{"id":62268,"date":"2011-03-05T22:58:56","date_gmt":"2011-03-06T01:58:56","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/os-trios\/"},"modified":"2026-06-17T00:19:07","modified_gmt":"2026-06-17T03:19:07","slug":"os-trios","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/flavio-gomes\/noticias\/os-trios\/","title":{"rendered":"OS TRIOS"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/trio-traz-os-montes-1982.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-133058\" title=\"trio-traz-os-montes-1982\" src=\"\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/trio-traz-os-montes-1982.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"492\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>S\u00c3O PAULO<\/strong><em> (\u00e9 o samba, \u00e9 o povo, \u00e9 o trio)<\/em> &#8211; Eu gosto de carnaval. Sempre tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que estou aproveitando menos do que deveria, que est\u00e1 todo mundo se divertindo, menos eu, mas creio que \u00e9 sensa\u00e7\u00e3o comum a quem, por alguma raz\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 numa escola, ou num samb\u00f3dromo, ou atr\u00e1s de um trio, ou num bloco, ou no frevo. Ningu\u00e9m me proibiu de fazer nada disso, n\u00e3o estou\/vou porque n\u00e3o deu\/n\u00e3o quero, ent\u00e3o gosto mesmo assim, e embora j\u00e1 n\u00e3o fa\u00e7a parte dele faz tempo, n\u00e3o tenho raiva de quem gosta.<\/p>\n<p>J\u00e1 tive meus carnavais, \u00e9 bem prov\u00e1vel que j\u00e1 tenha escrito algo parecido no passado, e essa \u00e9 tamb\u00e9m uma sensa\u00e7\u00e3o comum a quem parece meio alijado da festa ou porque n\u00e3o \u00e9 chicleteiro, ou porque n\u00e3o descolou um convite para o camarote-da-brama, ou porque n\u00e3o arrumou nenhum pacote da CVC para Recife, ou porque n\u00e3o tem onde ficar no Rio para cair num bloco \u00e0s sete da manh\u00e3. A sensa\u00e7\u00e3o de que carnaval j\u00e1 foi. Algo que, ali\u00e1s, muitas m\u00fasicas de carnaval cantam, aqueles carnavais. Se temos de reclamar do carnaval, que seja disso. Porque contamos nossa vida em carnavais, e eles v\u00e3o ficando para tr\u00e1s, e a vida tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A\u00ed que muita gente fica deprimida no carnaval, porque na TV parece que nos obrigam a escancarar o sorriso, a ser felizes, a pular, pular e pular. Como ordenam todas as cantoras e cantores de carnaval \u2014 de qualquer g\u00eanero, na verdade \u2014, v\u00e2mo tir\u00e1 o p\u00e9 do ch\u00e3o e jog\u00e1 a m\u00e3ozinha pro c\u00e9u! Se um dia proibirem cantores e cantoras brasileiras de nos pedirem para tirar o p\u00e9 do ch\u00e3o e jogar a m\u00e3o para o c\u00e9u, acabam os shows de m\u00fasica no Brasil \u2014 assim como se proibirem os participantes do Big Brother de pronunciarem a palavra &#8220;afinidade&#8221;, o programa sai do ar.<\/p>\n<p>Quem est\u00e1 em casa n\u00e3o tem como tirar os p\u00e9s do ch\u00e3o e jogar as m\u00e3os para o c\u00e9u, ou para o alto, n\u00e3o sei direito se \u00e9 para o c\u00e9u ou para o alto. N\u00e3o fica bem, seria algo meio pat\u00e9tico. Mas \u00e9 fato que nestes quatro ou cinco dias quase todos os aparelhos de TV ficam ligados como se impusessem aos n\u00e3o-foli\u00f5es um fundo musical obrigat\u00f3rio, para n\u00e3o deixar ningu\u00e9m esquecer que s\u00e3o dias em que \u00e9 preciso pegar, abra\u00e7ar, beijar, suar, trepar, ser feliz ou fingir que \u00e9. E se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 no meio daquela multid\u00e3o em Salvador, Olinda, Rio, Floripa, Ouro Preto, sei l\u00e1 onde mais, \u00e9 voc\u00ea que est\u00e1 com problemas. No ano que vem, n\u00e3o esque\u00e7a de procurar seu agente de viagens, ou de comprar uma fantasia para sair na comunidade da Viradouro, mesmo se voc\u00ea nunca esteve em Niter\u00f3i \u2014 foda-se, saiu na escola \u00e9 da comunidade \u2014, ou um abad\u00e1 para o Nana Baiana, o Camale\u00e3o, o trio da Ivete Sangalo.<\/p>\n<p>Abad\u00e1. Quando passei o carnaval em Salvador pela primeira (e \u00fanica, infelizmente) vez, eram mortalhas que compr\u00e1vamos para sair atr\u00e1s do trio. Mas tinha trio que n\u00e3o precisava pagar nada. O de Armadinho, Dod\u00f4 e Osmar, por exemplo, era seguido s\u00f3 pela turma da pipoca. N\u00e3o tinha &#8220;corda&#8221; \u2014 entre aspas porque &#8220;corda&#8221; no Carnaval soteropolitano, e acredito que nas micaretas, \u00e9 na verdade uma barreira humana, seguran\u00e7as que protegem os saltitantes vestidos com abad\u00e1s patrocinados dos pipocas sem grana e sem patroc\u00ednio, que pulam do lado de fora escutando a mesma m\u00fasica, e de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>As mortalhas viraram abad\u00e1s por obra e gra\u00e7a de um publicit\u00e1rio baiano, Pedrinho da Rocha, que conta essa hist\u00f3ria e muitas outras em um <a href=\"http:\/\/pedrinhodarocha.