{"id":926,"date":"2020-02-19T06:00:00","date_gmt":"2020-02-19T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/grandepremium\/materias\/transformacao-que-sai-com-agua\/"},"modified":"2020-02-19T06:00:00","modified_gmt":"2020-02-19T09:00:00","slug":"transformacao-que-sai-com-agua","status":"publish","type":"42wp_premium","link":"https:\/\/grandepremio.com\/br\/grandepremium\/formula-e\/materias\/transformacao-que-sai-com-agua\/","title":{"rendered":"Transforma\u00e7\u00e3o que sai com \u00e1gua"},"content":{"rendered":"\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita foi protagonista no esporte a motor entre a reta final de 2019 e os primeiros dias de 2020. Palco de F\u00f3rmula E e Rali Dakar, o maior pa\u00eds \u00e1rabe do mundo aproveitou as duas categorias para exibir suas belas paisagens e poderio financeiro.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Segunda maior reserva de petr\u00f3leo do mundo, a Ar\u00e1bia Saudita tem os olhos postos na F\u00f3rmula 1 e ainda tenta cavar um espa\u00e7o no calend\u00e1rio da principal categoria do automobilismo.<\/p>\n<div style=\"float: left;margin-right: 15px;margin-bottom: 15px\"><\/div>\n<p>O esporte a motor, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico alvo da monarquia absolutista isl\u00e2mica do rei Salman bin Abdul Aziz Al-Saud. Tamb\u00e9m na primeira metade de janeiro, a Ar\u00e1bia Saudita recebeu a Supercopa da Espanha, que terminou com a vit\u00f3ria do Atl\u00e9tico de Madrid em cima do Real Madrid.<\/p>\n<p>Tudo isso faz parte do chamado \u2018Vis\u00e3o 2030\u2019, um plano apresentado em 2016 pelo pr\u00edncipe Mohammed Bin Salman que tem como meta reduzir a depend\u00eancia da Ar\u00e1bia Saudita do petr\u00f3leo, diversificar a economia e desenvolver setores como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, infraestrutura, recrea\u00e7\u00e3o e turismo.<\/p>\n<p>Para isso, por\u00e9m, a Ar\u00e1bia Saudita precisa mudar a imagem que tem no mundo. Um panorama que, por sinal, piorou em 2018, ap\u00f3s a morte do jornalista Jamal Khashoggi \u2015 torturado, assassinado e desmembrado em outubro do ano passado no consulado saudita em Istambul, na Turquia.<\/p>\n<p>Num cen\u00e1rio como esse, o esporte serve como uma alternativa para mostrar uma outra Ar\u00e1bia Saudita. O Rali Dakar, por exemplo, transmitiu ao mundo imagens das belezas naturais do pa\u00eds. A Supercopa, por sua vez, mostrou homens e mulheres dentro de um mesmo est\u00e1dio de futebol, algo bastante incomum na realidade saudita.<\/p>\n<p>O problema, por\u00e9m, \u00e9 que essa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece ser assim t\u00e3o efetiva. A Ar\u00e1bia Saudita ainda \u00e9 uma ditadura, um dos pa\u00edses mais fechados do mundo e um lugar onde os direitos humanos e das mulheres s\u00e3o constantemente violados.<\/p>\n<p><strong>Conhe\u00e7a o canal do Grande Pr\u00eamio no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/GrandePremioTV\">YouTube<\/a>.<br \/>\nSiga o Grande Pr\u00eamio no\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/grandepremio\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Twitter\u00a0<\/a>e no\u00a0<a href=\"https:\/\/instagram.com\/grandepremio\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instagram<\/a>.<\/strong><\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20202181254173_6-1017003956-LAT-20181215-_W6I9595_O.jpg\" width=\"1600\" height=\"1066\" \/><\/div>\n<blockquote class=\"destaque-imagem\"><p>F\u00f3rmula E tamb\u00e9m realiza etapas na Ar\u00e1bia Saudita (Foto: F\u00f3rmula E)<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<h1><strong>Raio-x da Ar\u00e1bia Saudita<\/strong><\/h1>\n<p>O que diferencia a Ar\u00e1bia Saudita de outros pa\u00edses isl\u00e2micos est\u00e1 na interpreta\u00e7\u00e3o do islamismo. Os sauditas seguem o wahabismo \u2015 de fato, a origem desta vertente est\u00e1 atrelada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Ar\u00e1bia Saudita \u2015, a forma mais r\u00edgida e conservadora do Isl\u00e3.