{"id":57738,"date":"2012-03-26T10:53:11","date_gmt":"2012-03-26T13:53:11","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/essa-gente-cordial\/"},"modified":"2026-06-17T00:07:38","modified_gmt":"2026-06-17T03:07:38","slug":"essa-gente-cordial","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/flavio-gomes\/noticias\/essa-gente-cordial\/","title":{"rendered":"ESSA GENTE CORDIAL"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Oiq9-2-5wNY\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>S\u00c3O PAULO<\/strong> <em>(deprime)<\/em> &#8211; Me mandaram este v\u00eddeo pelo Twitter v\u00e1rias vezes hoje. O epis\u00f3dio aconteceu em Bras\u00edlia. \u00c9 gozado como uma cena dessas nos faz ter tantas rea\u00e7\u00f5es diferentes em pouco tempo e &#8220;torcer&#8221; para um ou outro v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, quando o motoqueiro chuta o carro da mo\u00e7a (que a gente s\u00f3 vai saber que \u00e9 uma mo\u00e7a depois, e o carro e o &#8220;estilo&#8221; da mo\u00e7a, de certa forma, moldam nosso julgamento), penso: que filho da puta. Que escroto filho da puta.<\/p>\n<p>Faz sentido pensar assim mesmo sem ver a cara do sujeito, nem julg\u00e1-lo pela moto que habita. Quem passa algumas horas por dia no tr\u00e2nsito de qualquer cidade sabe que os seres do asfalto se dividem em castas que se odeiam mutuamente: \u00f4nibus, t\u00e1xis, motos grandes, motos pequenas, scooters, motoboys, carr\u00f5es, carrinhos, bicicletas.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o se exclua, rapaz. Voc\u00ea, como eu, generaliza e odeia. Somos um povo muito cordial, o brasileiro. Que exercita esse \u00f3dio di\u00e1rio com um certo prazer. Olhe para o espelho, n\u00e3o minta para voc\u00ea mesmo, e aceite que pertence a uma ou mais castas, e que odeia outras tantas. \u00c9 disso que somos feitos hoje em dia: \u00f3dio e raiva, hostilidade, agressividade.<\/p>\n<p>(Com a gentil colabora\u00e7\u00e3o, desde ontem oficial e regularmente, da Rede Globo de Televis\u00e3o, que levar\u00e1 aos nossos lares por tr\u00eas meses uma educativa programa\u00e7\u00e3o que louva os gladiadores do terceiro mil\u00eanio e os transforma em her\u00f3is da modernidade gra\u00e7as \u00e0s suas habilidades executadas em HD que consistem em dar socos, chutes e joelhadas na cara dos outros her\u00f3is. Cotoveladas tamb\u00e9m s\u00e3o bem-vindas, desde que rachem a cabe\u00e7a do oponente de forma a jorrar sangue sobre o logotipo da Gillette, que antigamente s\u00f3 tirava sangue do rosto de algu\u00e9m quando a gente n\u00e3o sabia fazer a barba direito. E sobre o logotipo do Burger King, que poderia servir seus hamb\u00fargueres sangrando por mal-passados &#8220;under request&#8221;, mas agora podem ser vistos salpicados de vermelho que n\u00e3o \u00e9 catchup. E dos outros patrocinadores que n\u00e3o registrei. Gra\u00e7as \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o dos eventos de luta, milh\u00f5es de pessoas acompanhar\u00e3o, nos pr\u00f3ximos tr\u00eas meses na TV aberta de maior audi\u00eancia do Brasil, as agonias, reflex\u00f5es e profundezas do pensamento de Rony Jason, Godofredo Pepey, Hugo Wolverine, Rodrigo Damm, Wagner Galeto, Anist\u00e1vio Gasparzinho, John Teixeira, Marcus Vina, Francisco Massaranduba, Cezar Mutante, Daniel Sarafian, Sergio Moraes, Tiago Bod\u00e3o, Delson P\u00e9 de Chumbo, Ren\u00e9e Forte e Leonardo Macarr\u00e3o. Refor\u00e7o as alcunhas mais ilustrativas do que nos espera: Jason, Wolverine, Galeto, Gasparzinho, Massaranduba, Mutante, Bod\u00e3o, P\u00e9 de Chumbo e Macarr\u00e3o. At\u00e9 nisso o telecatch era bem mais, digamos, criativo. Eles se fantasiavam, ao menos. Pelo que li por a\u00ed, a doce Sandy, cuja virgindade foi publicamente preservada por anos a fio, ser\u00e1 a mestra de cerim\u00f4nias da nova atra\u00e7\u00e3o global que nos mostrar\u00e1 o glamour das artes marciais misturadas com espancamentos semanais e discuss\u00f5es acaloradas sobre a t\u00e9cnica apurada de um joelha\u00e7o no queixo, sobre os mantras dos participantes que, e isso os absolve, treinam