{"id":1226,"date":"2019-01-17T06:00:00","date_gmt":"2019-01-17T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/grandepremium\/materias\/pelos-caminhos-do-deserto\/"},"modified":"2019-01-17T06:00:00","modified_gmt":"2019-01-17T08:00:00","slug":"pelos-caminhos-do-deserto","status":"publish","type":"42wp_premium","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/grandepremium\/noticias\/materias\/pelos-caminhos-do-deserto\/","title":{"rendered":"Pelos caminhos do deserto"},"content":{"rendered":"\n<p><big>O sonho de Thierry Sabine segue alimentando entusiastas pelo mundo. Ao mesmo tempo em que um grupo de competidores enfrenta terrenos adversos em territ&oacute;rio peruano na 41&ordf; edi&ccedil;&atilde;o do Rali Dakar, o Brasil celebra nesta quinta-feira (17) um de seus primeiros grandes feitos na maior e mais dura prova off-road do planeta.<\/big><\/p>\n<p><big>H&aacute; exatos 20 anos, uma equipe nacional levava a bandeira do Brasil ao p&oacute;dio do Rali Dakar pela primeira vez na classifica&ccedil;&atilde;o geral. E logo na estreia brasileira na categoria dos caminh&otilde;es.<\/big><\/p>\n<p><big>Em 1999, quando a disputa aconteceu entre Granada, na Espanha, e Dacar, no Senegal, passando por Marrocos, Maurit&acirc;nia, Mali e Burkina Faso, Andr&eacute; Azevedo e tcheco Tomas Tome\u010dek contaram com a jornalista Leilane Neubarth para integrar o time que iria percorrer os 9.393 km \u2015 sendo 5.638 km de trecho cronometrado \u2015 a bordo de um caminh&atilde;o Tatra.<\/big><\/p>\n<p><big>Entre os tr&ecirc;s componentes do #425, Leilane era a &uacute;nica que debutava no Dakar. Ao lado de Klever Kolberg, Andr&eacute; tinha sido um dos primeiros brasileiros a se aventurar na prova, de moto, ainda no fim da d&eacute;cada de 80. Tomas, por sua vez, j&aacute; tinha at&eacute; conquistado o t&iacute;tulo, em 1995, atuando como copiloto de Karel Loprais, um daqueles poucos que ao longo da hist&oacute;ria receberam a gloriosa alcunha de &lsquo;<em>Monsieur Dakar&rsquo;<\/em><em>, <\/em>hoje ostentado por St&eacute;phane Peterhansel<em>.<\/em><\/big><\/p>\n<p><big>Enquanto para muitos a participa&ccedil;&atilde;o naquela que &eacute; ainda hoje a maior e mais dura prova off-road do planeta &eacute; a realiza&ccedil;&atilde;o de sonho, para Leilane tudo come&ccedil;ou como um desafio. Foi um convite inusitado que levou a jornalista da TV Globo &agrave; prova idealizada por Thierry Sabine. E um convite que partiu praticamente de desconhecidos.<\/big><\/p>\n<p><big>Destemida, por&eacute;m, Neubarth encarou o desafio e, mesmo sem saber direito as reais condi&ccedil;&otilde;es que enfrentaria, embarcou rumo do continente Europeu para iniciar uma jornada que marcaria n&atilde;o s&oacute; sua trajet&oacute;ria profissional, mas tamb&eacute;m sua vida e a pr&oacute;pria hist&oacute;ria do esporte a motor brasileiro.<\/big><\/p>\n<h2><big><strong>O convite<\/strong><\/big><\/h2>\n<p>\n<big>Leilane Neubarth chegou ao Rali Dakar por acaso. Em 1998, atuando como mestre de cerim&ocirc;nias em um evento da revista &lsquo;Exame&rsquo;, foi desafiada por Klever Kolberg e Andr&eacute; Azevedo a &ldquo;tirar a roupa arrumadinha&rdquo; de apresentadora de telejornal e enfrentar as agruras do deserto do Saara.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Foi uma situa&ccedil;&atilde;o absolutamente casual&rdquo;, conta Leilane em entrevista ao <strong>GRANDE PREMIUM<\/strong>. &ldquo;Eles estavam fazendo a palestra, era um evento para, sei l&aacute;, umas 400, 450 pessoas, uma coisa assim, e a&iacute; eles brincaram comigo e disseram: &lsquo;Ah, a gente sabe que a Leilane tem moto, que a Leilane gosta de aventura, mas eu quero ver se a Leilane tem coragem de tirar essa roupa arrumadinha e ir com a gente para o Paris-Dakar participar de uma competi&ccedil;&atilde;o&rsquo;. A&iacute; eu n&atilde;o ia deixar essa bola quicando, n&eacute;&rdquo;.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Eu falei: &lsquo;Olha, temos aqui 450 testemunhas de que eu fui convidada, se eles voltarem atr&aacute;s, eu vou pedir para voc&ecirc;s deporem a meu favor&rsquo;&rdquo;, relata, rindo, a jornalista.<\/big><\/p>\n<p><big>E estava lan&ccedil;ado o desafio. De volta ao Rio de Janeiro, Neubarth transmitiu o convite a Luiz Nascimento, ent&atilde;o diretor do Fant&aacute;stico. At&eacute; ent&atilde;o, a imprensa brasileira recebia o chamado &lsquo;feed&rsquo;, os melhores momentos editados pela emissora francesa respons&aacute;vel pela gera&ccedil;&atilde;o das imagens do Dakar, mas n&atilde;o marcava presen&ccedil;a na competi&ccedil;&atilde;o.