<\/p>\n<p>Conhecido popularmente como a m\u00e3e de todos os movimentos fundamentalistas, o wahabismo \u00e9, tamb\u00e9m, o \u2018pai ideol\u00f3gico\u2019 do Estado Isl\u00e2mico. A Ar\u00e1bia Saudita, inclusive, \u00e9 acusada de ajudar voluntariamente a conseguir recrutas para o grupo terrorista.<\/p>\n<div style=\"float: left;margin-right: 15px;margin-bottom: 15px\"><\/div>\n<p>Mestre em Ci\u00eancia pela USP (Universidade de S\u00e3o Paulo) e doutorando em Geografia pela Unicamp (Universidade de Campinas), Edilson Ad\u00e3o C\u00e2ndido da Silva explicou ao <strong>GRANDE PREMIUM<\/strong> que a \u201ccorrente wahabista diferencia bastante\u201d a Ar\u00e1bia Saudita dos demais pa\u00edses isl\u00e2micos.<\/p>\n<p>\u201cA Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 uma ditadura mon\u00e1rquica teocr\u00e1tica, com forte peso do wahabismo. \u00c9 o maior representante dessa vertente isl\u00e2mica, que se pauta por forte conservadorismo dos valores do Isl\u00e3 e \u00e9 a religi\u00e3o oficial do pa\u00eds\u201d, aponta Edilson. \u201cRealiza uma leitura literal dos tempos de Maom\u00e9, tenta aplic\u00e1-la aos dias atuais e persegue quem a contraria. Os xiitas, por exemplo, s\u00e3o duramente perseguidos, quando n\u00e3o, executados\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cA origem dessa corrente reside no s\u00e9culo XIX, quando do encontro de duas fam\u00edlias importantes (Wahab e Saud). Ali nasceu uma alian\u00e7a indissoci\u00e1vel entre os patriarcas dos dois cl\u00e3s tribais. O \u00e1pice se deu nos anos 20 do s\u00e9culo passado com a funda\u00e7\u00e3o da Ar\u00e1bia dos Saud, ou Ar\u00e1bia Saudita, pelo patriarca, Abdul Aziz ibn Saud, pai do rei atual. O salafismo wahabita dita a conduta comportamental da sociedade por l\u00e1\u201d, detalha.<\/p>\n<p>Autor de \u2018Oriente M\u00e9dio: a g\u00eanese das fronteiras\u2019 e coautor de \u2018Geografia em Rede\u2019, Silva acredita que a Ar\u00e1bia Saudita vai manter sua import\u00e2ncia ainda por um longo per\u00edodo de tempo.<\/p>\n<p>\u201c[\u00c9] uma pot\u00eancia regional aliada dos Estados Unidos e pe\u00e7a imprescind\u00edvel no tabuleiro de xadrez geopol\u00edtico do Oriente M\u00e9dio\u201d, fala. \u201cAs riquezas petrol\u00edferas do pa\u00eds (atualmente a segunda maior reserva, mas com qualidade do \u00f3leo bem superior \u00e0s venezuelanas, que det\u00e9m o primeiro lugar) compor\u00e3o, ainda, por muitas d\u00e9cadas a import\u00e2ncia energ\u00e9tica mundial, j\u00e1 que o petr\u00f3leo ter\u00e1 vida longa\u201d, segue.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um pa\u00eds rico e a pobreza n\u00e3o \u00e9 um grande dilema, mas, sim, a falta de liberdade e dos direitos civis\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, ali\u00e1s, vem de longa data.<\/p>\n<p>\u201cA Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 um pa\u00eds muito rico por conta dos petrod\u00f3lares. N\u00e3o podemos nos esquecer tamb\u00e9m que \u00e9 o principal aliado mu\u00e7ulmano do ocidente e uma plataforma anti-Ir\u00e3 na regi\u00e3o \u2015 o pa\u00eds persa \u00e9 aliado da R\u00fassia. Aliada dos Estados Unidos desde os anos 1930, posteriormente, por meio do CCG (Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Golfo), a Ar\u00e1bia Saudita tornou-se o pa\u00eds mais pr\u00f3-Washington do Golfo P\u00e9rsico\u201d, relata Edilson. \u201cTamb\u00e9m \u00e9 grande compradora da ind\u00fastria b\u00e9lica norte-americana\u201d, indica.<\/p>\n<p>Num cen\u00e1rio como este, n\u00e3o \u00e9 surpresa que a Ar\u00e1bia Saudita se interesse por esportes que movimentam grandes somas.