{"id":52914,"date":"2013-06-14T21:03:38","date_gmt":"2013-06-15T00:03:38","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/trabi-tour-1\/"},"modified":"2026-06-16T23:54:41","modified_gmt":"2026-06-17T02:54:41","slug":"trabi-tour-1","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/flavio-gomes\/turismo\/trabi-tour-1\/","title":{"rendered":"TRABI TOUR (1)"},"content":{"rendered":"\n\n<p><strong>ZWICKAU<\/strong> <em>(na madrugada fria e estrelada)<\/em> &#8211; H\u00e1 uma possibilidade remota, bem remota, de algu\u00e9m me parar na rua na Alemanha para pedir alguma informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o pare\u00e7o alem\u00e3o, apesar dos olhos azuis herdados de meu av\u00f4 filho de italianos nascido em Nova York e registrado em Piracicaba. Sou baixinho, n\u00e3o uso sand\u00e1lias com meia e n\u00e3o sei falar Hauptbanhof.<\/p>\n<p>Improv\u00e1vel, pois, que aquelas duas sa\u00eddas de um \u00f4nibus se dirigissem a mim na avenida deserta com ares de interroga\u00e7\u00e3o, mas foi bem o que aconteceu, o que me apavorou porque, como j\u00e1 dito, n\u00e3o falo alem\u00e3o e sequer gosto de ser chamado de alem\u00e3o, como alguns me chamam no Brasil \u2014 creio que j\u00e1 informei tamb\u00e9m que tampouco gosto de ser chamado de grande, bacana ou patr\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu era o \u00fanico na cal\u00e7ada, ent\u00e3o era comigo mesmo. L\u00e1 vem. Perguntaram alguma coisa tirando um papelzinho do bolso, certamente um endere\u00e7o que procuravam, e fui logo dizendo que n\u00e3o falava alem\u00e3o, frase que consigo pronunciar mais ou menos, come\u00e7ando com Ich nicht sprich, mesmo sabendo que n\u00e3o \u00e9 assim direito, o certo \u00e9 spreche, mas j\u00e1 no Ich qualquer alem\u00e3o percebe que n\u00e3o sou alem\u00e3o, porque misturo o som de X com R e \u00e9 uma merda.<\/p>\n<p>Mas elas n\u00e3o eram alem\u00e3s, o que n\u00e3o refrescou muito porque de qualquer forma eu n\u00e3o teria grandes informa\u00e7\u00f5es a fornecer, embora houvesse uma chance de ajud\u00e1-las porque eu dispunha de cinco, exatamente cinco informa\u00e7\u00f5es para dar, caso uma delas quisesse saber: 1) onde era o encontro de Trabants; 2) a dire\u00e7\u00e3o do Horch Museum; 3) para que lado ficava a esta\u00e7\u00e3o de trem; 4) o pre\u00e7o da salsicha com p\u00e3o e mostarda; e 5) o endere\u00e7o do meu hotel.<\/p>\n<p>Muito mais seria imposs\u00edvel, lamento, n\u00e3o sou da regi\u00e3o, ao contr\u00e1rio. N\u00e3o ofereci o card\u00e1pio informativo com cinco op\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, antevendo que com aquelas informa\u00e7\u00f5es eu tinha pequenas chances de ser \u00fatil, e fui logo perguntando o que elas queriam saber para responder que n\u00e3o sabia, mas elas n\u00e3o queriam saber nada. Abriram um sorriso e perguntaram se eu acreditava em Deus.<\/p>\n<p>Ser escolhido no meio da rua numa cidade perdida da Alemanha Oriental por duas jovens americanas, elas eram americanas, com broches no estilo Quer Emagrecer Me Pergunte Como, no in\u00edcio eu pensei que era disso que se tratava, n\u00e3o chega a ser algo muito comum para a maioria das pessoas, mas essas coisas acontecem comigo e as aceito com alguma resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 pergunta, para n\u00e3o ser indelicado, respondi que tinha minhas d\u00favidas e recebi em troca um olhar de desaprova\u00e7\u00e3o e um cart\u00e3o com uma fotografia de um casal com cara de bobos e duas criancinhas tamb\u00e9m com caras de bobos, esse era o papelzinho l\u00e1 do come\u00e7o desta hist\u00f3ria incr\u00edvel, onde se lia Familien sind ewig!, e no verso um endere\u00e7o, um telefone e, para mais detalhes, <a href=\"http:\/\/www.mormon.org\/deu\">www.mormon.org\/deu<\/a>.