{"id":89112,"date":"2007-04-15T15:25:00","date_gmt":"2007-04-15T18:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/sem-autor\/noticias\/achcar-e-sua-simca\/"},"modified":"2026-06-17T01:56:36","modified_gmt":"2026-06-17T04:56:36","slug":"achcar-e-sua-simca","status":"publish","type":"42wp_blog","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/blogs\/flavio-gomes\/noticias\/achcar-e-sua-simca\/","title":{"rendered":"Achcar e sua Simca"},"content":{"rendered":"\n<p>S\u00c3O PAULO <i>(para o doming\u00e3o)<\/i> &#8211; Sidney Cardoso recebeu do Ricardo Achcar (estamos ficando chiques) este texto que segue, escrito sob a inspira\u00e7\u00e3o do lindo desenho (mais um) do Maur\u00edcio Morais.<\/p>\n<p>Leiam e delirem&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/wp-content\/uploads\/2007\/04\/simcaachcar.jpg\"><\/p>\n<p><i>Foi na rua Teodoro da Silva, com apresenta\u00e7\u00e3o do Milton Amaral, que juntaram-se vidas e trajet\u00f3rias no esporte motor: Herculano Ferreirinha, Ant\u00f4nio Ferreirinha e, no grupo, Manoel de quem me falta o nome, por\u00e9m n\u00e3o o respeito pela dedica\u00e7\u00e3o que sempre mostrou.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m pela via da capotagem espetacular na Ferradura em Interlagos que o meu co-piloto Vadinho, vers\u00e3o carioca do personagem de Dona Flor e Seus Dois Maridos do Jorge Amado, vulgo pau-queimado e o horror dos pais de fam\u00edlia da \u00e9poca, Milton Amaral, que o Simca Achcar resolveu se produzir.<\/p>\n<p>Foi muito tamb\u00e9m pelo Ciro Caires, o piloto companheiro que me passou a primeira grande li\u00e7\u00e3o que mudou a minha vida, sobre suspens\u00e3o e ajustes, que pude adquirir um motor V8 da Simca contra vontade do Chico Landi, que tinha um certo preconceito com &#8220;os carioca cheio de firula&#8221;, mas acabou deixando se convencer pelo Ciro. E me deram o melhor motor de dinam\u00f4metro que havia na \u00e9poca no departamento de competi\u00e7\u00e3o em compasso, creio que ent\u00e3o \u00e0 espera da chegada dos Simca-Abarth.<\/p>\n<p>Tinha o dito cujo 146 HP e os tinha mesmo. A concep\u00e7\u00e3o do suporte interno entre-eixos do motor foi minha, e a m\u00e3o-de-obra coordenada pelo Herculano com Ant\u00f4nio e Manoel na execu\u00e7\u00e3o, e eu enchendo o saco, conhecido por supervis\u00e3o. O que pouca gente sabe \u00e9 que eu havia conseguido uma caixa Colotti do Renault Rabo Quente na Fran\u00e7a, e havia conseguido um feito in\u00e9dito de engambelar minha m\u00e3e, radical contr\u00e1ria ao esporte, que trouxe &#8220;a bola de ferro&#8221; na bagagem dela.<\/p>\n<p>O raio da caixa tinha um eixo-piloto de 13 mm de di\u00e2metro que ag\u00fcentou honrosamente a pot\u00eancia e o torque do motor Simca em honra ao orgulho da engenharia francesa. Era inacredit\u00e1vel. Nunca reclamou, piou ou rangeu. Em compensa\u00e7\u00e3o, era seca que nem uma velha ranzinza, exigia o giro no cabelo ou n\u00e3o entrava, nem dizia bom dia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de robusta, ranzinza e berrante nos dentes retos, era invertida sexualmente. Primeira embaixo na direita (o motor era entre-eixos) e o resto voc\u00eas adivinham. A r\u00e9 era em cima na esquerda. Quem \u00e9 do meio sabe daquele piloto de &#8220;confec\u00e7\u00e3o de f\u00e1brica&#8221; da Willys que enfiou a invertida l\u00e1 na entrada da Sul e perdeu o norte&#8230; Era endiabrada.<\/p>\n<p>Como eu j\u00e1 era conhecedor das mazelas do enchimento do circuito de \u00e1gua da Berlineta, caixa de compensa\u00e7\u00e3o e uma multiplicidade de sangradores estavam instalados no sistema de arrefecimento. O termo-sif\u00e3o da Vemag (DKW) era uma li\u00e7\u00e3o completa sobre arrefecimento.<\/p>\n<p>Quem viveu esta \u00e9poca e elucubrou na criatividade sabe que rival superior, apenas a complexidade macetad\u00edssima do ajuste dos tr\u00eas platinados do 3=6, incr\u00edvel pe\u00e7a de fa\u00e7anhas, que Deus os tenha vivo para sempre, mas na hist\u00f3ria como fonte de inspira\u00e7\u00e3o. Quando fechavam intermitentemente o recurso era a casa Dr. Eiras, ou pegar o Jorge Letry de bom humor. A primeira op\u00e7\u00e3o sempre levou a melhor. E ningu\u00e9m sai normal dessa experi\u00eancia. Apenas melhores pilotos e surdos de um ouvido, o pr\u00f3ximo da descarga na janela esquerda. Perguntem ao Chico Lameir\u00e3o falando no ouvido da direita, por favor.