<\/p>\n<p>\u201cA aproxima\u00e7\u00e3o por meio desses esportes, que movimentam bilh\u00f5es de d\u00f3lares, est\u00e1 indissociavelmente ligada ao espectro geopol\u00edtico regional\u201d, opina. \u201cE h\u00e1 uma forte divis\u00e3o na fam\u00edlia saudita composta por mais de sete mil pr\u00edncipes. O atual pr\u00edncipe herdeiro tenta vender ao mundo uma question\u00e1vel ideia de modernidade do regime para se fortalecer perante aos rivais internos\u201d, detalha.<\/p>\n<p>Questionado pelo <strong>GP*<\/strong> sobre a situa\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e da opress\u00e3o \u00e0s mulheres, o doutorando da Unicamp responde: \u201cAs cr\u00edticas [s\u00e3o] para l\u00e1 de pertinentes e eu diria menos at\u00e9 do que deveria se compararmos \u00e0s atrocidades que o pa\u00eds pr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDurantes anos, vimos a m\u00eddia ocidental demonizando o Ir\u00e3 \u2015 que tamb\u00e9m tem seus problemas \u2015 e tecendo cr\u00edticas bem mais suaves em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 monarquia petrol\u00edfera\u201d, recorda. \u201cAs leis em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres s\u00e3o as mais retr\u00f3gradas poss\u00edveis, excluindo-as de muitas atividades, como a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Bem diferente do que ocorre no Ir\u00e3 ou entre os palestinos, onde as mulheres t\u00eam forte participa\u00e7\u00e3o\u201d, compara.<\/p>\n<p>\u201cO cotidiano da mulher no pa\u00eds \u00e9 marcado pela submiss\u00e3o aos homens, a quem devem pedir permiss\u00e3o para uma s\u00e9rie de iniciativas, como viajar ao exterior, por exemplo. S\u00f3 recentemente foram autorizadas a dirigir. As reformas para amenizar esse quadro t\u00eam sido bem t\u00edmidas\u201d, opina. \u201cQuanto aos direitos humanos, \u00e9 um dos pa\u00edses que mais os desrespeitam e os ativistas s\u00e3o duramente reprimidos, al\u00e9m de ser um dos pa\u00edses que mais pratica a pena de morte. Quando n\u00e3o, simplesmente o reino pratica a execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria, como foi o caso do jornalista saudita Jamal Khashoggi, executado na embaixada saudita da Turquia\u201d, cita.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o precisa ir longe: o Estado Isl\u00e2mico, provavelmente o grupo mais repugnante e truculento que surgiu nos \u00faltimos anos, n\u00e3o obteria sucesso n\u00e3o fosse o apoio velado da Ar\u00e1bia Saudita de suas a\u00e7\u00f5es na S\u00edria, regime de quem \u00e9 inimiga\u201d, sublinha.<\/p>\n<p>Ainda, o pesquisador v\u00ea uma \u201cm\u00ednima\u201d mudan\u00e7a cultural na Ar\u00e1bia Saudita com as reformas recentes.<\/p>\n<p>\u201cA Ar\u00e1bia Saudita est\u00e1 atrasada em quase um s\u00e9culo quanto a essas quest\u00f5es\u201d, insiste.<\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20202181225308_20200108DAK1004-A.S.O C.Lopez_O.jpg\" width=\"1500\" height=\"1001\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">Mostrar a beleza natural da Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 uma maneira de ofuscar a realidade local (Foto: C.Lopez\/ASO\/DPPI)<\/div>\n<\/div>\n<h1><strong>Esporte como m\u00e1quina de lavar<\/strong><\/h1>\n<p>A presen\u00e7a dos esportes ocidentais no territ\u00f3rio saudita gerou muitas criticas por conta da tentativa do reino de usar essas competi\u00e7\u00f5es como uma esp\u00e9cie de m\u00e1quina de lavar. H\u00e1 uma tentativa de mostrar uma imagem diferente daquela de pa\u00eds que mata opositores e estrangula direitos.