<\/big><\/p>\n<p><big>Respons&aacute;vel pelo convite, Andr&eacute; exalta a import&acirc;ncia da presen&ccedil;a de Leilane na equipe e lembra o interesse despertado pela presen&ccedil;a da jornalista.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;At&eacute; ent&atilde;o, a gente tinha muita m&iacute;dia espont&acirc;nea, mas jamais uma pessoa de peso nos acompanhando. E ela foi surpreendente&rdquo;, elogia Andr&eacute; ao <strong>GP*<\/strong>. &ldquo;A divulga&ccedil;&atilde;o que ela conseguiu &agrave; &eacute;poca &mdash; ela era &acirc;ncora do &lsquo;Bom Dia, Brasil&rsquo; ao lado do Renato Machado &mdash;, era porque sua popularidade era muito grande, e sua for&ccedil;a era muito grande tamb&eacute;m na Globo. E as outras m&iacute;dias queriam acompanhar o que a Leilane faria nessa aventura. Foi muito legal!&rdquo;, resume.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Imagina eu, sendo o primeiro piloto brasileiro de caminh&atilde;o, ainda conhecendo a categoria, e tamb&eacute;m sem conhecer o Tomas Toma\u010dek. Foi um ano de muitas mudan&ccedil;as e, gra&ccedil;as a Deus, de mudan&ccedil;as para melhor&rdquo;, comenta.<\/big><\/p>\n<p><big>Alguns dias depois, Andr&eacute; reiterou o convite e, pouco tempo mais tarde, a participa&ccedil;&atilde;o de Leilane no Dakar estar definida. Mas restava um por&eacute;m: contar para o ent&atilde;o marido, o tamb&eacute;m jornalista Ol&iacute;vio Petit.<\/big><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20191161841701_LeilaneDakar2_O.jpg\" width=\"1600\" height=\"1119\" \/><\/div>\n<blockquote class=\"destaque-imagem\"><p>Al\u00e9m de copilota, Leilane Neubarth produziu boletins para a Globo durante o Granada-Dakar (Leilane Neubarth em meio a um dos boletins ap\u00f3s caminh\u00e3o sofrer uma batida  (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Mem\u00f3ria Globo))<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p><big>&ldquo;Depois que eu conversei com o Andr&eacute;, com a Globo, que a coisa estava alinhavada e tal, eu demorei uns tr&ecirc;s dias para conseguir contar para o Petit&rdquo;, conta. &ldquo;A&iacute; um dia eu falei com ele: &lsquo;Olha, eu fui convidada para o Paris-Dakar e eu aceitei&rsquo;. A&iacute; ele falou assim: &lsquo;Voc&ecirc; est&aacute; louca? Voc&ecirc; sabe o que &eacute; o Paris-Dakar?&rsquo;&rdquo;, recorda.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;A&iacute; eu falei: &lsquo;Eu sei mais ou menos o que &eacute; o Paris-Dakar&rsquo;. E ele falou: &lsquo;Olha, isso &eacute; uma loucura. Voc&ecirc; n&atilde;o pode aceitar. Todos os anos morre uma pessoa no Paris-Dakar. O Paris-Dakar &eacute; a corrida mais perigosa do planeta. Tem risco de bomba, tem risco de assalto, tem risco de acidente. Voc&ecirc; n&atilde;o pode aceitar&rsquo;. A&iacute; virei para ele \u2015 ele &eacute; jornalista tamb&eacute;m \u2015 e falei: &lsquo;Bom, ent&atilde;o voc&ecirc; est&aacute; me dizendo que se voc&ecirc; fosse convidado, voc&ecirc; diria n&atilde;o?&rsquo;. Ele tremeu. Porque falei: &lsquo;Presta aten&ccedil;&atilde;o, esse convite n&atilde;o vem duas vezes. Eu n&atilde;o posso dizer: <em>&lsquo;Ai gente, esse ano eu n&atilde;o quero n&atilde;o, mas no ano que vem eu quero&rsquo;<\/em>. Isso n&atilde;o existe. O convite vem. Ou voc&ecirc; aceita ou voc&ecirc; n&atilde;o aceita&rsquo;&rdquo;, conta Neubarth.<\/big><\/p>\n<p><big>O ent&atilde;o marido, no entanto, alertou Leilane dos perigos envolvidos na aventura off-road. &ldquo;O Petit me trouxe v&aacute;rias, na &eacute;poca eram fitas de betacam para eu assistir em casa. V&aacute;rias. A&iacute; eu assisti caminh&atilde;o explodindo, assisti acidente, assisti capotamento, assisti todas as desgraceiras do Paris-Dakar e tudo bem. Continuei&rdquo;.<\/big><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20191162017262_WhatsApp Image 2019-01-16 at 19.48.44_O.jpeg\" width=\"1280\" height=\"960\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">\n<p>O preparo<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>Ir ao rali, no entanto, n&atilde;o era uma experi&ecirc;ncia assim t&atilde;o simples. At&eacute; por conta de algumas exig&ecirc;ncias de ordem pr&aacute;tica.<\/p>\n<p>&ldquo;Para que eu pudesse fazer a minha inscri&ccedil;&atilde;o no Paris-Dakar, a organiza&ccedil;&atilde;o exige que eu tenha carteira de caminh&atilde;o, carteira de motorista de caminh&atilde;o. Ent&atilde;o, fui fazer autoescola&rdquo;, explica Leilane. &ldquo;Isso era mais ou menos setembro. O primeiro convite veio no fim de agosto, a coisa se concretizou em setembro e a gente embarcou em dezembro&rdquo;, detalha.