<\/p>\n<p>Joguei o cart\u00e3o dentro da sacola que continha um tesouro de miniaturas, o oval met\u00e1lico da DDR e um par de ma\u00e7anetas IFA, al\u00e9m do croch\u00ea original\u00edssimo para cobrir o rolo de papel higi\u00eanico, agradeci, abri meu melhor sorriso e, considerando que minha resposta pouco animadora encerrara nosso encontro fugaz, fiz men\u00e7\u00e3o de me mandar imediatamente, mas as duas mission\u00e1rias, jovenzinhas e determinadas, como conv\u00e9m a duas oper\u00e1rias da f\u00e9, se colocaram na minha frente em forma\u00e7\u00e3o militar, impedindo a passagem e um poss\u00edvel desvio, e suspeito que se eu tentasse recuar e sair correndo, levaria uma chinela.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o quer ir \u00e0 nossa igreja e encontrar Jesus, me perguntou a mais decidida, que parecia estar no comando daquela miss\u00e3o, e eu quis dizer a ela que, naquele momento, meus planos imediatos eram outros. O primeiro, dar uma mijadinha, pois tinha tomado duas cervejas desde a \u00faltima. O segundo, comprar cuecas e camisetas porque perderam minha mala e n\u00e3o tenho a menor ideia de quando e se ela vai aparecer um dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o iria meter sumidade celestial nenhuma nessa hist\u00f3ria, no entanto, mas tamb\u00e9m percebi que um simples n\u00e3o, n\u00e3o quero, seco e direto, sincero e definitivo, tamb\u00e9m n\u00e3o iria resolver a parada, ent\u00e3o abri meu segundo melhor sorriso, peguei o cart\u00e3o de volta, olhei para a foto do casal e das crian\u00e7as com suas caras de bobos e falei puxa, claro, vou ficar com seu cart\u00e3o, ent\u00e3o, dando a entender que sim, iria \u00e0 igreja delas encontrar Jesus e quem mais elas quisessem, n\u00e3o fosse assim teria rasgado o cart\u00e3o na cara de voc\u00eas duas e dado uma gargalhada sat\u00e2nica, mas n\u00e3o hoje, lindas, numa outra oportunidade, vai ser \u00f3timo conhecer o trabalho de voc\u00eas, mission\u00e1rias m\u00f3rmons que n\u00e3o falam alem\u00e3o e est\u00e3o evangelizando alem\u00e3es nas profundezas da Sax\u00f4nia.<\/p>\n<p>Deram-se por satisfeitas, aparentemente, e aquela que ocupava a linha de frente pronta para me dar uma chinela deu um passo para o lado e fui adiante. Ainda ouvi alguma coisa como que bom poder falar ingl\u00eas com voc\u00ea, obrigado, mas apenas acenei de costas, porque se me virasse para dar o terceiro melhor sorriso de meu estoque de fim de tarde poderia ser alvejado por um crucifixo m\u00f3rmon e elas me jogariam numa banheira cheio de gelo onde eu acordaria sem meus rins.<\/p>\n<p>Estou aqui com um prop\u00f3sito bem definido, um encontro de Trabants na cidade onde eles nasceram e foram fabricados at\u00e9 a reunifica\u00e7\u00e3o das Alemanhas, em 1991. Passei a tarde no imenso estacionamento na Platz der V\u00f6lkerfreundschaft, e como em todo encontro de carros antigos, o primeiro dia \u00e9 de aquecimento, com a chegada dos participantes, o segundo, amanh\u00e3, \u00e9 o bom e o \u00faltimo \u00e9 de despedidas e saudade que fica.