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do in\u00edcio do Rali Dakar, a Rep\u00f3rteres Sem Fronteiras, uma ONG que defende a liberdade de express\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o, emitiu uma nota pedindo que os envolvidos na disputa n\u00e3o servissem de propaganda e tampouco ajudassem a esconder a realidade saudita \u201cmenos atrativa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA Rep\u00f3rteres Sem Fronteiras (RSF) pede que jornalistas, organizadores e participantes do Rali Dakar 2020, que come\u00e7ar\u00e1 na cidade saudita de Jed\u00e1 no domingo (5 de janeiro), n\u00e3o sirvam de atores na opera\u00e7\u00e3o de propaganda do regime saudita e, assim, desviem a aten\u00e7\u00e3o da outra realidade menos atraente da Ar\u00e1bia Saudita\u201d, diz a nota. \u201cA decis\u00e3o de realizar o prestigioso Rali Dakar na Ar\u00e1bia Saudita pela primeira vez deu aos governantes do pa\u00eds uma oportunidade sem precedentes de recuperar sua imagem e fazer o mundo esquecer suas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, incluindo a supress\u00e3o sistem\u00e1tica da liberdade de imprensa\u201d, segue.<\/p>\n<p>\u201cOs participantes e organizadores do Rali Dakar 2020, e os jornalistas que o cobrem, ficar\u00e3o, inevitavelmente, deslumbrados com a beleza do deserto e as maravilhas arquitet\u00f4nicas do reino. Mas a RSF pede que eles n\u00e3o permitam que o regime saudita explore sua presen\u00e7a em sua opera\u00e7\u00e3o de propaganda. Eles n\u00e3o devem esquecer e nem ajudar os outros a esquecerem a natureza terr\u00edvel de um regime baseado em repress\u00e3o pol\u00edtica, social e cultural, controle da imprensa, pris\u00e3o de jornalistas e muitos outros abusos\u201d, listou.<\/p>\n<div style=\"float: left;margin-right: 15px;margin-bottom: 15px\"><\/div>\n<p>\u201cApesar do discurso sobre reforma e apesar da introdu\u00e7\u00e3o de algumas reformas reais, Mohammad Bin Salman intensificou a repress\u00e3o desde sua nomea\u00e7\u00e3o como pr\u00edncipe herdeiro em 2017. Opositores pol\u00edticos de todos os tipos e em todas as esferas est\u00e3o sendo monitorados e perseguidos com uma intensidade sem precedentes\u201d, denuncia. \u201cO n\u00famero de jornalistas e jornalistas-cidad\u00e3os detidos triplicou nos \u00faltimos dois anos. A maioria est\u00e1 sendo realizada arbitrariamente. Jornalistas podem ser demitidos ou detidos sob as disposi\u00e7\u00f5es do c\u00f3digo criminal ou sob as leis do terrorismo ou crime cibern\u00e9tico sob a acusa\u00e7\u00e3o de blasf\u00eamia, insulto \u00e0 religi\u00e3o, incita\u00e7\u00e3o ao caos, comprometimento da unidade nacional ou \u2018dano \u00e0 imagem e reputa\u00e7\u00e3o do rei e do Estado\u2019\u201d, indica o texto.<\/p>\n<p>\u201cPoucas pessoas v\u00e3o esquecer o destino de Jamal Khashoggi, o conhecido jornalista que foi assassinado dentro do Consulado em Istambul, na Turquia, em outubro de 2018, e cujo corpo foi desmembrado para facilitar sua remo\u00e7\u00e3o\u201d, lembra. \u201cA Ar\u00e1bia Saudita est\u00e1 classificada na 172\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre 180 pa\u00edses no ranking de 2019 da RSF no \u00cdndice Mundial de Liberdade de Imprensa\u201d.<\/p>\n<p>Secret\u00e1rio-geral da RSF, Christophe Deloire completou: \u201cAs c\u00e2meras v\u00e3o mostrar a ineg\u00e1vel beleza do deserto saudita, mas n\u00e3o devem desviar a aten\u00e7\u00e3o das terr\u00edveis realidades do pa\u00eds. Este rali dar\u00e1 aos jornalistas uma oportunidade \u00fanica de atravessar esse vasto pa\u00eds, que geralmente \u00e9 dif\u00edcil de acessar. Mas pedimos a eles que cubram a corrida sem esquecer que tamb\u00e9m \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\u201d, frisou.<\/p>\n<p>A Anistia Internacional tamb\u00e9m denuncia sistematicamente as viola\u00e7\u00f5es da Ar\u00e1bia Saudita. E, em contato com o <strong>GRANDE PREMIUM<\/strong>, a pesquisadora Dana Ahmed tamb\u00e9m alerta para o aumento da repress\u00e3o ao mesmo tempo em que os sauditas usam o esporte como ferramenta de propaganda.