<\/p>\n<p>Conclu&iacute;da essa parte pr&aacute;tica, Neubarth se deparou com outro problema.<\/p>\n<p>&ldquo;O caminh&atilde;o era patrocinado pela Lubrax, e a Globo n&atilde;o queria que eu usasse a marca Lubrax por uma quest&atilde;o da empresa, ent&atilde;o eu n&atilde;o podia usar&rdquo;, diz. &ldquo;Por outro lado, era perigoso n&atilde;o usar a marca Lubrax, pois, se a gente tem um acidente, as pessoas que est&atilde;o uniformizadas, com um uniforme da equipe, s&atilde;o as primeiras a serem atendidas, porque imediatamente o socorro reconhece aquela pessoa como um competidor&rdquo;, recorda.<\/p>\n<p>&ldquo;Ent&atilde;o foi feita uma roupa para mim que tinha a marca, uma onda verde e amarela, mas n&atilde;o tinha o nome&rdquo;, conta.<\/p>\n<p>Antes de viajar, tamb&eacute;m era preciso preparar o f&iacute;sico para as condi&ccedil;&otilde;es extremas da disputa.<\/p>\n<p>&ldquo;Fizemos a prepara&ccedil;&atilde;o antes nas dunas de Cabo Frio, tendo a Leilane ao nosso lado. Ela foi uma guerreira no caminh&atilde;o, contribuiu bastante para o resultado&rdquo;, elogia Andr&eacute;.&nbsp;O pioneiro do Dakar relembra que Leilane demonstrou, desde o in&iacute;cio, ter n&atilde;o apenas condi&ccedil;&otilde;es de fazer parte da tripula&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m a paix&atilde;o e o esp&iacute;rito de aventura.<\/p>\n<p>&ldquo;Chegamos a atolar algumas vezes, mas foi mais para ver o ritmo que ela suportaria durante dez, 11, 12 horas dentro do caminh&atilde;o, e se preparar para isso. Lembro que um dos fatores que me chamou a aten&ccedil;&atilde;o, que me deu um estalo quando a gente se conheceu no &lsquo;Empreendedores do Ano&rsquo;, foi que ela disse que tinha uma moto e andava de vez em quando em trilha. E a&iacute;, vimos que ela tinha um sangue aventureiro. A convidamos para o teste em Cabo Frio, e foi a&iacute; que aconteceram as coisas. Ela agregou muito valor: primeira mulher, competindo com a gente, era a Leilane, que n&atilde;o era do meti&ecirc;, mas tinha todo um perfil que se encaixava com tudo aquilo.&rdquo;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p> ((Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Far\u00f3is de Milha))<\/p><\/div>\n<\/div>\n<h2><big><strong>A surpresa<\/strong><\/big><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><big>Antes de embarcar, Leilane conhecia pouco sobre a prova. &ldquo;Sabia que era perigosa, sabia que tinha tr&ecirc;s categorias \u2015 moto, carro e caminh&atilde;o \u2015, sabia que era uma prova contra o rel&oacute;gio&rdquo;.<\/big><\/p>\n<p><big>No entanto, a jornalista esperava uma experi&ecirc;ncia diferente, inclusive para preparar conte&uacute;do para a TV.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Achava que ia poder pedir para o Tomas, por exemplo: &lsquo;Para um pouquinho e deixa filmar aqui que est&aacute; bonito para mostrar para o Brasil&rsquo;&rdquo;, conta. &ldquo;E isso n&atilde;o rola. Voc&ecirc; n&atilde;o para nem para fazer xixi. Voc&ecirc; n&atilde;o para, n&atilde;o para, &eacute; contra o rel&oacute;gio mesmo. Todos os dias voc&ecirc; tem um percurso para atingir. Voc&ecirc; sai do ponto A e chega no ponto B. Este percurso &eacute; cronometrado, voc&ecirc; tem de fazer no menor tempo poss&iacute;vel. A sua coloca&ccedil;&atilde;o neste percurso vai garantir sua largada no dia seguinte. Se voc&ecirc; for o 20&ordm;, voc&ecirc; vai largar em 20&ordm;. Se voc&ecirc; for o primeiro, voc&ecirc; vai largar em primeiro&rdquo;, explica.<\/big><\/p>\n<p><big>Mas n&atilde;o foi s&oacute; isso que a surpreendeu. Leilane tampouco imaginava que estaria dentro de um caminh&atilde;o competitivo. Por se tratar da primeira experi&ecirc;ncia brasileira na categoria, a jornalista esperava andar no fundo do pelot&atilde;o.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Achei que, como era o primeiro caminh&atilde;o, a gente ia ficar l&aacute; na rabeta, n&atilde;o ia disputar porra nenhuma. A gente vai ficar l&aacute; atr&aacute;s, quase que fazendo uma ilustra&ccedil;&atilde;o. Era a primeira vez que vai ter o Brasil&rdquo;, contou. &ldquo;Mas n&atilde;o! O nosso piloto, o Tomas, tinha muita experi&ecirc;ncia no Paris-Dakar. A Rep&uacute;blica Tcheca &eacute; tradicional&iacute;ssima em competi&ccedil;&atilde;o de caminh&atilde;o de velocidade, ent&atilde;o ele era um excelente piloto de velocidade em caminh&atilde;o e tinha sido por cinco anos navegador de [Karel Loprais] um senhor conhecido como &lsquo;Monsieur Dakar&rsquo;, que era um senhor de sessenta e tantos anos, e que era um dos maiores vencedores da categoria caminh&atilde;o do Dakar. E o Tomas tinha sido o bra&ccedil;o direito dele, o navegador dele por muitos anos&rdquo;, relata.