 dif\u00edcil conseguir contato. Do outro lado da linha vozes amigas choram de al\u00edvio a cada al\u00f4.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">Boas not\u00edcias surgem, de vez em quando. Existem sobreviventes, algumas pessoas s\u00e3o resgatadas com vida. Em Friburgo, no bairro de Duas Pedras, o morador da casa mais alta, pr\u00f3xima \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, sente a estrutura de sua casa balan\u00e7ar e sai de imediato. Desce a rua no escuro e debaixo de chuva dando o alarme do desabamento iminente aos seus vizinhos. O morro desaba, mas nenhuma vida se perde ali. Her\u00f3i da vida real, prefere o anonimato.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">O trabalho no voluntariado consola e renova. A sensa\u00e7\u00e3o inigual\u00e1vel de servir e ser \u00fatil, a admira\u00e7\u00e3o por ver pessoas de fora trabalhando tanto ou mais que n\u00f3s, os interessados. Descarregar um caminh\u00e3o d\u00e1 muito mais trabalho do que parece, descobrimos isso rapidamente. E imaginar que, em algum lugar do Brasil, este mesmo trabalho estafante foi feito com alegria por pessoas que nem sequer nos conhecem&#8230;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">A ajuda material \u00e9, a um s\u00f3 tempo, \u00fatil e simb\u00f3lica, pois carrega em si uma mensagem invis\u00edvel. Sacia as necessidades do corpo, cura as doen\u00e7as da alma. Uma garrafa d&#8217;\u00e1gua n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma garrafa d&#8217;\u00e1gua. \u00c9 uma declara\u00e7\u00e3o de amor e de apoio, de algu\u00e9m que saiu de casa e foi comprar, levou para o posto de coleta, onde pessoas com amor carregaram o caminh\u00e3o. \u00c9, portanto, material sagrado. \u00c9 sacrif\u00edcio do povo, \u00e9 atitude, \u00e9 gente comendo menos para que outros possam comer alguma coisa. \u00c9 carinho materializado.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">Nos hemocentros, filas se formam com doadores. Doadores de sangue, doadores de vida. Gente que literalmente deseja dar parte de si mesmo ao pr\u00f3ximo. Imposs\u00edvel se manter o mesmo diante de tantas for\u00e7as, sejam elas tristes ou bonitas. De certo modo, \u00e9 justo dizer que todos n\u00f3s morremos debaixo do lama\u00e7al. N\u00e3o somos mais os mesmos, nem temos o direito de ser.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">A consci\u00eancia sobre as b\u00ean\u00e7\u00e3os e responsabilidades de simplesmente estar vivo se amplia indefinidamente. Continuamos aqui, por algum motivo. Estamos sendo abra\u00e7ados, protegidos. \u00c9 preciso justificar isso, \u00e9 preciso trabalhar, honrar os que se foram, e os que est\u00e3o ajudando. A vida nos deu uma p\u00e1gina em branco. \u00c9 preciso reconstruir, e fazer uma cidade melhor e mais segura do que antes. \u00c9 preciso renascer, tornar-se uma pessoa melhor e menos alienada, abandonar o superficial e voltar os olhos ao essencial. \u00c9 preciso ajudar a quem precisa, dividir o que se tem. H\u00e1 que brotar vida verdadeira desta mesma lama, adubada por tantos amigos inesquec\u00edveis que por l\u00e1 pereceram.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">A luz voltou, e os jornais falam em trag\u00e9dia anunciada. Meia verdade. Em Petr\u00f3polis e Teres\u00f3polis choveram 130 mm. Em Friburgo foram 182. Em algumas cidades a trag\u00e9dia de fato se concentrou em bairros perif\u00e9ricos e casas em locais de maior risco. Em Friburgo, reservas naturais e mans\u00f5es desabaram da mesma forma. Casas de classe m\u00e9dia alta, a 200 metros de encostas, foram soterradas. N\u00e3o houve distin\u00e7\u00e3o. Falar em drenagem ou muros de conten\u00e7\u00e3o diante de tamanha pot\u00eancia \u00e9 fazer piada de mau gosto. \u00datil, sim, seria um plano diretor livre de demagogias, e um sistema de alarme eficiente, como o her\u00f3i an\u00f4nimo de Duas Pedras.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">Chega o domingo, e com ele os primeiros raios de sol. Faz um dia bonito, apesar da poeira, e quando come\u00e7a a anoitecer o c\u00e9u assume uma colora\u00e7\u00e3o azul deslumbrante. Uma leve brisa sopra pelas ruas desertas, e, por um instante, as sirenes d\u00e3o uma tr\u00e9gua. Fecho os olhos por alguns segundos torno a abri-los. Perco o olhar nas estrelas e me deixo levar. Em minha cabe\u00e7a ou\u00e7o nitidamente a voz vigorosa de Renato Russo cantando.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\">\u201cMas \u00e9 claro que o sol vai voltar amanh\u00e3&#8230;\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>QUASE DE VOLTA | O Thiago Arantes, velho colega do Grande Pr\u00eamio e hoje na ESPN, mandou um texto escrito\u00a0pelo fluminense\u00a0M\u00e1rcio Madeira. O Madeira participou da sele\u00e7\u00e3o de O Grande Estagi\u00e1rio 1, foi um dos finalistas, redige bem demais e entende muito de automobilismo. 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