<\/p>\n<p>Foi por estas e mais algumas que eu determinei do alto da minha engenharia que utilizar\u00edamos um radiador de colm\u00e9ia celular da Bongotti. N\u00e3o sei se todo mundo sabe, n\u00e3o custa mencionar. Na colm\u00e9ia celular a decanta\u00e7\u00e3o da \u00e1gua se faz num percurso em diagonal aproximadamente 30% maior do que na queda vertical. <\/p>\n<p>Calculando os oitos cilindros, cilindrada, cabe\u00e7ote plano e circuito em geral, eu estimei que com seguran\u00e7a 11 litros dariam cabo da quest\u00e3o, especialmente pela bomba do motor que era poderosa, e o radiador suportava alta press\u00e3o. Isto me permitia colocar uma tampa de radiador de 113 libras. Vamos de experi\u00eancia 3=6. E assim executamos.<\/p>\n<p>Adiante, no aut\u00f3dromo, na arrancada, o Paulinho Newland com a sua lind\u00edssima e hoje sem pre\u00e7o GTO, surgia encarnado no meu. Coisa de historia. At\u00e9 eu gosto de ler, d\u00e1 mais arrepio.<\/p>\n<p>Tudo doido, criativo, corajoso, imprevis\u00edvel com a morte de copila. Passava na reta e o Ant\u00f4nio abusava dos tamancos, na \u00e9poca indument\u00e1ria de defesa quando a coisa ficava preta, e sacava os dois e sai de perto. Dava quase cambalhotas e o polegar imenso surgia quase no meio do p\u00e1ra-brisa.<\/p>\n<p>Herculano, mais gelado e tamb\u00e9m menor, botava um sorriso ritualista e ficava na dele, e o Manoel compartilhava do Ant\u00f4nio dando suporte para ele n\u00e3o ser atropelado.<\/p>\n<p>De repente, n\u00e3o que a morte se pronunciasse, mas era meio como. Bumba, a mangueira superior de sa\u00edda do motor se soltava do radiador. Podia ser a mangueira inferior. Mas n\u00e3o dizia a morte! Tem que ser a de cima que \u00e9 mais quentinha&#8230; E o meu cangote era premiado com um jato de vapor, \u00e1gua e berro de motor, tudo quentinho.<\/p>\n<p>A\u00ed, estava na pista aquele insolente jornalista. Na terceira mangueirada que eu levei o nome ficou. &#8220;Vem quente que eu estou fervendo&#8221;. N\u00e3o insistam e n\u00e3o encham o meu saco: n\u00e3o vou dizer o nome desse analfabeto que provavelmente escrevia o meu nome com &#8220;x&#8221;. Passaram-se quatro anos, mais ou menos.<\/p>\n<p>O Ant\u00f4nio j\u00e1 usava cal\u00e7ados robustos, discretos e militarescos. Os tamancos se foram, provavelmente na cabe\u00e7a de algu\u00e9m. Mas o fato \u00e9 que j\u00e1 era campe\u00e3o e a assombra\u00e7\u00e3o de muitos preparadores de motor.<\/p>\n<p>Uma noite, sem saber por que, entrei no nosso box e encontrei o Ant\u00f4nio namorando um pist\u00e3o embevecido. Tirei-o da letargia, cara doente, e dei-lhe o que eu chamo de ordem. Acho que nem ele sabe por que me atendeu.<\/p>\n<p>Digo isso porque n\u00e3o veio com rabugice e improp\u00e9rios lusos. Me atendeu. Acho que ele tamb\u00e9m n\u00e3o sabe por que, mas o Ant\u00f4nio lia os meus instintos, coisa que eu n\u00e3o sabia fazer. &#8220;Tira esse radiador que eu quero ver uma coisa.&#8221; Sil\u00eancio e execu\u00e7\u00e3o. Fiquei preocupado. Ant\u00f4nio retirou o radiador botou na bancada e olhou para minha cara. &#8220;Pega essa garrafa de litro e enche essa coisa.&#8221; Ant\u00f4nio, ainda calado, encheu. Deu 7 litros.<\/p>\n<p>Fechamos o box e fomos para a Montenegro, hoje Vinicius de Moraes, no Garota de Ipanema. Tomamos todas e eu ouvi a noite toda resignado repetitivos improp\u00e9rios com o peso gutural daquela boca cheia de graxa e parafusos do Ferreirinha, o maior mec\u00e2nico do Brasil, porque veste a camisa at\u00e9 debaixo da neve.<\/p>\n<p>Eu vi.<\/p>\n<p>Ricardo Achcar<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c3O PAULO (para o doming\u00e3o) &#8211; Sidney Cardoso recebeu do Ricardo Achcar (estamos ficando chiques) este texto que segue, escrito sob a inspira\u00e7\u00e3o do lindo desenho (mais um) do Maur\u00edcio Morais. 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