{"id":60300,"date":"2011-08-08T02:06:28","date_gmt":"2011-08-08T05:06:28","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/quarenta-2\/"},"modified":"2026-06-17T00:13:59","modified_gmt":"2026-06-17T03:13:59","slug":"quarenta-2","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/flavio-gomes\/futebol\/quarenta-2\/","title":{"rendered":"QUARENTA"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><a href=\"https:\/\/grandepremio.com\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/paca1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-146032\" alt=\"paca\" src=\"https:\/\/grandepremio.com\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/paca1.jpg\" width=\"640\" height=\"400\" \/><\/a>S\u00c3O PAULO<\/strong><em>\u00a0(\u00e9&#8230;)\u00a0<\/em>&#8211; Aquele domingo, 8 de agosto de 1971, n\u00e3o seria particularmente quente, nem frio. O jornal do dia avisava que o dia come\u00e7aria nublado, mas ficaria claro no decorrer do per\u00edodo, embora sujeito a chuvas ocasionais. A temperatura estaria agrad\u00e1vel, sem grandes decl\u00ednios.<\/p>\n<p>Era o segundo domingo do m\u00eas, portanto Dia dos Pais. Mor\u00e1vamos no Jardim Prud\u00eancia, ent\u00e3o uma regi\u00e3o remota da cidade, nas bordas da Zona Sul, entre o aeroporto de Congonhas e o aut\u00f3dromo de Interlagos. Meu pai tinha acabado de comprar uma casa na rua Bol\u00edvia (j\u00e1 mudou de nome, nem procurem no Google) num conjunto erguido pela Formaespa\u00e7o, uma construtora modernosa que adotou o concreto aparente como marca registrada e fez tamb\u00e9m alguns<a href=\"http:\/\/www.docomomo.org.br\/seminario%205%20pdfs\/105R.pdf\" target=\"_blank\">\u00a0pr\u00e9dios interessant\u00edssimos em S\u00e3o Paulo<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 bem prov\u00e1vel que tenhamos almo\u00e7ado na casa de meus av\u00f3s, na Vila Mariana, onde normalmente se reuniam aos domingos tios, tias, sobrinhos, genros e noras. Os almo\u00e7os n\u00e3o come\u00e7avam tarde, e l\u00e1 pelas duas horas estava todo mundo de pan\u00e7a cheia, as mulheres reunidas na cozinha passando um caf\u00e9, as crian\u00e7as brincando no quintal, o v\u00f4 cuidando dos passarinhos, o tio Renato dormindo no sof\u00e1, e meu pai deve ter tido a ideia de ir ao Pacaembu.<\/p>\n<p>Era a primeira rodada do primeiro Campeonato Nacional, que come\u00e7ara no dia anterior com uma goleada do Gr\u00eamio sobre o S\u00e3o Paulo no Morumbi, 3 a 0. Eu tinha 7 anos de idade e, que me lembre, gostava de futebol desde o ano anterior, quando a sele\u00e7\u00e3o desfilou pela 23 de Maio com a Jules Rimet sobre um caminh\u00e3o de bombeiros, e meu pai nos levou para o viaduto para saudar os tricampe\u00f5es, e eu estava com uma camisa canarinho com o escudo da CBD preso ao peito por colchetes, que tinha usado durante a Copa.<\/p>\n<p>Fomos ao Pacaembu. Jogariam Portuguesa e Palmeiras. Meu pai torce para a Portuguesa desde sempre. Filho de portugueses, foi um h\u00e1bil e veloz ponta-direita que chegou ao time de aspirantes conhecido como Julinho, pois tinha um estilo parecido com o de Julinho Botelho, o melhor ponta que o Brasil j\u00e1 teve depois de Garrincha. Aquele que entrou vaiado no Maracan\u00e3 e saiu aplaudido pela torcida carioca num jogo sei l\u00e1 quando. Na verdade, Julinho era melhor que Garrincha.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que tenhamos ido de Variant bord\u00f4, mas \u00e9 poss\u00edvel, tamb\u00e9m, que \u00e0quela altura meu pai j\u00e1 tivesse vendido o carro para ajudar a pagar a casa. Como minha m\u00e3e tinha tirado carteira de motorista, ele teve de comprar um Fusca branco, tamb\u00e9m, e a Variant foi trocada por um Aero Willys cinza mais barato. Disso n\u00e3o vou lembrar, o carro que nos levou ao Pacaembu. Sei que fomos eu, meu pai, meu irm\u00e3o mais velho, que tinha 9 anos, e meu av\u00f4 que n\u00e3o ligava para futebol, gostava mesmo era de pintassilgos e papa-capins e de jogar nos cavalos, j\u00e1 que trabalhava no J\u00f3quei, e de jogar baralho e de fumar Continental sem filtro.