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">blog bem legal<\/a>. Eu gostava da palavra &#8220;mortalha&#8221;, fiquei meio contrariado quando elas viraram abad\u00e1s de um ano para o outro, mas nunca tinha ouvido falar numa at\u00e9 o Carnaval de 1993, o tal que passei em Salvador. Foi quando descobri que era preciso comprar uma mortalha se eu quisesse seguir o trio que cantava Cara Caramba Cara Cara-\u00f4, ou sair atr\u00e1s daquele da mo\u00e7a que achei que se chamava Eva, mas depois vim a saber que era Ivete Sangalo (essa mo\u00e7a tem uma legi\u00e3o de devotos hoje que desprezo olimpicamente, considero completamente retardados\/as quem se refere a ela como &#8220;Vevete&#8221;, uma esp\u00e9cie de entidade inatac\u00e1vel; acho-a uma pentelha med\u00edocre, musicalmente desvirtuada, mas reconhe\u00e7o que tem pernas muito interessantes), enfim, n\u00e3o sabia que funcionavam como um convite, que eram vendidas por cambistas ou por funcion\u00e1rios de hot\u00e9is, e fiquei legitimamente espantado com aquele com\u00e9rcio todo, que julgava inexistente na ing\u00eanua Bahia dos meus livros de Jorge Amado \u2014 que de ing\u00eanuos nada t\u00eam, sacanas, isso sim.<\/p>\n<p>Hoje vejo na TV que a festa baiana \u00e9 cada vez mais &#8220;corporate&#8221;, por assim dizer. Ela foi tomada pelos marqueteiros de S\u00e3o Paulo, n\u00e3o h\u00e1 um cent\u00edmetro quadrado no circuito Barra-Ondina ou do Campo Grande que n\u00e3o seja patrocinado por alguma marca de cerveja, ou de cart\u00e3o de cr\u00e9dito, ou de banco. Tem patroc\u00ednio at\u00e9 no rabo do mais durango pipoca, n\u00e3o se abana o rosto sem fazer propaganda de alguma coisa, os trios s\u00e3o estruturas futuristas com DJs e telas de LCD, aquela coisa pretensamente modernosa mas que no fundo \u00e9 cafona a dar com o pau, cantam e tocam qualquer merda, at\u00e9 o cara do Chiclete com Banana tirou a barba \u2014 e isso vai virar case na ag\u00eancia das giletes, certamente, pela enorme repercuss\u00e3o de fato t\u00e3o relevante nos sites de celebridades.<\/p>\n<p>Trio el\u00e9trico \u00e9 algo que existe desde 1950, salvo engano, e come\u00e7ou com um fordinho com uma guitarra e um viol\u00e3o el\u00e9trico ligados na bateria, Dod\u00f4 e Osmar eram os m\u00fasicos, depois veio o Armadinho (n\u00e3o sei se a ordem de chegada \u00e9 exatamente essa) e o povo atr\u00e1s. No in\u00edcio, portanto, era uma dupla el\u00e9trica, e com a chegada do baixo el\u00e9trico virou trio, e o nome continua valendo, inclusive para vender carro popular com trava-ar-dire\u00e7\u00e3o. Depois vieram os caminh\u00f5es, merced\u00f5es sendo os mais populares, e n\u00e3o \u00e9 de hoje que eles s\u00e3o usados como outdoors ambulantes. Afinal, s\u00e3o enormes, o que n\u00e3o falta \u00e9 espa\u00e7o para anunciar. Esse da foto l\u00e1 no alto \u00e9 dos anos 80, do trio Traz os Montes, pioneiro em algumas bossas el\u00e9tricas que n\u00e3o sei direito quais s\u00e3o, onde o Chiclete come\u00e7ou a tocar com outro nome. Eram quase todos assim.<\/p>\n<p>Suspeito que o som dos trios antigamente era mais legal, quase sempre instrumental, el\u00e9trico mesmo, havia uma m\u00fasica de trio, um g\u00eanero musical, bem diferente est\u00e9tica e musicalmente desses megapalcos cheios de celebridades ocas que se movem entre camarotes patrocinados, gente fazendo cora\u00e7\u00e3ozinho com as m\u00e3os e outras gravando tudo para colocar no Facebook o mais r\u00e1pido poss\u00edvel como a gritar para os amigos: vejam como eu sou feliz e aproveito a vida!<\/p>\n<p>Est\u00e1 tudo meio babaca, mas n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno isolado da Bahia, tudo est\u00e1 meio &#8220;corporate&#8221; hoje em dia e nada existe se n\u00e3o for parar no YouTube ou no Facebook. Paci\u00eancia. Deve haver, certamente h\u00e1, carnaval em algum canto do pa\u00eds onde as pessoas apenas brincam, sem preocupa\u00e7\u00e3o alguma com o novo iPad. Eu ainda vou encontrar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO (\u00e9 o samba, \u00e9 o povo, \u00e9 o trio) &#8211; Eu gosto de carnaval. 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