muito, s\u00e3o dedicados, creem em Deus e rezam todas as noites, se alimentam bem e seguem regras bem definidas como, por exemplo, n\u00e3o enfiar o dedo nos olhos do advers\u00e1rio nem no seu rabo, que isso \u00e9 feio. Esse card\u00e1pio que a TV aberta nos oferece \u00e9 dos mais democr\u00e1ticos e devemos ser gratos a ela, porque todos os dias, horas antes das sess\u00f5es de porrada na cara, o telejornal do mesmo canal nos mostrar\u00e1 tamb\u00e9m como \u00e9 violento o mundo e o Brasil, e como devemos nos preocupar com isso. A cada not\u00edcia envolvendo um crime de agress\u00e3o entre vizinhos, uma briga numa favela que acaba com um tiro na fu\u00e7a de algu\u00e9m, um confronto de torcedores organizados armados de paus e pedras, que s\u00f3 s\u00e3o diferentes dos nossos gladiadores do terceiro mil\u00eanio porque n\u00e3o tiveram a sorte de receber a gra\u00e7a do revestimento das c\u00e2meras, da edi\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e sonorizada, das cotas de patroc\u00ednio, da patente registrada pela Endemol e da apresenta\u00e7\u00e3o da Sandy e do Galv\u00e3o Bueno, a cada not\u00edcia dessas o apresentador engomadinho e a apresentadora de cabelo bem arrumado e unhas bem-feitas trocar\u00e3o olhares compungidos que nos dizem mais do que qualquer palavra. Esses olhares nos dizem algo como &#8220;gente, onde \u00e9 que vamos parar, por que voc\u00eas, a\u00ed, n\u00e3o s\u00e3o como a gente, engomadinhos e manicurados?&#8221;, e os mesmos olhares ser\u00e3o trocados quando nos oferecerem uma not\u00edcia sobre a S\u00edria, &#8220;gente, por que \u00e9 que os s\u00edrios s\u00e3o t\u00e3o violentos e intolerantes, ser\u00e1 que eles n\u00e3o t\u00eam uma Ivete Sangalo para levantar a poeira?&#8221;, ou sobre as manifesta\u00e7\u00f5es dos gregos desesperados com a fal\u00eancia de seu pa\u00eds, &#8220;gente, por que \u00e9 que os gregos s\u00e3o t\u00e3o estressados, por que n\u00e3o se juntam a n\u00f3s, por que n\u00e3o escrevem para o programa do Luciano Huck para ver se ele pode fazer alguma coisa?&#8221;.)<\/p>\n<p>Sigamos com nosso motoqueiro filho da puta. Ele tinha acabado de chutar o autom\u00f3vel. Muitos de n\u00f3s j\u00e1 passamos por situa\u00e7\u00f5es semelhantes, motoqueiros que nos xingam, gesticulam, arrancam espelhos retrovisores. Normalmente eles vestem jaquetas da Calif\u00f3rnia Racing, usam roupas escuras, figurino Mad Max, e se julgam propriet\u00e1rios de faixas estreitas entre os carros que ningu\u00e9m deve ocupar se n\u00e3o vestir a mesma jaqueta e se n\u00e3o sair de sua frente quando passarem buzinando. Mas o caso do nosso motoqueiro do v\u00eddeo parece ser outro, a motocicleta \u00e9 grande e potente e ele n\u00e3o gostaria de ser chamado de motoqueiro, provavelmente odeia os motoqueiros e se denomina motociclista. N\u00e3o se sabe exatamente o que o levou a dar um bico no carro da mo\u00e7a, mas ele deu, e a mo\u00e7a ficou puta dentro das cal\u00e7as, acelerou o carro e derrubou o indigitado, numa rea\u00e7\u00e3o que para muitos \u00e9 exagerada, para outros \u00e9 justa e digna.<\/p>\n<p>Nesse momento, estou torcendo para a mo\u00e7a. O cara n\u00e3o tinha nada que chutar seu carro, que hist\u00f3ria \u00e9 essa? Mas a mo\u00e7a n\u00e3o se contenta e ergue o sujeito por sobre o cap\u00f4, como se nele desferisse um direto de direita, mas como \u00e9 mo\u00e7a e fr\u00e1gil, e o cara \u00e9 grande, o recurso que encontrou, diante do coturno do cidad\u00e3o, foi dar-lhe um bico com o carro, mesmo, que \u00e9 o que se lhe oferecia naquele momento \u00e0 guisa de arma.