<\/p>\n<p>\u201cA Ar\u00e1bia Saudita intensificou seus esfor\u00e7os para usar o esporte como forma de melhorar a p\u00e9ssima reputa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds por causa das s\u00e9rias viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos de que \u00e9 respons\u00e1vel ao receber grandes eventos esportivos. A Ar\u00e1bia Saudita tem um hist\u00f3rico terr\u00edvel com direitos humanos, o que s\u00f3 deteriora m\u00eas ap\u00f3s m\u00eas\u201d, diz Ahmed. \u201cEnquanto a organiza\u00e7\u00e3o de um evento de alto n\u00edvel como o Rali Dakar est\u00e1 sendo manchete internacional, as autoridades aumentaram a repress\u00e3o \u00e0s liberdades de express\u00e3o, associa\u00e7\u00e3o e reuni\u00e3o e continua a perseguir defensores dos direitos humanos por seu trabalho pacifico de exigir direitos humanos e promover reformas no pa\u00eds\u201d, conta.<\/p>\n<p>O fato de as mulheres terem sido recentemente autorizadas a dirigir foi comemorado por muitos, mas essa \u00e9 uma \u2018liberdade\u2019 que tamb\u00e9m chega entre aspas.<\/p>\n<p>\u201cAs reformas anunciadas no que diz respeito \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de grandes restri\u00e7\u00f5es \u00e0s mulheres s\u00e3o um passo significativo, embora muito atrasado, no direito das mulheres. Essas mudan\u00e7as s\u00e3o um claro testemunho da campanha incans\u00e1vel de ativistas de diretos das mulheres que lutam contra a discrimina\u00e7\u00e3o desenfreada na Ar\u00e1bia Saudita h\u00e1 d\u00e9cadas\u201d, declara Ahmed. \u201cMuitas dessas ativistas est\u00e3o atualmente presas, em julgamento ou enfrentando proibi\u00e7\u00f5es de viagens por seu ativismo pacifico. V\u00e1rias ativistas dos direitos das mulheres detidas durante uma onda de pris\u00f5es no ano passado sofreram tortura, abuso sexual e outras formas de maus-tratos durante os primeiros tr\u00eas meses de deten\u00e7\u00e3o. Elas foram presas incomunic\u00e1veis, sem acesso \u00e0s suas fam\u00edlias ou advogados\u201d, conta.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e1rias ativistas enfrentam acusa\u00e7\u00f5es relacionadas ao seu trabalho com direitos humanos, incluindo \u2018promo\u00e7\u00e3o dos direitos da mulher\u2019 e \u2018apelo pelo fim do sistema de guarda masculina\u2019. Tr\u00eas delas, Loujain al-Hathloul, Samar Badawi e Nassima al-Sada, seguem atr\u00e1s das grades, enquanto outras foram soltas temporariamente, mas seguem sendo julgadas\u201d, detalha. \u201cA Anistia Internacional apela \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o imediata e incondicional de todas as ativistas dos direitos das mulheres e defensores dos direitos humanos, detidos apenas por seu trabalho pac\u00edfico pelos direitos humanos. Tamb\u00e9m pedimos \u00e0s autoridades que retirem todas as acusa\u00e7\u00f5es contra ativistas dos direitos das mulheres\u201d, completa.<\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20202181225596_20200105DAK3013-A.S.O. Horacio Cabilla_O.jpg\" width=\"1500\" height=\"1000\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">Direito das mulheres \u00e9 um dos temas sens\u00edveis na Ar\u00e1bia Saudita (Foto: Horacio Cabilla\/ASO)<\/div>\n<\/div>\n<h1><strong>O caso da Supercopa<\/strong><\/h1>\n<p>Al\u00e9m do esporte a motor, o futebol tamb\u00e9m tem sido usado como plataforma para propagar essa imagem de uma nova Ar\u00e1bia Saudita. No in\u00edcio do ano, o pa\u00eds recebeu a disputa da Supercopa da Espanha e imagens de homens e mulheres num mesmo est\u00e1dio de futebol correram o mundo.<\/p>\n<p>No entanto, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bem assim. Apenas tr\u00eas dias ap\u00f3s o fim da Supercopa, as mulheres voltaram a ser segregadas dentro da arena.<\/p>\n<div style=\"float: left;margin-right: 15px;margin-bottom: 15px\"><\/div>\n<p>Jornalista da emissora espanhola TVE, Raquel Gonz\u00e1lez esteve na Ar\u00e1bia Saudita para cobrir a competi\u00e7\u00e3o e acabou experimentando em primeira m\u00e3o essa misoginia na piscina do hotel.