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Ent&atilde;o qual era a hist&oacute;ria do Tomas? Ao assumir um caminh&atilde;o, ele queria provar ao &lsquo;Monsieur Dakar&rsquo; que sabia muito. Ent&atilde;o ele estava botando as v&iacute;sceras, o sangue dele ali. Essa &eacute; a hist&oacute;ria. E eu n&atilde;o sabia de nada disso! Eu achei que a gente estava indo na boa&rdquo;, revela. &ldquo;Quando chegou l&aacute;, comecei a entender tudo. Primeiro que, no pr&oacute;logo, na primeira contagem de tempo, a gente saiu em segundo lugar. Caceta! Segundo lugar? Na primeira prova, a gente saiu em primeiro. Depois a gente pegou o terceiro, enfim, a gente acabou chegando em terceiro&rdquo;.<\/big><\/p>\n<p><big>A performance do caminh&atilde;o n&atilde;o surpreendeu apenas Leilane, mas tamb&eacute;m Andr&eacute;. &ldquo;Foi uma surpresa para mim, tamb&eacute;m para o Tomas. N&atilde;o era um caminh&atilde;o novo, estava no quarto ano dele, desde 1995. N&atilde;o era o caminh&atilde;o mais competitivo. Mas o Tatra era o caminh&atilde;o mais robusto em termos de resist&ecirc;ncia. Ent&atilde;o tivemos muitos poucos problemas&rdquo;.<\/big><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20191161954475_WhatsApp Image 2019-01-16 at 19.48.54_O.jpeg\" width=\"1280\" height=\"960\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">Leilane Neubarth viu de perto as surpresas e perigos do Deserto do Saara <\/div>\n<\/div>\n<p><big>A face mais dura do Dakar, por&eacute;m, n&atilde;o tardou a se mostrar. Em um ambiente de extrema competitividade, era Tomas quem &lsquo;chamava&rsquo; Leilane &agrave; realidade.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Teve uma vez que a gente bateu, teve uma vez que a gente atolou, teve um percurso que muita gente atolou logo no in&iacute;cio&rdquo;. lembra. &ldquo;A gente recebe um kit, um kit com tr&ecirc;s garrafinhas d&rsquo;&aacute;gua e umas coisas bem cal&oacute;ricas, que &eacute; o que voc&ecirc; vai comer da hora que voc&ecirc; sai at&eacute; a hora que voc&ecirc; chega no acampamento. Caso voc&ecirc; se perca, tenha um acidente, &eacute; esse o seu kit sobreviv&ecirc;ncia. Muita gente estava atolada, e tinha um rapaz do lado de fora, desesperado, abanando a m&atilde;o. A gente estava devagar com o caminh&atilde;o porque era muita areia, muito perigoso. A gente estava tentando n&atilde;o atolar, e ele pedindo &aacute;gua, pedindo &aacute;gua, pedindo &aacute;gua&#8230; Peguei minha &aacute;gua, uma das minhas tr&ecirc;s [garrafas], e joguei pela janela para ele&rdquo;.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;A&iacute; o Tomas virou para mim, muito s&eacute;rio, em ingl&ecirc;s, e falou: &lsquo;Voc&ecirc; deu a sua &aacute;gua. Se a gente se perder, se a gente tiver um acidente, se a gente ficar parado, quem vai ter menos uma &aacute;gua &eacute; voc&ecirc;. Ele pediu a sua &aacute;gua n&atilde;o &eacute; porque ele n&atilde;o tinha, &eacute; porque ele queria mais uma&rsquo;&rdquo;, conta. &ldquo;A&iacute; entrei em p&acirc;nico porque falei: caraca, &eacute; a lei da selva em pleno deserto! Comecei a entender que aquilo &eacute; uma competi&ccedil;&atilde;o. Veja, eu sou jornalista, nunca tinha participado de competi&ccedil;&atilde;o nenhuma na minha vida, n&atilde;o tinha a menor ideia. Aquilo, para eles, &eacute; absolutamente s&eacute;rio, &eacute; uma quest&atilde;o de vida ou morte. Ent&atilde;o ali tudo vale&rdquo;, frisa.<\/big><\/p>\n<p><big>A rela&ccedil;&atilde;o com Tomas, ali&aacute;s, tinha seus momentos curiosos. O tcheco delegou algumas fun&ccedil;&otilde;es para Leilane, inclusive cuidar da buzina do caminh&atilde;o. No primeiro momento, a jornalista estranhou a miss&atilde;o, mas o piloto garantiu que ela entenderia a import&acirc;ncia daquele trabalho. E foi isso mesmo o que aconteceu.