<\/p>\n<p>Deve ter sido algo meio de \u00faltima hora, aquele evento ludop\u00e9dico. Talvez se n\u00e3o fosse Dia dos Pais, o programa fosse outro. Passar a tarde na casa da v\u00f3 esperando o dia acabar, assistir \u00e0 estreia do dominical de Fl\u00e1vio Cavalcanti na Tupi, quem sabe ir ao autocine Snob&#8217;s na avenida Santo Amaro. Meu pai poderia, igualmente, levar minha m\u00e3e ao Astor para ver &#8220;Love Story&#8221;. Estava em cartaz, tamb\u00e9m, &#8220;Hair&#8221; no Teatro Aquarius, mas isso n\u00e3o era muito o estilo dos meus pais. J\u00f4 e Zeloni estavam levando &#8220;Tudo no Escuro&#8221; no Cacilda Becker, na Brigadeiro, e seria uma boa op\u00e7\u00e3o para algumas gargalhadas num fim de domingo. Mas n\u00e3o era o caso. Largar os tr\u00eas moleques na casa da v\u00f3 seria sacanagem com ela.<\/p>\n<p>Assim, fomos ao Pacaembu. Era um bom jogo, a Portuguesa de Orlando, um goleiro neg\u00e3o, Arenghi, D\u00e1rcio, Calegari e Fogueira; Dirceu e Lorico; Ratinho, depois Xax\u00e1, Cabinho, depois Tat\u00e1, Bas\u00edlio e Piau. O Palmeiras de Le\u00e3o; Eurico, Lu\u00eds Pereira, N\u00e9lson e D\u00e9; Dudu e Ademir da Guia; Edu, depois Paulo Borges, Leivinha, depois Hector Silva, C\u00e9sar e Pio.<\/p>\n<p>\u00c9ramos quatro dos 25.967 pagantes que foram ao Pacaembu naquela tarde de domingo de tempo bom e temperatura agrad\u00e1vel, e ficamos no Tobog\u00e3, uma aberra\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica erguida atr\u00e1s do gol no lugar da Concha Ac\u00fastica por determina\u00e7\u00e3o do prefeito Paulo Maluf. O Palmeiras ganhou de 1 a 0, gol de C\u00e9sar Maluco aos 38 minutos do primeiro tempo. O juiz, Dulc\u00eddio Wanderley Boschillia, deve ter roubado, certamente roubou.<\/p>\n<p>Sa\u00ed do est\u00e1dio apaixonado pela Portuguesa, encantado com aqueles torcedores colocados \u00e0 direita dos meus olhinhos azuis no meio da arquibancada, com suas bandeiras vermelhas e verdes, cercados por palmeirenses por todos os lados, e posso afirmar que n\u00e3o houve influ\u00eancia nenhuma do meu pai, tanto que meu irm\u00e3o decidiu naquele dia torcer pelo Palmeiras. De modo que assumi a Portuguesa como meu time para todo o sempre, e ponto final.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que teria sido de mim se em vez do jogo tiv\u00e9ssemos ido\u00a0ao sal\u00e3o da Par\u00f3quia Sant\u00edssimo, na Tutoia, a poucos metros da sede do DOI-Codi, para ver, no mesmo hor\u00e1rio, Nydia L\u00edcia e sua &#8220;Viagem ao Pa\u00eds das F\u00e1bulas&#8221;, mas, sendo sincero, ir ao teatro n\u00e3o fazia parte da nossa rotina. Uma pizza no Paulino, de noite, combinava mais com as parcas finan\u00e7as da fam\u00edlia classe m\u00e9dia, pai, m\u00e3e, tr\u00eas filhos pequenos, dois deles estudando na Escola Municipal Dona Chiquinha Rodrigues, ali no Campo Belo, perto do aeroporto e do hipermercado Jumbo, o mais novo ainda no pr\u00e9-prim\u00e1rio. Eram tempos duros, de escassas extravag\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Talvez se em vez do Pacaembu o destino fosse o sal\u00e3o da Par\u00f3quia Sant\u00edssimo, eu me apaixonasse por teatro e pelas f\u00e1bulas, ou talvez, ao anoitecer, na sa\u00edda da pe\u00e7a, tiv\u00e9ssemos cruzado com uma viatura da Oban deixando a delegacia ali do lado da igreja, e o delegado Fleury implicasse com o Fusca ou com o Aero Willys ou com a Variant, naqueles anos ningu\u00e9m sabia direito o que podia acontecer, e \u00a0s\u00e3o esses pequenos fatos que determinam o que vai ser da sua vida.<\/p>\n<p>No meu caso, exatamente 40 anos atr\u00e1s, eu passei a gostar de futebol e da Portuguesa, e o futebol e a Portuguesa me levaram a querer ser jornalista e trabalhar com esporte, e a\u00ed virei o que sou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO\u00a0(\u00e9&#8230;)\u00a0&#8211; Aquele domingo, 8 de agosto de 1971, n\u00e3o seria particularmente quente, nem frio. 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