<\/p>\n<p>\u201cT\u00ednhamos ouvido falar que era um espa\u00e7o reservado para os homens e quisemos comprovar em primeira pessoa\u201d, conta Raquel ao <strong>GP*<\/strong>. \u201cNos aproximamos, perguntamos se eu podia nadar e me disseram, com um certo pudor, que n\u00e3o, que s\u00f3 os homens podiam. E isso porque n\u00e3o tinha ningu\u00e9m, a piscina estava completamente vazia\u201d, completa.<\/p>\n<p>Questionada sobre as diferen\u00e7as entre Ar\u00e1bia Saudita e Espanha, Gonz\u00e1lez respondeu: \u201cA mais evidente \u00e9 a vestimenta das mulheres. H\u00e1 uma imensa maioria coberta com o niqab ou com v\u00e9u e abaya (uma esp\u00e9cie de t\u00fanica que as cobre, apesar de estarem com jeans e camiseta por baixo). Al\u00e9m disso, quase todas as mulheres est\u00e3o acompanhadas por um homem ou em grupo. \u00c9 raro v\u00ea-las sozinhas\u201d.<\/p>\n<p>Ainda assim, Raquel n\u00e3o encontrou nenhuma restri\u00e7\u00e3o na hora de realizar seu trabalho na cobertura do evento futebol\u00edstico.<\/p>\n<p>\u201cTrabalhei igual a muitos outros lugares l\u00e1. E n\u00e3o s\u00f3 no que diz respeito a Supercopa (coletivas de imprensa, treinamentos e partidas). Tampouco tive problemas para sair na rua, filmar e fazer perguntas\u201d, explica.<\/p>\n<p>Antes do Dakar, os envolvidos na competi\u00e7\u00e3o receberam uma esp\u00e9cie de guia de boas maneiras, uma s\u00e9rie de orienta\u00e7\u00f5es para os dias em territ\u00f3rio sauditas. Entre as informa\u00e7\u00f5es, estava o fato de que alguns restaurantes separam homens e mulheres. Os profissionais da Supercopa, por\u00e9m, n\u00e3o tiveram orienta\u00e7\u00e3o semelhante.<\/p>\n<p>\u201cTrabalhamos muitas horas e s\u00f3 comi em salas de imprensa e no restaurante do hotel, onde isso n\u00e3o acontece\u201d, relata Raquel. \u201cEm rela\u00e7\u00e3o a falar com os homens, conversei com muitos nesses dias sem problemas. Encontrei gente muito am\u00e1vel e disposta a nos contar coisas\u201d, diz.<\/p>\n<p>Perguntada pelo <strong>GRANDE PREMIUM<\/strong> se se sentia segura em um pa\u00eds com um hist\u00f3rico t\u00e3o grande de viola\u00e7\u00f5es aos diretos humanos, a espanhola respondeu: \u201cN\u00e3o \u00e9 exatamente uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, mas \u00e9 certo que fui a todos os lugares acompanhada da minha equipe, dos meus companheiros. Em qualquer outro lugar, \u00e9 prov\u00e1vel que eu tivesse dado um passeio sozinha\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9, no entanto, incompreens\u00edvel \u2015 salvo pelo aspecto financeiro \u2015 as motiva\u00e7\u00f5es de levar uma competi\u00e7\u00e3o de clubes espanh\u00f3is ao Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>\u201cO debate est\u00e1 na mesa e t\u00eam argumentos em todos os sentidos. S\u00f3 o tempo vai dizer exatamente para que serviu essa Supercopa aqui na Ar\u00e1bia\u201d, conclui Raquel.<\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/2020218133893_82970872_10151980649679953_2451917015909138432_o_O.jpg\" width=\"1500\" height=\"979\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">A Supercopa da Espanha aconteceu na Ar\u00e1bia Saudita em 2020 (Foto: Real Madrid\/Facebook)<\/div>\n<\/div>\n<h1><strong>Espiando pela fresta<\/strong><\/h1>\n<p>Embora pol\u00eamica, a presen\u00e7a da F\u00f3rmula E permitiu que jornalistas tivessem uma chance \u00fanica de conhecer a Ar\u00e1bia Saudita. E um grupo de brasileiros n\u00e3o deixou passar essa oportunidade em 2018.<\/p>\n<p>Ao lado de Felipe UFO, Michel Coeli e Rodrigo Cebrian, Andr\u00e9 Fran aproveitou a \u2018abertura extra\u2019 por causa da s\u00e9rie el\u00e9trica para gravar um epis\u00f3dio da s\u00e9rie \u2018Que Mundo \u00c9 Esse?\u2019, exibida na GloboNews.<\/p>\n<p>Em entrevista ao <strong>GRANDE PREMIUM<\/strong>, Andr\u00e9 falou da primeira experi\u00eancia na Ar\u00e1bia Saudita e dos 20 dias que passou entre a capital Riad e Jed\u00e1.