{"id":64569,"date":"2010-09-11T21:40:51","date_gmt":"2010-09-12T00:40:51","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/onze-do-nove\/"},"modified":"2026-06-17T00:29:56","modified_gmt":"2026-06-17T03:29:56","slug":"onze-do-nove","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/flavio-gomes\/noticias\/onze-do-nove\/","title":{"rendered":"ONZE DO NOVE"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>S\u00c3O PAULO<\/strong> <em>(mudou muito?)<\/em> &#8211; Eu estava de malas prontas para Monza nove anos atr\u00e1s quando os dois avi\u00f5es acertaram o World Trade Center, e mais um foi jogado no Pent\u00e1gono. Aquele fim de semana na It\u00e1lia foi dos mais esquisitos. A Ferrari correu sem patroc\u00ednios e com os bicos de seus carros pintados de preto. Mais alguns dias e a F-1 baixou em Indian\u00e1polis, no primeiro grande evento p\u00fablico depois do 11\/9.<\/p>\n<p>Naquela semana, minha coluna de automobilismo nos jornais e no <strong>Grande Pr\u00eamio<\/strong>, escrita no dia 12,\u00a0falava de baratas. N\u00e3o de baratinhas com rodas e pilotos, aquelas que correm e nos encantam. De outras.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>PLANETA DAS BARATAS<\/strong><\/p>\n<p>Sou um interessado observador de baratas. Elas s\u00e3o nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de advers\u00e1rios t\u00e3o hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, s\u00f3 v\u00e3o sobrar as baratas.<\/p>\n<p>Talvez seja melhor. N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas n\u00e3o tenham nada na cabe\u00e7a, n\u00e3o sei sequer se t\u00eam cabe\u00e7a. Baratas n\u00e3o se matam. S\u00e3o uma esp\u00e9cie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocr\u00e9ias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.<\/p>\n<p>Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razo\u00e1veis. Ou para comer, ou para se defender. Eles n\u00e3o odeiam os outros animais. S\u00e3o indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. T\u00eam seus instintos, suas pr\u00f3prias leis, e v\u00e3o levando a vida atrav\u00e9s dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>O homem, n\u00e3o. \u00c9 um fracasso como esp\u00e9cie animal. \u00c9 capaz das maiores fa\u00e7anhas tecnol\u00f3gicas, de ir \u00e0 lua e clonar gente, mas incapaz de estabelecer regras de conviv\u00eancia que deveriam fazer parte de algum c\u00f3digo gen\u00e9tico interno, como o das baratas, das lacraias e das mocr\u00e9ias. O homem fabrica armas que t\u00eam como \u00fanico objetivo matar outros homens. E transforma suas cria\u00e7\u00f5es mais formid\u00e1veis, como avi\u00f5es, em m\u00edsseis recheados de gente muito mais eficientes que ogivas nucleares.<\/p>\n<p>A estupidez, e n\u00e3o a criatividade ou a intelig\u00eancia, \u00e9 a caracter\u00edstica mais marcante da nossa esp\u00e9cie, \u00e9 pela estupidez que seremos lembrados pelas baratas daqui a alguns milh\u00f5es de anos. E o 11 de setembro de 2001 ser\u00e1 emblem\u00e1tico, o dia em que o homem a exerceu com esplendor.<\/p>\n<p>Eu e as baratas passamos o dia anteontem colados na TV, vendo nossa estupidez transformada em espet\u00e1culo de m\u00eddia. Nada mais formid\u00e1vel, card\u00e1pio para todos os gostos. Para aqueles que defendem o troco imediato, com a mesma viol\u00eancia e insanidade, e para os que acreditam que, finalmente, a arrog\u00e2ncia do poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico recebeu sua li\u00e7\u00e3o, sentiu na pele o que \u00e9 ter medo, o mesmo medo disseminado pela for\u00e7a ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Aqueles que admiram a superioridade imposta por nossos vizinhos do norte ao resto da humanidade no \u00faltimo s\u00e9culo, que se sentem incomodados pelas na\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tiveram a compet\u00eancia de construir suas disneyl\u00e2ndias e n\u00e3o jogam basquete direito, est\u00e3o radiantes. \u00c9 a hora de provar de uma vez por todas quem manda no galinheiro.