{"id":46545,"date":"2015-08-11T21:03:39","date_gmt":"2015-08-12T00:03:39","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/o-cheiro-de-acetato\/"},"modified":"2026-06-16T23:35:49","modified_gmt":"2026-06-17T02:35:49","slug":"o-cheiro-de-acetato","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/flavio-gomes\/noticias\/o-cheiro-de-acetato\/","title":{"rendered":"O CHEIRO DE ACETATO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>S\u00c3O PAULO<\/strong> <em>(cafajestes)<\/em> &#8211; Por dois anos, todas as semanas, frequentei aquele local. Gostava muito do nome da rua: Cenno Sbrighi. Nunca soube quem foi Cenno Sbrighi, at\u00e9 procurar, agora h\u00e1 pouco, no <a href=\"http:\/\/www.dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br\/PaginasPublicas\/Introducao.aspx\" target=\"_blank\">&#8220;Dicion\u00e1rio de Ruas&#8221;<\/a>, p\u00e1gina mantida pela Prefeitura de S\u00e3o Paulo. Campe\u00e3o de ping-pong na adolesc\u00eancia, formou-se em medicina no Rio, foi atleta de remo do Fluminense, trabalhou no Miguel Couto e na Santa Casa e gostava de ca\u00e7ar perdizes e codornas. Nada de muito especial, mas deve ter feito algo importante, talvez tenha ca\u00e7ado a maior perdiz do mundo, ou quebrado algum recorde de codornas abatidas no mesmo dia. O fato \u00e9 que virou nome de rua, e \u00e9 nessa rua, num dos muitos subdistritos da Lapa, que ficava a Funda\u00e7\u00e3o Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura.<\/p>\n<p>[bannergoogle] Emissora dos Di\u00e1rios Associados inaugurada em 1960, a Cultura passou por um grande inc\u00eandio em 1965 e foi comprada dois anos depois pelo governo do Estado, transformando-se em TV educativa (a hist\u00f3ria da Cultura <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/TV_Cultura\" target=\"_blank\">est\u00e1 aqui<\/a>, para quem se interessar). Mas engana-se quem imagina que ela tenha sido usada apenas para telecursos ou para veicular programas chatos e laudat\u00f3rios dos v\u00e1rios governos estaduais que a sustentaram.<\/p>\n<p>Contrariando todas as expectativas, a Cultura passou por cima da previs\u00edvel tutela oficial para se transformar numa emissora de vanguarda com programa\u00e7\u00e3o de alt\u00edssima qualidade. Quem aqui n\u00e3o se divertiu com o &#8220;Castelo R\u00e1-Tim-Bum&#8221;, &#8220;Bambalal\u00e3o&#8221; ou &#8220;Vila S\u00e9samo&#8221;? Quem n\u00e3o se lembra do &#8220;Roda Viva&#8221; quando era o principal programa de entrevistas do pa\u00eds, conduzido por gente do naipe de Rodolfo Gamberini, Lilian Witte Fibe e Paulo Markun? Hoje \u00e9 uma piada, apresentada por um f\u00f3ssil do jornalismo cujo nome me reservo o direito de sequer mencionar. E o &#8220;Cart\u00e3o Verde&#8221;, com Trajano, Juca Kfouri e Armando Nogueira? O que dizer do &#8220;Vitrine&#8221;, do &#8220;Metr\u00f3polis&#8221;, da &#8220;Fabrica do Som&#8221;, do &#8220;Provoca\u00e7\u00f5es&#8221;, do &#8220;Viola, Minha Viola&#8221;? E das transmiss\u00f5es esportivas com Luiz Noriega, Orlando Duarte, Jos\u00e9 G\u00f3es?<\/p>\n<p>Por dois anos, frequentei aquele local. Quando fui contratado pela <a href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/site\/\" target=\"_blank\">SBPC<\/a> para fazer programas de ci\u00eancia para a R\u00e1dio Cultura AM, meu primeiro emprego remunerado, grav\u00e1vamos tudo nas instala\u00e7\u00f5es da USP e lev\u00e1vamos a fita de rolo \u00e0s sextas-feiras at\u00e9 o pr\u00e9dio da Cenno Sbrighi. Foi a primeira vez que entrei numa emissora de TV e r\u00e1dio, final de 1984.