<\/p>\n<div style=\"float: left;margin-right: 15px;margin-bottom: 15px\"><\/div>\n<p>\u201cAntes da F\u00f3rmula E, a gente ainda n\u00e3o tinha tido a oportunidade. Justamente, a gente usou essa brecha da F\u00f3rmula E para entrar l\u00e1 e filmar, pois eles estavam emitindo vistos especiais para quem quisesse assistir \u00e0 corrida\u201d, explica Andr\u00e9. \u201cEnt\u00e3o, como a proposta do programa \u00e9 essa, a gente preencheu, comprou os ingressos para a F\u00f3rmula E, e a\u00ed voc\u00ea ganhava um visto de 20 ou 30 dias, se n\u00e3o me engano. E a gente aproveitou os outros dias para viajar pelo pa\u00eds\u201d, conta.<\/p>\n<p>Acostumado a rodar o mundo na busca de pautas desconhecidas e grandes temas atuais, Fran aponta \u00e9 a leitura radical que a Ar\u00e1bia Saudita faz do islamismo que a diferencia de outros pa\u00edses mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>\u201cA diferen\u00e7a da Ar\u00e1bia Saudita para outros pa\u00edses mu\u00e7ulmanos \u00e9, basicamente, que eles seguem a vertente mais radical do islamismo, que \u00e9 o Wahabismo, que \u00e9 a mesma dos grupos terroristas como Al Qaeda, o pr\u00f3prio Estado Isl\u00e2mico. Ent\u00e3o \u00e9 uma ditadura bem mais sanguin\u00e1ria, tanto que o MBS [a sigla para Mohammed Bin Salman], o pr\u00edncipe, foi acusado de assassinar o jornalista Jamal Khashoggi, tem pena de morte para homossexuais, execu\u00e7\u00f5es por decapita\u00e7\u00e3o na pra\u00e7a p\u00fablica, al\u00e9m do tratamento das mulheres\u201d, segue. \u201cFoi o \u00faltimo pa\u00eds do mundo a permitir que as mulheres dirigissem carros, que elas viajem sozinhas, ent\u00e3o \u00e9 bem mais radical do que outros\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o que tenham outros pa\u00edses mu\u00e7ulmanos que n\u00e3o sejam radicais, mas a Ar\u00e1bia Saudita, realmente, \u00e9 um ponto fora da curva\u201d, comenta. \u201cMas tem pa\u00edses isl\u00e2micos que s\u00e3o abertos tamb\u00e9m, que voc\u00ea tem uma certa dose de liberdade para circular, para as mulheres e tudo mais. Ent\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil categorizar todos como uma coisa s\u00f3, mas, em rela\u00e7\u00e3o a Ar\u00e1bia Saudita, sim, eles s\u00e3o os mais radicais enquanto um reino oficial, um governo oficial aplicando as leis da sharia\u201d, continua.<\/p>\n<p>Ainda, Andr\u00e9 conta que o conservadorismo da popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi um obst\u00e1culo durante os dias de trabalho na Ar\u00e1bia.<\/p>\n<p>\u201cA nossa maior dificuldade para fazer o nosso trabalho era que n\u00e3o s\u00f3 o governo, um governo bastante opressor, mas isso a gente j\u00e1 viu em outras situa\u00e7\u00f5es, quando a gente tinha que filmar mais escondido, n\u00e3o podia revelar exatamente o que a gente estava fazendo e ter maior cuidado para entrevistar as pessoas na popula\u00e7\u00e3o para n\u00e3o exp\u00f4-las a algum risco, mas, no caso, a dificuldade maior \u00e9 que a pr\u00f3pria sociedade \u00e9 muito ultraconservadora, wahabista, na Ar\u00e1bia Saudita, ent\u00e3o eles concordam muito com a forma com que o governo aplica as leis, ent\u00e3o eles mesmos n\u00e3o querem expor muito, ou criticar, ou fazer maiores avalia\u00e7\u00f5es do pa\u00eds deles para o mundo exterior\u201d, explica.<\/p>\n<p>Com a chance de ver a Ar\u00e1bia Saudita em primeira pessoa, Andr\u00e9 identifica claramente esse empenho do reino para transmitir uma imagem diferente ao mundo.