<\/p>\n<p>Estes devem ter adorado a figura pat\u00e9tica do presidente caub\u00f3i garantindo a vingan\u00e7a com discurso hollywoodiano, &#8220;n\u00e3o se enganem, j\u00e1 vencemos outros inimigos antes, vamos vencer de novo&#8221;, um Forrest Gump mal-acabado defendendo ideais de liberdade, democracia e justi\u00e7a nos quais s\u00f3 quem nunca esteve nos EUA pode acreditar. (Basta meia hora em territ\u00f3rio americano para perceber a fal\u00e1cia dos tais ideais. Que liberdade existe num pa\u00eds vigiado por c\u00e2meras e sat\u00e9lites, onde jogar um chiclete na rua \u00e9 motivo para ser detido pela SWAT? Que democracia \u00e9 essa que referenda uma elei\u00e7\u00e3o fraudulenta e coloca na presid\u00eancia um sujeito que teve menos votos que o derrotado? Que justi\u00e7a \u00e9 essa que faz com que esse pa\u00eds se ache no direito de interferir nos destinos de todos os outros exportando guerras e mis\u00e9ria?)<\/p>\n<p>Os EUA apanharam. N\u00e3o sabem de quem, mas talvez saibam por qu\u00ea. E, se n\u00e3o sabem, era hora de algu\u00e9m se dirigir ao seu povo e admitir que se meia-d\u00fazia de doidos foram capazes das atrocidades do 11 de setembro, \u00e9 porque muito mal esse pa\u00eds andou fazendo a outros povos por a\u00ed para ser t\u00e3o odiado. Infelizmente, o caub\u00f3i n\u00e3o \u00e9 esse algu\u00e9m. Sob a sombra e o cheiro f\u00e9tido de 2 mil cad\u00e1veres, o caub\u00f3i estava mais preocupado, horas depois dos atentados, em garantir aos seus cidad\u00e3os que &#8220;a economia americana est\u00e1 aberta aos neg\u00f3cios como sempre&#8221;.<\/p>\n<p>Eu e as baratas nos espantamos com essa declara\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, nos espantamos tamb\u00e9m com palestinos festejando a morte de milhares de inocentes, em Beirute e Jerusal\u00e9m. Ouvi algu\u00e9m dizer que o que aconteceu ontem mostra que o mundo precisa de deus no cora\u00e7\u00e3o. Discordamos, eu e as baratas. Foi o excesso de deus, assim mesmo, em min\u00fascula, que levou as Cruzadas a dizimarem inimigos que acreditavam em outro tipo de deus, na Idade M\u00e9dia. Foi o excesso de deus no cora\u00e7\u00e3o que conduziu os judeus na expuls\u00e3o dos palestinos de seu territ\u00f3rio depois da Segunda Guerra. \u00c9 o excesso de deus no cora\u00e7\u00e3o que faz os \u00e1rabes a explodirem lanchonetes, shoppings, pizzarias, avi\u00f5es e pr\u00e9dios pelo mundo afora.<\/p>\n<p>O que h\u00e1, e nisso eu e as baratas concordamos, \u00e9 um excesso de deuses no cora\u00e7\u00e3o dos homens. Um deles, citado pelo caub\u00f3i, \u00e9 o mercado, a economia, o papel verde que move as engrenagens do planeta, e que uma barata amiga confessou ter ro\u00eddo um dia, de um ma\u00e7o escondido sob o assoalho, sem saber do que se tratava \u2014 n\u00e3o apreciou o paladar. Em nome de deus, ou de Deus, ou das v\u00e1rias modalidades de deuses, matamos, explodimos, arrebentamos, crucificamos, bombardeamos, torturamos e acompanhamos tudo pela TV como se fosse um grande espet\u00e1culo, e nisso concordamos de novo, eu e as baratas, somos muito bons.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 guerra boa ou paz ruim, escreveu Benjamin Franklin, curiosamente num 11 de setembro. As baratas discordam, a pr\u00f3xima guerra ser\u00e1 muito boa porque sobreviveremos, me disse uma.<\/p>\n<p>As baratas s\u00e3o bem melhores do que n\u00f3s.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO (mudou muito?) &#8211; Eu estava de malas prontas para Monza nove anos atr\u00e1s quando os dois avi\u00f5es acertaram o World Trade Center, e mais um foi jogado no Pent\u00e1gono. Aquele fim de semana na It\u00e1lia foi dos mais esquisitos. 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