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se consigo descrever. Nas minhas mem\u00f3rias, tudo tinha cheiro de acetato, se \u00e9 que acetato tem cheiro. Discos, fitas, cartuchos. Sim, acho que discos eram feitos de acetato, ainda s\u00e3o. Tinha cheiro de espuma, tamb\u00e9m, a espuma que revestia as paredes dos est\u00fadios de r\u00e1dio, sempre \u00e0 meia-luz, indevass\u00e1veis, solenes. Nas mesas cheias de bot\u00f5es por tr\u00e1s de pequenas janelas \u00e0 prova de som, aqueles equipamentos met\u00e1licos que faziam pequenos ponteiros de VU se mexerem me davam a sensa\u00e7\u00e3o de que, atrav\u00e9s deles, eu seria capaz de falar ao mundo. O que quisesse. Pelos corredores se desvendavam discotecas, palcos, est\u00fadios enormes de TV, um piano de cauda e f\u00e1bricas de cen\u00e1rios coloridas e cheias de marceneiros serrando e pintando.<\/p>\n<p>Aquele era meu mundo, definitivamente &#8212; como seria, algum tempo depois, a reda\u00e7\u00e3o do jornal cheia de m\u00e1quinas de escrever e fuma\u00e7a de cigarro, os primeiros computadores com tela de f\u00f3sforo verde, teclas da Remington e teclados an\u00f4nimos me oferecendo a mesma, e poderosa, sensa\u00e7\u00e3o: de que, atrav\u00e9s deles, eu seria capaz de escrever ao mundo. O que quisesse.<\/p>\n<p>Mas lev\u00e1vamos o rolo de fita, eu dizia, e na verdade quem levava era o Jo\u00e3o Bosco, nosso editor-chefe, j\u00e1 falei dele aqui, perdi totalmente a pista de Jo\u00e3o Bosco Jardim de Almeida, primeiro grande professor do of\u00edcio e da vida que aquele of\u00edcio reservava para mim.<\/p>\n<p>(Sim, j\u00e1 dei um Google atr\u00e1s do Jo\u00e3o. \u00c9 incr\u00edvel. A refer\u00eancia mais recente \u00e9 de 2004, estava entre os respons\u00e1veis pela avalia\u00e7\u00e3o de um curso de psicologia no Amazonas. Uma cita\u00e7\u00e3o, nada mais. Nenhuma foto, nenhuma p\u00e1gina no Facebook, nada no LinkedIn, e quando isso acontece \u00e9 como se a pessoa n\u00e3o existisse, nunca tivesse existido &#8212; acho que todos pensamos assim hoje. Invejo pessoas que conseguem escapar das garras das ferramentas de busca, do Grande Deus Google. Gostaria de ser uma delas. Mesmo assim, basta ter tido seu nome escrito algum dia em algum papel, e alguma coisa se encontra. E o pouco que encontrei s\u00f3 faz minha admira\u00e7\u00e3o e respeito aumentarem. Jo\u00e3o Bosco Jardim de Almeida aparece em <a href=\"http:\/\/www.siaapm.cultura.mg.gov.br\/modules\/dops\/search.php?query=&amp;nome=almeida&amp;nme_tipo=1&amp;action=results2&amp;andor=AND&amp;start=1080\" target=\"_blank\">v\u00e1rios relat\u00f3rios da Pol\u00edcia Pol\u00edtica nos pap\u00e9is do Arquivo P\u00fablico de Minas Gerais<\/a>. Era l\u00edder estudantil, vigiado pela ditadura, integrante da ALN, cada passo registrado, relatado, arquivado. As reuni\u00f5es, os encontros, as assembleias, o que lia, o que escrevia, com quem se encontrava&#8230; Por isso, e ele nunca falou no assunto, deve ter fugido do Brasil em algum momento, sentindo-se sufocado pelo regime que muita gente, na micareta de domingo, vai pedir que volte. Trabalhou na BBC, onde estava quando foi recrutado para voltar e montar o programa de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da SBPC. Medo, ainda? Em 1984? Bem, o presidente ainda era um general quando a gente come\u00e7ou a fazer nossos programinhas de r\u00e1dio. Poucos meses depois Tancredo seria eleito pelo Col\u00e9gio Eleitoral. N\u00e3o militei