{"id":38661,"date":"2019-05-01T22:38:44","date_gmt":"2019-05-02T01:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/senna-25-5\/"},"modified":"2026-06-16T22:36:15","modified_gmt":"2026-06-17T01:36:15","slug":"senna-25-5","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/flavio-gomes\/f1\/senna-25-5\/","title":{"rendered":"SENNA, 25 (5)"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/grandepremio.com\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/fiandrimt.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-147595\" src=\"https:\/\/grandepremio.com\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/fiandrimt.jpg\" alt=\"fiandrimt\" width=\"700\" height=\"525\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>RIO<\/strong> &#8211; O segundo texto da trilogia, escrito em 2004, quando dos dez anos da morte de Senna. A entrevista t\u00e3o esperada com Maria Teresa Fiandri, a m\u00e9dica que recebeu o piloto no hospital Maggiore, de Bolonha.<\/p>\n<blockquote><p><a href=\"https:\/\/flaviogomes.grandepremio.com\/br\/2013\/05\/belo-e-sereno\/\" target=\"_blank\">&#8220;BELO E SERENO&#8221;<\/a><\/p>\n<p><em>Era uma d\u00edvida que tinha comigo mesmo. Na semana do acidente, foi a \u00fanica pessoa que quis muito entrevistar e n\u00e3o consegui. Entre outras coisas porque me demiti do jornal. E, de certa forma, ela foi a grande respons\u00e1vel por umas das mat\u00e9rias mais importantes que fiz, minha \u00faltima na \u201cFolha\u201d. Porque a forma que imaginei para chegar a ela passava por encontrar uma antiga namorada que eu sabia que tinha voltado \u00e0 It\u00e1lia, 13 anos antes, para estudar medicina em Bolonha. Encontrei essa ex-namorada procurando a doutora Fiandri. Cristina, o nome dela, tinha se formado em Bolonha e trabalhava como m\u00e9dica legal. Fez parte da equipe que realizou a aut\u00f3psia em Senna. E me contou muita coisa sobre a morte, o estado do piloto, detalhes que s\u00f3 mesmo quem chegou muito perto teria condi\u00e7\u00f5es de relatar.<\/em><\/p>\n<p><em>Foi uma boa entrevista, essa com a doutora Fiandri dez anos depois. Mas, curiosamente, meu gravador n\u00e3o funcionou. Tenho problemas com gravadores quando se trata do Senna. Ainda em 1994, eu e o Nilson Cesar, ent\u00e3o meu colega de Jovem Pan, fomos \u00e0 quinta perto do Estoril onde estava vivendo Adriane Galisteu. A casa pertencia ao Braguinha, empres\u00e1rio conhecido, ex-presidente do Bradesco, muito amigo de Senna e tal. Adriane ficou l\u00e1 por meses depois da morte do namorado.<\/em><\/p>\n<p><em>Era a primeira vez que a namorada de Ayrton falava ap\u00f3s o acidente e fizemos ao vivo, por telefone, durante o programa \u201cS\u00e3o Paulo Agora\u201d, da Pan. Era semana do GP de Portugal. Ficou \u00f3tima e est\u00e1 gravada nos arquivos da r\u00e1dio, possivelmente. Mas eu tamb\u00e9m gravei. Coloquei o gravador ali do lado, play e REC e vamos embora. Quando terminamos, entramos no carro e eu disse ao Nilson: vamos escutar pra ver se ficou legal. Coloquei no toca-fitas, estava tudo OK, boa tarde ouvintes, estamos aqui em tal lugar e tal, come\u00e7o, primeira pergunta, segunda e, de repente, sil\u00eancio total. Por alguma raz\u00e3o, o bendito gravador parou de gravar. Nunca vou entender essa porra. Fiz todos os testes e estava funcionando direitinho. Mas n\u00e3o gravou a Adriane na quinta de Portugal. S\u00f3 o come\u00e7o.