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Primeiro largam as motos, depois largam os carros, por &uacute;ltimo largam os caminh&otilde;es. O nosso caminh&atilde;o era t&atilde;o competitivo que a gente passava pelos carros, os menos competitivos, e cheg&aacute;vamos, inclusive, a alcan&ccedil;ar algumas motos&rdquo;, afirma Leilane. &ldquo;E, &agrave;s vezes, o Tomas vinha no meio do deserto, porque n&atilde;o tem uma estrada, &eacute; uma pista sem fim, uma pista larga ao que os seus olhos podem ver, mas, como voc&ecirc; tem uma coisa chamada roadbook [planilha de navega&ccedil;&atilde;o], voc&ecirc; deve se manter num par&acirc;metro ali de 10 km daquilo que foi tra&ccedil;ado, at&eacute; porque, se voc&ecirc; sair, voc&ecirc; pode pegar uma mina, pode explodir o caminh&atilde;o, porque tem problemas geopol&iacute;ticos, tem terrorismo, aquela beleza toda&#8230; Ent&atilde;o vai todo mundo mais ou menos com um c&aacute;lculo de 10 km, no mesmo trilho. E, &agrave;s vezes, voc&ecirc; via uma pessoa competindo de moto, e o Tomas com um caminh&atilde;o de 12 toneladas fungando no cangote do cara que estava na moto&rdquo;, relembra.&nbsp;<\/big><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/2019116190964_TatraAlta_O.jpg\" width=\"1600\" height=\"1087\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">\n<p>&ldquo;Quando ele me deu a buzina, eu olhei para ele e disse: &lsquo;Voc&ecirc; est&aacute; de sacanagem, n&eacute;? Voc&ecirc; est&aacute; me dando a buzina porque eu sou mulher. Isso &eacute; brincadeira sua, n&eacute;? Que papo &eacute; esse?&rsquo;. E ele falou: &lsquo;Buzina &eacute; importante. Voc&ecirc; vai aprender que &eacute; importante&rsquo;&rdquo;, relata. &ldquo;Nesse dia, lembro que a gente estava &#039;grudado&#039; no pesco&ccedil;o do competidor de moto, a&iacute; o Tomas dizia: &lsquo;Buzina&rsquo;. Eu pegava e fazia: &lsquo;pam&rsquo;. &lsquo;Pam, pam&rsquo;. O Tomas ficou bravo comigo e falou: &lsquo;Buzine como um caminhoneiro!&rsquo;. Estava cada vez mais perto do cara! Falei: &lsquo;Ele vai atropelar o cara. Ele vai passar por cima do motoqueiro&rsquo;. E a&iacute; buzinei!&rdquo;, continua.<\/p>\n<p>&ldquo;Porque voc&ecirc; imagina o seguinte:&nbsp;o cara est&aacute; de moto, com o ru&iacute;do da moto no ouvido dele, um capacete, tendo de olhar ele qual &eacute; o caminho, enfim, quando voc&ecirc; buzina na cabe&ccedil;a de um motoqueiro desses, ele quase cai da moto, &eacute; um neg&oacute;cio assustador. Mas ele sai da frente e o caminh&atilde;o vai embora. Porque o Tomas n&atilde;o desacelera. N&atilde;o desacelera. Era um neg&oacute;cio que eu ficava impressionada. Passei a aprender que realmente a buzina tinha muito valor&rdquo;, resume.<\/p>\n<p>Mais experiente no mundo off-road, Azevedo destacou a import&acirc;ncia das fun&ccedil;&otilde;es da jornalista. &ldquo;A Leilane atuou muito no controle dos equipamentos do caminh&atilde;o, analisava dados como motor, temperatura, press&atilde;o dos pneus, ia monitorando tudo isso durante o percurso&rdquo;, explica Andr&eacute;. &ldquo;O Tomas, que era um navegador campe&atilde;o, cuidou da maior parte da navega&ccedil;&atilde;o [Azevedo e o tcheco se revezavam tamb&eacute;m na pilotagem do Tatra]&nbsp;. Eu n&atilde;o tinha nenhuma experi&ecirc;ncia nos caminh&otilde;es, mas j&aacute; tinha a experi&ecirc;ncia de ter navegado nas motos, ent&atilde;o era um bom navegador. E junto com o navegador campe&atilde;o, fizemos uma boa parceria&rdquo;.<\/p>\n<p>Apesar de pouco conhecer Andr&eacute; e de ter conhecido Tomas apenas quando viajou para o rali, o relacionamento do trio n&atilde;o foi um problema na travessia de Europa para &Aacute;frica. Leilane, que contou sua aventura no Dakar no livro &lsquo;Far&oacute;is de Milha&rsquo;, faz quest&atilde;o de exaltar os companheiros de tripula&ccedil;&atilde;o pela confian&ccedil;a depositada em uma estreante.<\/p>\n<p>&ldquo;Eu tenho que agradecer&#8230; Tanto que, no livro que fiz, agrade&ccedil;o muito a eles, porque a confian&ccedil;a que eles tiveram em mim&#8230;&rdquo;, comenta. &ldquo;Falando muito s&eacute;rio, o que acontece na equipe &eacute; o seguinte: se um dos integrantes desiste ou d&aacute; um ataque ou fica com medo ou alguma coisa, a equipe &eacute; desclassificada. Ent&atilde;o, isso &eacute; muito s&eacute;rio. Eles confiaram muito em mim. Se no meio do rali eu dissesse: &lsquo;N&atilde;o quero mais brincar disso, vou embora, estou em p&acirc;nico, estou apavorada&rsquo;, a equipe ia ser desclassificada. Ent&atilde;o eu agrade&ccedil;o profundamente a confian&ccedil;a que eles tiveram em mim&rdquo;.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p> (Caminh\u00e3o Tatra de Andr\u00e9 Azevedo, Tomas Tomecek e Leilane Neubarth (Foto: Andr\u00e9 Azevedo\/Arquivo Pessoal))<\/p><\/div>\n<\/div>\n<h2><big><strong>As dificuldades<\/strong><\/big><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><big>Reconhecida mundialmente por sua dificuldade, especialmente quando acontecia em territ&oacute;rio africano, o Dakar tamb&eacute;m reservou seus perrengues aos tripulantes do caminh&atilde;o #425 em 1999.