<\/p>\n<p>Quando fui embora, j\u00e1 havia uns 100 carrinhos espalhados pelo local, e por uns 80 deles eu mataria as mission\u00e1rias m\u00f3rmons, o que faria com que, num eventual encontro com Jesus na igreja delas, algum tipo de reprimenda fizesse parte da recep\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p>A imensa maioria vem da Alemanha mesmo, mas percebi algumas comitivas da Holanda, da Pol\u00f4nia, da Fran\u00e7a, da Checoslov\u00e1quia e da Rom\u00eania. S\u00e3o lindos e lindas, todos. O feminino fica por conta das peruinhas, kombi no gen\u00e9rico, ou Universal no oficial, dependendo do gosto. Tem as atrocidades de praxe, tamb\u00e9m, como os tunados e convers\u00edveis (n\u00e3o os militares, que esses eram sem capota de f\u00e1brica) com rodas cromadas e pinturas cintilantes. Por esses eu n\u00e3o mataria as m\u00f3rmons e poderia encontrar Jesus sem grandes pecados para confessar.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m fala ingl\u00eas, ou quase ningu\u00e9m, porque boa parte dos donos de Trabis s\u00e3o alem\u00e3es orientais que n\u00e3o se preocupavam muito em aprender a l\u00edngua de um pa\u00eds que lhes era hostil. Mesmo assim a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, afinal algo nos une. Sou meio t\u00edmido, n\u00e3o pergunto muita coisa, mas quando abro a boca, na primeira s\u00edlaba os caras percebem que sou de algum lugar desconhecido, e quando digo que moro no Brasil e tenho um daqueles, igualzinho, d\u00e3o muitas risadas e fazem cara de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, e depois olham para mim como se eu fosse biruta e d\u00e3o mais risadas ainda e abrem uma cerveja quente e me oferecem e eu bebo quente mesmo. N\u00e3o quente, quente. Fresca, da sombra do porta-malas.<\/p>\n<p>Ao fim e ao cabo, foi um bom primeiro dia de viagem para espairecer um pouco, encerrado com um Putenbruststeak mit frischem Spargel holl\u00e4ndischer SoBe und Krokette, onde esse B mai\u00fasculo a\u00ed \u00e9 uma letra que n\u00e3o sei fazer aqui no computador e que quer dizer SS, e era mesmo um puta steak, que foi o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o no nome, num card\u00e1pio especial de um festival de aspargos que s\u00e3o bem populares por aqui, pelo visto, assim como os croquetes. Come\u00e7ou meio errado, o dia, com o ICE de Berlim a Leipzig atrasando meia hora, o que me fez perder a conex\u00e3o para c\u00e1 e acabou me jogando num outro trem para Chemnitz onde na minha frente estava sentado um rapaz meio andr\u00f3gino carregando duas cabe\u00e7as de manequins no colo, e ele passou a viagem toda penteando os cabelos loiros delas, atitude que reputo m\u00f3rbida e desnecess\u00e1ria, ele poderia levar as cabe\u00e7as numa sacola e deixar para pente\u00e1-las em casa.<\/p>\n<p>Na Europa, de todo modo, essas coisas n\u00e3o incomodam ningu\u00e9m, se ele quer carregar suas cabe\u00e7as no colo, que carregue e ningu\u00e9m tem nada com isso. Desceram, o rapaz e as cabe\u00e7as, uma esta\u00e7\u00e3o antes de Chemnitz, onde meu trem tamb\u00e9m chegou oito minutos atrasado e s\u00f3 n\u00e3o perdi o outro porque o maquinista deve ter ido ao banheiro e este saiu tamb\u00e9m um tiquinho depois do hor\u00e1rio.<\/p>\n<p>No fim deu tudo certo, falta apenas a mala.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ZWICKAU (na madrugada fria e estrelada) &#8211; H\u00e1 uma possibilidade remota, bem remota, de algu\u00e9m me parar na rua na Alemanha para pedir alguma informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o pare\u00e7o alem\u00e3o, apesar dos olhos azuis herdados de meu av\u00f4 filho de italianos nascido em Nova York e registrado em Piracicaba. 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