<\/em><\/p>\n<p><em>Com a doutora Fiandri foi parecido. O F\u00e1bio Seixas estava comigo e deve lembrar de mais detalhes. Ou o gravador n\u00e3o funcionou, ou eu apertei o bot\u00e3o errado, ou esqueci de levar um gravador. S\u00f3 sei que n\u00e3o gravei. Por sorte, anotei as respostas num bloquinho. E, tamb\u00e9m curiosamente, elas estavam muito bem gravadas na minha cabe\u00e7a, de forma clara e cristalina, quando sentei para escrever o texto.<\/em><\/p>\n<p><em>Enfim, essa entrevista foi publicada quando este blog ainda n\u00e3o existia e acho que n\u00e3o coloquei aqui antes. Ent\u00e3o coloco agora.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/grandepremio.com\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/prediofiandri.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-147598 size-full\" src=\"https:\/\/grandepremio.com\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/prediofiandri.jpg\" alt=\"prediofiandri\" width=\"312\" height=\"416\" \/><\/a>O pr\u00e9dio \u00e9 id\u00eantico aos milhares que perpassam a paisagem das cidades do norte da It\u00e1lia: baixo, quatro andares, pintado de bege, numa rua tranquila e arborizada da periferia de Bolonha. Via dei Lamponi, n\u00famero 1. Ali, no segundo andar, vive a pessoa que avisou ao mundo, h\u00e1 dez anos, que Ayrton Senna n\u00e3o mais vivia. Foi por suas m\u00e3os que ele passou ao chegar ao Hospital Maggiore, 32 minutos depois de bater no muro da curva Tamburello, em Imola, a 35 km dali. Foi de sua boca que saiu, ap\u00f3s uma agonia de quatro horas, a not\u00edcia que abalou as estruturas da F\u00f3rmula 1, chocou o mundo e deixou um pa\u00eds dobrado sobre sua pr\u00f3pria dor.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica Maria Teresa Fiandri parou de trabalhar no Maggiore em 2001, depois de 36 anos de servi\u00e7os. Naquele 1\u00ba de maio, era a chefe do setor de Anestesia e Reanima\u00e7\u00e3o. Como sempre, desde que o circuito passou a receber a F-1, em 1980, fazia parte das equipes de emerg\u00eancia que poderiam ser chamadas a qualquer momento para atendimento em casos de acidente.<\/p>\n<p>Naquele 1\u00ba de maio, n\u00e3o precisou esperar o bip convoc\u00e1-la. Quando Senna bateu, ela se levantou, vestiu o jaleco branco e j\u00e1 estava pronta para sair de casa rumo ao hospital quando o piloto mexeu a cabe\u00e7a pela \u00faltima vez.<\/p>\n<p>Fiandri estacionava seu carro no p\u00e1tio reservado aos m\u00e9dicos do Maggiore quando viu o helic\u00f3ptero cor-de-laranja se aproximar. Trazia Senna e uma equipe de reanima\u00e7\u00e3o que tentava mant\u00ea-lo vivo. No helic\u00f3ptero mesmo ele j\u00e1 havia recebido uma transfus\u00e3o de 4,5 litros de sangue.<\/p>\n<p>Ayrton tinha batido na abertura da s\u00e9tima volta do GP de San Marino, a segunda sem o safety-car na pista. Seu carro, na entrada da Tamburello, guinou para a direita. Ele freou e reduziu marchas, de acordo com a telemetria. O impacto frontal, \u00e0s 14h12 locais, aconteceu a 216 km\/h. A barra da suspens\u00e3o dianteira direita voltou-se contra o capacete, penetrou a viseira e atingiu sua cabe\u00e7a pouco acima do olho direito. Ele morreu na hora. \u201cDa pista, o doutor Gordini j\u00e1 tinha me avisado que havia pouco a fazer\u201d, conta Maria Teresa.<\/p>\n<p>Mas, como todo m\u00e9dico, Maria Teresa Fiandri fez o poss\u00edvel, mesmo sabendo que o quadro era irrevers\u00edvel. \u201cDo ponto de vista cerebral, j\u00e1 n\u00e3o havia mais atividade imediatamente ap\u00f3s a batida. Ele chegou ao hospital com o pulso fraqu\u00edssimo, quase sem press\u00e3o. Mas, depois, voltou ao normal. S\u00f3 que n\u00e3o havia mais atividade cerebral, era apenas uma quest\u00e3o de tempo para que ele fosse legalmente considerado morto.