<\/big><\/p>\n<p><big>Questionada sobre as maiores dificuldades da prova, Leilane recorda de tr&ecirc;s situa&ccedil;&otilde;es distintas. Na oitava especial, disputada entre Nioro, no Mali, e Bobo-Dioulasso, em Burkina Faso, no dia 8 de janeiro, o Tatra foi atingido por tr&aacute;s por um caminh&atilde;o da Kamaz, curiosamente, o mesmo caminh&atilde;o que tinha ajudado o time brasileiro tr&ecirc;s dias antes, ap&oacute;s o #425 atolar. Um segundo susto, portanto.<\/big><\/p>\n<p><big>Na sequ&ecirc;ncia, no dia 11, na d&eacute;cima etapa, o time de Neubarth, Azevedo e Tome\u010dek acabou se perdendo no caminho entre Mopti e Tombouctou, ambas no Mali. O trio saiu quase 50 km do caminho certo.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Eu acho que a pior coisa foi a batida. A gente estava em segundo lugar, passou para terceiro, conseguiu manter o terceiro at&eacute; o final. Mas voc&ecirc; estar num caminh&atilde;o e algu&eacute;m bater por tr&aacute;s em voc&ecirc; foi um momento de muito susto&rdquo;, comenta. &ldquo;Acho que a batida foi um momento muito dif&iacute;cil, atolar no deserto. E tamb&eacute;m teve um dia que a gente se perdeu. Se perder &eacute; angustiante, porque voc&ecirc; est&aacute; perdido, o GPS aponta para um lado, voc&ecirc; n&atilde;o tem para onde perguntar. A gente encontrou um grupo de tuaregues. A&iacute; a o GPS apontava para um lado e os tuaregues apontavam para o outro. E a gente perdido, perdido no meio do deserto. Foi muito dif&iacute;cil, foram momentos assim muitos dif&iacute;ceis. Esses tr&ecirc;s&rdquo;, sublinha.<\/big><\/p>\n<p><big>Esses, no entanto, n&atilde;o foram os &uacute;nicos sinais de alerta da viagem. Em 13 de janeiro, no anoitecer no acampamento de Tichit, na Maurit&acirc;nia, o trio soube que um grupo de competidores tinha sido rendido em pleno deserto por 15 pessoas. Armados com metralhadoras, os guerrilheiros levaram dinheiro e equipamentos. Sete equipes acabaram a p&eacute; no deserto.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;O assalto aconteceu uma meia hora depois que a nossa equipe passou. A gente j&aacute; tinha passado naquele momento, ent&atilde;o eu j&aacute; tinha montado minha barraca, j&aacute; estava me preparando ali para comer, quando a gente viu um burburinho no acampamento&rdquo;, lembra Leilane. &ldquo;A&iacute;, quando a gente foi perguntar, eram v&aacute;rias equipes que tinham sido assaltadas, tinham perdido d&oacute;lar, passaporte, muita coisa. Foi bem ruim. Criou um clima muito tenso no rali. Ficou todo mundo muito mal&rdquo;, destaca.<\/big><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20191161850872_LeilaneDakar_O.jpg\" width=\"1600\" height=\"821\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">Em pleno Saara, a caravana do Dakar teve de conviver lado a lado com tuaregues armados <\/div>\n<\/div>\n<p><big>Andr&eacute; tamb&eacute;m conta suas mem&oacute;rias sobre o dia em que a viol&ecirc;ncia atingiu a caravana do Dakar e lembra que, caso tivessem demorado um pouco mais para resolver um problema com o Tatra, estariam entre as v&iacute;timas dos bandidos.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Tivemos um sistema de freio-motor, que era uma borboleta que encapa o escapamento. Essa borboleta quebrou. Ent&atilde;o, o Tomas, muito sabiamente, percebeu o problema, paramos o caminh&atilde;o, e fomos soldar a borboleta aberta. Era finalzinho da tarde, faltavam uns 70 km para chegar ao acampamento&rdquo;, recorda. &ldquo;Quando chegamos, soubemos no jantar que quem permaneceu &agrave; noite na especial tinha passado por um arrast&atilde;o muito s&eacute;rio, como acontece no Rio de Janeiro, s&oacute; que foi l&aacute; no Mali. As pessoas pararam mais de 50 ve&iacute;culos e roubaram documentos, roubaram tudo. Ent&atilde;o, se a gente tivesse demorado para consertar o caminh&atilde;o, ent&atilde;o poder&iacute;amos ter encarado esse arrast&atilde;o. Foi o divino que nos ajudou, porque o diagn&oacute;stico foi r&aacute;pido e a solu&ccedil;&atilde;o foi r&aacute;pida. A&iacute; n&atilde;o andamos tanto &agrave; noite pelo deserto, enquanto outros, que demoraram um pouco mais, passaram por esse arrast&atilde;o&rdquo;, frisa.<\/big><\/p>\n<p><big>O tripulante tcheco, ali&aacute;s, j&aacute; tinha experimentado a viol&ecirc;ncia que atingia o Dakar em tempos de &Aacute;frica.