<\/p>\n<p>Sigo torcendo para a mo\u00e7a, mas sendo sincero comigo mesmo reconhe\u00e7o que se o carro fosse outro, uma SUV blindada, por exemplo, talvez eu passasse a achar que ela \u00e9 uma filha da puta maior que o motoqueiro, uma madame mimada que ganhou o carro do marid\u00e3o e se acha dona da rua, do tr\u00e2nsito e do mundo. Mas era um Fiat desses que nem s\u00e3o t\u00e3o caros, e o motoqueiro aparentemente n\u00e3o se machucou, a treta teve sequ\u00eancia, e quando a mo\u00e7a saiu do carro, depois de resistir a um ataque pela janela do sujeito que por alguma raz\u00e3o tentou arrancar a chave do contato, talvez tenha conseguido, notei nela uma certa fragilidade e simplicidade pelo porte f\u00edsico e pelas roupas simples, camiseta branca, bermuda jeans, nada de mais, nada de menos. Embora tenha ficado chocado com o atropelamento volunt\u00e1rio e decidido, que pegou o motoqueiro quase indefeso, j\u00e1 sem sua moto, apenas portando sua armadura negra, voltei a torcer ligeiramente para a mo\u00e7a, que me pareceu ter tido uma rea\u00e7\u00e3o t\u00edpica de quem ficou assustado mas, ao mesmo tempo, quis mostrar a si mesmo que n\u00e3o, ningu\u00e9m vai me assustar s\u00f3 porque sou mulher e fr\u00e1gil, esse motoqueiro que v\u00e1 \u00e0 puta que o pariu, e a puta que o pariu, no caso, ser\u00e1 o cap\u00f4 do meu carro e o tanto que ele for capaz de jogar longe este filho da puta que s\u00f3 porque \u00e9 homem, grande, forte e barbudo, acha que pode me intimidar e me agredir. Ele que v\u00e1 intimidar a puta que o pariu.<\/p>\n<p>Os \u00e2nimos parecem se acalmar um pouco e, j\u00e1 fora do carro, a mo\u00e7a saca de sua segunda arma, um celular, com o qual deve ter ligado para o marido, ou o noivo, ou o namorado, ou o pai. Imposs\u00edvel saber. O motoqueiro, ainda de capacete, saca de arma semelhante, um celular, tamb\u00e9m \u00e9 imposs\u00edvel saber para quem est\u00e1 telefonando, talvez para algum colega policial, ou para a esposa, namorada, ou para um amigo com quem tinha combinado dar um rol\u00ea e tomar umas cervejas, volta \u00e0 sua moto e \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar seu rosto, e nessa hora escolho de vez meu lado, \u00e9 o da mo\u00e7a, porque o cara tem cara de mau, barba, \u00f3culos escuros, roupas de couro opressivas e realmente intimidat\u00f3rias, eu ficaria igualmente assustado, n\u00e3o sei se o mandaria \u00e0 puta que o pariu apenas verbalmente, ou com o cap\u00f4 do meu carro, que foi a op\u00e7\u00e3o escolhida pela menina. Sei que jamais seria amigo de algu\u00e9m com esse figurino e essa cara, e por a\u00ed noto como s\u00e3o fr\u00e1geis meus crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o e julgamento, pois ele pode ter cara de mau e usar roupas de couro, mas isso n\u00e3o faz dele necessariamente um filho da puta escroto, pode ser um bom pai de fam\u00edlia, um filantropo, um volunt\u00e1rio de causas nobres, poderia estar estressado por um motivo ou outro, pode ter sido v\u00edtima de uma enorme cafajestada da menina no tr\u00e2nsito alguns minutos antes, jamais saberei.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o sei tamb\u00e9m o desfecho dessa hist\u00f3ria e nem me interessa muito, porque j\u00e1 escolhi o meu lado, o da mo\u00e7a, por mais rasas que possam ser minhas raz\u00f5es. Compreendo que o que ela fez tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito prudente, ela poderia ter partido o barbudo com cara de mau em dois peda\u00e7os, quebrado sua perna, ele poderia ser card\u00edaco, tomar um susto e morrer, do mesmo jeito que n\u00e3o se deve chutar o carro de ningu\u00e9m no tr\u00e2nsito, tamb\u00e9m n\u00e3o conv\u00e9m derrubar o outro com o carro e passar por cima dele, OK, vamos \u00e0 surrada frase &#8220;est\u00e3o todos errados, e quando todos est\u00e3o errados, ningu\u00e9m tem raz\u00e3o&#8221;. OK, essa frase serve bem para o epis\u00f3dio do v\u00eddeo, que ao fim e ao cabo n\u00e3o serve para muita coisa, n\u00e3o d\u00e1 nem para afirmar que um \u00e9 filho da puta e a outra n\u00e3o, serve apenas para mostrar como somos, os brasileiros, n\u00f3s que tamb\u00e9m somos conhecidos como um povo cordial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO (deprime) &#8211; Me mandaram este v\u00eddeo pelo Twitter v\u00e1rias vezes hoje. O epis\u00f3dio aconteceu em Bras\u00edlia. \u00c9 gozado como uma cena dessas nos faz ter tantas rea\u00e7\u00f5es diferentes em pouco tempo e &#8220;torcer&#8221; para um ou outro v\u00e1rias vezes. 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