\u201d<\/p>\n<p>Maria Teresa Fiandri, cinco filhos, tr\u00eas netos, todos homens, lembra de tudo, em detalhes. Ela diz ter consci\u00eancia de que participou de um epis\u00f3dio hist\u00f3rico, mas n\u00e3o revela, no tom de voz suave e tranquilo, nenhum tipo de emo\u00e7\u00e3o especial, n\u00e3o diferente da que provavelmente teria se relatasse outros casos de pacientes que passaram por suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>E guarda, de Senna, uma imagem bem diferente daquela transmitida pelos que viram seu rosto, horas depois do acidente: \u201cEle chegou a mim p\u00e1lido, mas belo e sereno\u201d.<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 Doutora, em que condi\u00e7\u00f5es Ayrton chegou aos seus cuidados, logo depois de descer do helic\u00f3ptero?<\/strong><br \/>\n<strong>Fiandri<\/strong> \u2013 Ele j\u00e1 havia recebido os primeiros socorros na pista e no helic\u00f3ptero. Estava p\u00e1lido, mas belo, sereno\u2026 Um jovem bonito, com os cabelos revoltos, os olhos fechados. \u00c9 a imagem que guardo. Tinha um corte na testa, tr\u00eas ou quatro cent\u00edmetros. Mais nada. Era a \u00fanica ferida. Chegou ainda de macac\u00e3o. Mas quando o viramos, vi que tinha muito sangue. E eu me perguntava: \u201cmas de onde vem tanto sangue?\u201d Sa\u00eda de tr\u00e1s, da base do cr\u00e2nio. Lembro do macac\u00e3o, quando lavamos, para devolver \u00e0 fam\u00edlia, tinha tanto sangue\u2026 E eu disse \u00e0 Monica, uma assistente de enfermagem: \u201cN\u00e3o podemos entregar isso a eles assim\u201d. Mas era colocar na \u00e1gua e a \u00e1gua ficar vermelha.<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 Ficou gravada na mem\u00f3ria de todos aquele sangue na pista\u2026<\/strong><br \/>\n<strong> Fiandr<\/strong>i \u2013 Foi da traqueostomia. O sangue era dele.<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 Onde a senhora estava no momento do acidente?<\/strong><br \/>\n<strong> Fiandri<\/strong> \u2013 Em casa, assistindo \u00e0 corrida pela TV. Quando vi a batida, e a cabe\u00e7a dele caindo para o lado, j\u00e1 me vesti, antes mesmo de me chamarem. Nem esperei pelo bip. Sabia que seria necess\u00e1ria minha presen\u00e7a no hospital. Eu estava chegando com meu carro quando o helic\u00f3ptero estava descendo.<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 Pela TV, deu para ter id\u00e9ia da gravidade?<\/strong><br \/>\n<strong> Fiandri<\/strong> \u2013 Pelo movimento da cabe\u00e7a, eu conclu\u00ed na hora que era algo muito grave. Ali ele j\u00e1 entrava em coma, mas o coma \u00e9 um fen\u00f4meno muito estranho. Por isso foi s\u00f3 quando vimos o resultado da tomografia que tive certeza de que n\u00e3o havia nada a fazer, embora o doutor Gordini [Giovanni Gordini, que o atendeu na pista] j\u00e1 tivesse me avisado que n\u00e3o tinha volta. A\u00ed fizemos um eletroencefalograma. J\u00e1 n\u00e3o havia mais atividade el\u00e9trica. Quando ele chegou, o pulso estava fraqu\u00edssimo e quase sem press\u00e3o. Mas antes do eletro, tinha voltado tudo ao normal. Por isso, at\u00e9 ver a tomografia, quem sabe\u2026 Mas quando vimos, todos n\u00f3s\u2026 Bem, aqui n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer.<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 J\u00e1 no hospital, como a not\u00edcia foi dada \u00e0queles que estavam no 12\u00ba andar?<\/strong><br \/>\n<strong> Fiandri<\/strong> \u2013 Eu me lembro de seu irm\u00e3o, n\u00e3o sei se ele tinha no\u00e7\u00e3o da gravidade da situa\u00e7\u00e3o. Eu o levei para ver os resultados dos exames. Expliquei que j\u00e1 n\u00e3o havia mais atividade el\u00e9trica. Mas quem assumiu o controle de tudo foi uma mo\u00e7a, que parecia tomar as decis\u00f5es naquele momento [ela se refere a Betise Assump\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o assessora de imprensa de Senna, hoje casada com Patrick Head, um dos s\u00f3cios da Williams].<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 A senhora tinha a percep\u00e7\u00e3o de que participava, de certa forma, de um momento hist\u00f3rico?<\/strong><br \/>\n<strong> Fiandri<\/strong> \u2013 Tinha. Mas mesmo assim, nessas horas voc\u00ea deixa isso de lado e segue os protocolos precisos de atendimento. A, B, C, D, todos os procedimentos. Isso ajuda a vencer a emo\u00e7\u00e3o. Alguns anos antes, houve um acidente de trem em Bolonha, e as primeiras v\u00edtimas que chegaram ao hospital eram crian\u00e7as de 3, 4, 5 anos. A\u00ed a disciplina \u00e9 importante, sen\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o faz nada. Eu fui para um canto e chorei por 30 segundos. \u201cAgora chega\u201d, disse. \u201cAo trabalho\u201d. Com Senna, n\u00e3o chorei. Segurei a emo\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma forma de disciplina. Est\u00e1vamos todos emocionados, mas isso n\u00e3o condicionou nosso trabalho.<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 Houve alguma chance de sobreviv\u00eancia?<\/strong><br \/>\n<strong> Fiandri<\/strong> \u2013 N\u00e3o. Quando vimos o resultado do eletro\u2026 Bem, pela lei ele n\u00e3o estava morto, era preciso esperar o cora\u00e7\u00e3o parar de bater. Mas n\u00e3o, n\u00e3o havia nenhuma esperan\u00e7a. Foi imediata a profundidade do coma na batida.<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 A senhora se lembra se dormiu naquela noite?<\/strong><br \/>\n<strong> Fiandri<\/strong> \u2013 Em dias como aquele n\u00e3o se dorme sem umas 20 gotas de Valium\u2026 Era um jovem, um piloto, ele em particular, um pouco her\u00f3i, carism\u00e1tico\u2026 Eu recebi muitas cartas do Brasil, de gente me perguntando se ele tinha recuperado a consci\u00eancia\u2026 As pessoas tinham necessidade de saber algo.<\/p>\n<p><strong>Pergunta \u2013 A senhora \u00e9 religiosa?<\/strong><br \/>\n<strong> Fiandri<\/strong> \u2013 N\u00e3o praticante. Mas penso em Deus, e isso ajuda. Depois vim a saber que ele era assim. Sabe, me parece que ele sempre achou que iria morrer jovem. \u201cMorre jovem quem ao c\u00e9u \u00e9 caro\u201d, dizem os mais antigos. Talvez se envelhecesse, n\u00e3o teria havido essa como\u00e7\u00e3o. Ele deixou uma hist\u00f3ria que n\u00e3o deixaria se envelhecesse. \u00c9 s\u00f3 uma opini\u00e3o, mas eu acho que se ele pudesse escolher entre morrer jovem e envelhecer\u2026 Acho que pagaria esse pre\u00e7o.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO &#8211; O segundo texto da trilogia, escrito em 2004, quando dos dez anos da morte de Senna. A entrevista t\u00e3o esperada com Maria Teresa Fiandri, a m\u00e9dica que recebeu o piloto no hospital Maggiore, de Bolonha. &#8220;BELO E SERENO&#8221; Era uma d\u00edvida que tinha comigo mesmo. 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