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;O Tomas, em 1998, passou por algo assim. Ele estava no caminh&atilde;o de assist&ecirc;ncia, n&atilde;o no caminh&atilde;o de competi&ccedil;&atilde;o. E foi a mesma situa&ccedil;&atilde;o: &agrave; noite&rdquo;, conta Andr&eacute;. &ldquo;Quando esse caminh&atilde;o sobe uma duna, acontece um barulho estranho, e a&iacute; ele v&ecirc; outro caminh&atilde;o da Tatra parado e cheio de tuaregues em volta. Os caras tinham atirado os pneus do caminh&atilde;o, fizeram as duas tripula&ccedil;&otilde;es descerem, colocaram todos sentados, com as metralhadoras apontadas para eles, limparam o caminh&atilde;o que estava com os pneus furados, colocaram tudo no caminh&atilde;o em que o Tomas estava e foram embora em meio ao deserto. E os tchecos s&oacute; foram resgatados na manh&atilde; do dia seguinte&rdquo;, relata.<\/big><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20191162057106_WhatsApp Image 2019-01-16 at 19.49.47_O.jpeg\" width=\"1280\" height=\"960\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">\n<p>As li&ccedil;&otilde;es<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A maioria dos participantes do Dakar coloca a prova como uma jornada de autoconhecimento. Depois de in&uacute;meras adversidades, as pessoas acabam saindo diferentes do rali.<\/p>\n<p>&ldquo;Mudou muita coisa. Mudou muita coisa na minha vida. Primeiro, comecei a dar valor a uma cama muito mais. A um banho. Banho para tomar todo dia. &Eacute; um valor inestim&aacute;vel voc&ecirc; poder tomar banho todo dia. &Eacute; uma ben&ccedil;&atilde;o&rdquo;, conta Leilane. &ldquo;Voc&ecirc; ter uma fam&iacute;lia, porque voc&ecirc; fica sozinho. &Eacute; voc&ecirc; e voc&ecirc;. E a sua equipe. E voc&ecirc; convive com aquelas pessoas, dia e noite, noite e dia, agarrada numa cadeira de caminh&atilde;o. Voc&ecirc; n&atilde;o pode chorar, voc&ecirc; n&atilde;o pode nada, porque est&aacute; todo mundo passando a mesma dificuldade&rdquo;, continua.<\/p>\n<p>&ldquo;Ent&atilde;o n&atilde;o adianta ficar &lsquo;ah, mulherzinha t&aacute; chorando&rsquo;. N&atilde;o! T&aacute; todo mundo sofrendo. Homem, mulher, todo mundo. Ent&atilde;o n&atilde;o d&aacute; para reclamar. Dor de cabe&ccedil;a, ang&uacute;stia, medo, o que quer que voc&ecirc; tenha, voc&ecirc; tem que resolver com voc&ecirc;&rdquo;, ressalta. &ldquo;E mesmo a ang&uacute;stia de chegar ao final. Porque tem uma hora que o caminh&atilde;o foi quebrando de uma tal maneira que eu comecei a temer que a gente n&atilde;o conseguisse completar a prova. Ent&atilde;o o medo de voc&ecirc; n&atilde;o conseguir chegar no final, porque a gente estava em terceiro, ent&atilde;o a&iacute; voc&ecirc; come&ccedil;a a ficar contaminada por aquela vontade de terminar logo aquela corrida. E a&iacute; voc&ecirc; fica rezando para aquilo acabar logo. Voc&ecirc; n&atilde;o aguenta mais. Tem uma hora que &eacute; muito pesado, &eacute; muito pesado. Quando acabou, a primeira coisa que eu fiz \u2015 eu fiquei muito feliz \u2015 e a&iacute;, depois, quando eu cheguei no quarto, porque finalmente era um hotel, eu abri a boca a chorar. Sozinha. Sozinha&rdquo;, revelou.<\/p>\n<p>O esfor&ccedil;o da estreante, por&eacute;m, foi reconhecido por seus companheiros de equipe.<\/p>\n<p>&ldquo;Ela foi muito guerreira. Imagina: calor durante o dia, frio &agrave; noite, falta de banho, falta de conforto&#8230; tudo isso envolve muito o psicol&oacute;gico da gente&rdquo;, indica Andr&eacute;. &ldquo;N&atilde;o &eacute; um Dakar como hoje, que tem dez dias e o pessoal dorme no motorhome, dorme em hotel, tem muita etapa em la&ccedil;o&#8230; Naquela etapa&nbsp;nossa, o rali era itinerante, e foi uma prova de extremo frio no norte da &Aacute;frica, um calor intenso quando a gente estava no meio da &Aacute;frica, a caminho de Dacar, e foram todas situa&ccedil;&otilde;es-limite vividas em alta velocidade&rdquo;, destaca o brasileiro pioneiro no maior rali do mundo.<br \/>\n&nbsp;<\/p><\/div>\n<\/div>\n<h2><big><strong>Orgulho das mulheres<\/strong><\/big><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><big>Al&eacute;m do feito nacional, a edi&ccedil;&atilde;o de 1999 ficou marcada por uma conquista &eacute;pica no Dakar. Naquele ano, a alem&atilde; Jutta Kleinschmidt, acompanhada da navegadora Tina Th&ouml;rner, se converteu na primeira mulher a vencer uma especial do Rali Dakar. E o fez duas vezes, al&eacute;m de ter liderado o rali na disputa entre os carros.<\/big><\/p>\n<p><big>Questionada sobre o impacto que o feito de Jutta teve no acampamento, Leilane recordou: &ldquo;Foi forte. Foi muito forte&rdquo;.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Foi muito forte, porque ela fazia equipe com o marido dela e a&iacute; ela largou o marido \u2015 n&atilde;o largou o marido, mas eles abriram duas equipes e ela estava correndo com uma outra mo&ccedil;a. Ent&atilde;o foi, para gente que era mulher, uma emo&ccedil;&atilde;o muito grande. Muito grande&rdquo;, comenta.