em movimento algum na ditadura, era apenas um garoto, e portanto n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de julgar o que sentiam aqueles que voltavam, ressabiados, desconfiados, assustados. N\u00e3o sei se o Jo\u00e3o est\u00e1 vivo. A \u00faltima vez que o vi foi em 1989, em Londres. Tinha voltado para a Inglaterra, morava num apartamento pequenino e encantador. Ele tinha o qu\u00ea, uns 20 anos mais do que eu, talvez? Se for assim, teria hoje setenta e poucos, claro que est\u00e1 vivo. Quem sabe nas suas Minas Gerais, olhando em paz para as montanhas infinitas, a paz que lhe foi roubada na juventude.)<\/p>\n<p>Estacionava meu carrinho, um Gol prata LS, nas vagas internas, o nome e a placa, CA-4343, estavam na portaria, e felizmente o Jo\u00e3o sempre me esperava numa das dezenas de portas que levavam \u00e0s entranhas da Cultura, e l\u00e1 dentro, depois de percorrer v\u00e1rios labirintos, no est\u00fadio do AM 1200 kHz que colocava as coisas no ar, o rolo era entregue e ajeitado no Akai vertical, havia v\u00e1rios, e ent\u00e3o a vinheta que era a introdu\u00e7\u00e3o de alguma can\u00e7\u00e3o do Clube da Esquina, com flauta e viol\u00e3o, acho, anunciava que estava come\u00e7ando &#8220;<a href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/noticias\/divulgacao-cientifica\/divulgacao-cientifica-em-radio-memoria-recuperada\/?searchterm=Divulga%C3%A7%C3%A3o%20cient%C3%ADfica%20em%20r%C3%A1dio:%20mem%C3%B3ria%20recuperada\" target=\"_blank\">Encontro com a Ci\u00eancia<\/a>&#8220;, cujo acervo em algum momento da hist\u00f3ria foi digitalizado, mas desapareceu.<\/p>\n<p>E durante uma hora, no mais absoluto sil\u00eancio, como se qualquer ru\u00eddo dentro daquele est\u00fadio pudesse por m\u00e1gica &#8212; ou maldi\u00e7\u00e3o &#8212; interferir no rolo que girava no Akai, fic\u00e1vamos, eu e o Jo\u00e3o, escutando o resultado do trabalho daquela semana sem ter a menor ideia de quantas pessoas estariam nos ouvindo, ou se tinham gostado, algo que saber\u00edamos dias depois, quando algumas cartas chegavam \u00e0 casinha onde produz\u00edamos tudo, em Pinheiros.<\/p>\n<p>Conto tudo isso depois de ler que a Cultura, sem dinheiro e apoio do governo do Estado, <a href=\"http:\/\/cultura.estadao.com.br\/blogs\/radar-cultural\/ex-apresentadores-da-tv-cultura-divulgam-video-condenando-desmonte-da-emissora\/\" target=\"_blank\">est\u00e1 morrendo aos poucos<\/a>. Alguns ex-apresentadores do canal gravaram um v\u00eddeo que \u00e9 um grito de socorro, apelo que, receio, n\u00e3o ser\u00e1 ouvido. Voltei \u00e0 Cultura h\u00e1 dois anos, a convite de um amigo, para fazer uma participa\u00e7\u00e3o breve num telejornal da hora do almo\u00e7o. Quando terminou, pedi para dar uma voltinha pelos est\u00fadios da r\u00e1dio. S\u00e3o outros, n\u00e3o reconheci quase nada. Vi o piano de cauda, por\u00e9m. E notei a meia-luz, que persiste. Mas j\u00e1 n\u00e3o havia ningu\u00e9m, nem ao piano, nem atr\u00e1s dos bot\u00f5es, os microfones transmitindo apenas sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Fui embora triste, porque nem o cheiro de acetato tinha mais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"EU QUERO A TV CULTURA VIVA!\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/26rqJoCgkBs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO (cafajestes) &#8211; Por dois anos, todas as semanas, frequentei aquele local. Gostava muito do nome da rua: Cenno Sbrighi. 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