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Para todas as mulheres do rali. N&atilde;o eram muitas, mas eram umas, sei l&aacute;, 10% do rali. Hoje eu j&aacute; n&atilde;o lembro de cabe&ccedil;a, mas eu lembro que todas as mulheres ficaram muito orgulhosas de ter aquela alem&atilde; vencendo aquela etapa&rdquo;, completa.<\/big><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20191162028621_JuttaKleinschmidt_O.jpg\" width=\"1375\" height=\"687\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">Jutta Kleinschmidt fez hist\u00f3ria no Dakar de 1999. Dois anos depois, a alem\u00e3 venceria a competi\u00e7\u00e3o (Jutta Kleinschmidt)<\/div>\n<\/div>\n<h2><big><strong>Mem&oacute;rias<\/strong><\/big><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><big>20 anos ap&oacute;s conquistar o terceiro lugar em sua primeira e &uacute;nica participa&ccedil;&atilde;o no Dakar, Leilane guarda na mem&oacute;ria as imagens das paisagens africanas.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Melhor lembran&ccedil;a? Tem uma lembran&ccedil;a dos olhos que &eacute; inesquec&iacute;vel. O deserto &eacute; uma coisa que, como a gente n&atilde;o tem, fico imaginando que, para um gringo, a nossa floresta deve ser muito emocionante, porque eles n&atilde;o t&ecirc;m a Floresta Amaz&ocirc;nica. Mas a gente n&atilde;o tem um deserto como o Saara. O Saara &eacute; uma coisa encantadora&rdquo;, conta. &ldquo;Quando voc&ecirc; olha em volta e n&atilde;o tem uma &uacute;nica montanha, n&atilde;o tem um &uacute;nico relevo, parece aquela coisa &lsquo;Show de Truman&rsquo; que, se voc&ecirc; esticar m&atilde;o, vai alcan&ccedil;ar o c&eacute;u, porque voc&ecirc; n&atilde;o tem a refer&ecirc;ncia de altura. Ent&atilde;o a impress&atilde;o que voc&ecirc; tem &eacute; que o c&eacute;u est&aacute; na sua cabe&ccedil;a&rdquo;, segue.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Ent&atilde;o tenho lembran&ccedil;as de p&ocirc;r do sol, tenho lembran&ccedil;as das dunas, tem dunas de todas as cores no deserto, de todo tipo: dunas com pedra, dunas com areia, com areia fofa, &eacute; uma coisa encantadora&rdquo;, destaca. &ldquo;Ent&atilde;o tenho uma lembran&ccedil;a muito viva das imagens, que eram muita lindas, e tenho uma lembran&ccedil;a muito bonita de equipe. Trabalhar em equipe&#8230; televis&atilde;o &eacute; equipe e acho muito legal trabalhar em equipe. E o Dakar &eacute; equipe. Sem equipe, voc&ecirc; n&atilde;o faz nada&rdquo;, reconhece.<\/big><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20191161848703_TomasLeilaneAndre_O.jpg\" width=\"1595\" height=\"791\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">Tomas, Leilane e Azevedo alcan\u00e7aram o inesperado no Granada-Dakar 1999 ((Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Mem\u00f3ria Globo))<\/div>\n<\/div>\n<p><big>Perguntada, ent&atilde;o, se j&aacute; teve vontade de retornar ao Dakar, Leilane confessa que n&atilde;o pretende se aventurar de novo, tamb&eacute;m por j&aacute; ter conseguido um resultado melhor do que o esperado.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Olha, os meninos me convidaram. Uma vez eles me convidaram para voltar, ligavam para mim dois ou tr&ecirc;s anos depois. O Tomas dizia: &lsquo;Leilane, we are missing you!&rsquo; [&ldquo;Leilane, n&oacute;s sentimos sua falta&rdquo;, em portugu&ecirc;s]. Era muito bonitinho de ouvir&rdquo;, entrega. &ldquo;Mas acho assim: eu sou a &uacute;nica sul-americana a ter participado dessa corrida, que j&aacute; nem existe mais, cheguei em terceiro lugar. Isso &eacute; que nem voc&ecirc; fazer um full-hand no p&ocirc;quer, um, sei l&aacute;, o valor m&aacute;ximo no p&ocirc;quer. A possibilidade de isso n&atilde;o se repetir &eacute; grande&rdquo;.<\/big><\/p>\n<p><big>&ldquo;Eu tinha chegado em terceiro. Para quem n&atilde;o esperava nem chegar, estava bom demais. Falei: &lsquo;Para que vou repetir uma coisa que eu j&aacute; fiz com sucesso?&rsquo;. E eu n&atilde;o sou de esporte. Fiz alguns outros ralis no Brasil quando eu voltei a convite da Mitsubishi, eu participei de v&aacute;rios ralis, &eacute; uma del&iacute;cia, mas eu sou jornalista, n&atilde;o sou corredora de rali&rdquo;, conclui.<\/big><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H&aacute; exatos 20 anos, uma tripula&ccedil;&atilde;o brasileira estreou no Rali Dakar na categoria dos caminh&otilde;es. 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