<\/p>\n<p>\u201cEu percebi bastante esse esfor\u00e7o do governo saudita de tentar passar esse verniz de normalidade com interesses econ\u00f4micos. Faz parte dessa \u2018Vision 2030\u2019 deles de tentar ser menos dependente do petr\u00f3leo e, assim, se abrir para outros mercados, fazendo v\u00e1rios eventos, como a corrida de F\u00f3rmula E\u201d, fala. \u201cE voc\u00ea via por l\u00e1 cinemas sendo reabertos, a quest\u00e3o das mulheres podendo ir ao show, mas voc\u00ea v\u00ea que \u00e9 s\u00f3 mesmo uma camada para mostrar para o mundo exterior, enquanto nas atitudes mais, da realidade mesmo, do dia-a-dia do pa\u00eds, eles continuam sendo um governo extremamente autorit\u00e1rio religioso\u201d, sublinha.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da mulher \u00e9 dos pontos mais criticados na Ar\u00e1bia Saudita. E, sendo assim, foi tamb\u00e9m um choque para os brasileiros, acostumados com uma cultura diferente.<\/p>\n<p>\u201cFoi bem impactante ver a forma como a mulher \u00e9 tratada na Ar\u00e1bia Saudita, primeiro por elas \u2015 pelos menos as que a gente teve acesso \u2015, mas \u00e9 muito essa impress\u00e3o de que elas concordam com esse tipo de tratamento\u201d, fala Andr\u00e9 ao GP. \u201c\u00c9 uma coisa mais da sociedade, da fam\u00edlia, de n\u00e3o querer envergonhar o pai, ent\u00e3o \u00e9 meio que passado como cultural mesmo. E at\u00e9 por essa quest\u00e3o de voc\u00ea estar em um pa\u00eds rico, por mais que n\u00e3o tenha grandes heran\u00e7as hist\u00f3ricas, mas a gente frequentou shopping center como qualquer um do mundo ocidental, e hot\u00e9is e avenidas e pra\u00e7as, e essas mulheres andando cobertas de preto da cabe\u00e7a at\u00e9 os p\u00e9s, s\u00f3 o olho de fora. Ou seja, \u00e9 diferente quando voc\u00ea v\u00ea num cen\u00e1rio mais de Oriente M\u00e9dio, que voc\u00ea tem no seu imagin\u00e1rio, mas \u00e9 diferente quando voc\u00ea v\u00ea num cen\u00e1rio em que voc\u00ea est\u00e1 acostumado a ver mulheres andando livres e vestindo e agindo como elas querem e voc\u00ea v\u00ea o mesmo cen\u00e1rio com mulheres vivendo dentro das normas de uma sociedade religiosa ultraconservadora isl\u00e2mica\u201d, compara.<\/p>\n<p>Durante a viagem, o grupo brasileiro teve a chance de jantar com uma mulher saudita, um contato incomum, mas que serviu para dar uma ideia melhor da situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cA oportunidade que a gente teve de jantar com essa nossa amiga, virou nossa amiga, era amiga de uma amiga minha, foi interessante para a gente ver, por um lado, confirmar como elas acham natural ou cultural essa forma de tratamento dentro da interpreta\u00e7\u00e3o do wahabismo isl\u00e2mico da Ar\u00e1bia Saudita e, ao mesmo tempo, ela ainda mantinha muitas dessas cren\u00e7as, achava que aquilo l\u00e1 era normal, n\u00e3o era nada de mais, e, ao mesmo tempo, era um pouco mais contestadora, por ter morado fora, por ser mais liberal, pelo pr\u00f3prio fato de ter topado ir jantar com estrangeiros sozinha\u201d, relata. \u201cEla, mesmo sendo mais progressista, voc\u00ea via que ela ainda tinha dentro dela muito normalizado esse tipo de tratamento. O pr\u00f3prio fato dela n\u00e3o dirigir ou da mulher n\u00e3o poder dirigir, ela achava que n\u00e3o era nada demais, que elas tinham condi\u00e7\u00e3o de ter motorista, ent\u00e3o esse tipo de coisa ilustra bastante\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Apesar do hist\u00f3rico de viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos, o grupo brasileiro n\u00e3o chegou a se sentir amea\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o chegou a ter pela nossa seguran\u00e7a exatamente, at\u00e9 por conta de saber que eles est\u00e3o querendo passar uma imagem mais aberta, entre muitas aspas, para o mundo exterior\u201d, conta Andr\u00e9. \u201cEnt\u00e3o o m\u00e1ximo que aconteceria seria uma deporta\u00e7\u00e3o. Mas, sim, \u00e9 um lugar que \u00e9 extremamente fechado, que a gente o tempo todo sabia que estava registrando no limite do que era poss\u00edvel\u201d, continua.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do esporte, Andr\u00e9 avalia que o reino saudita tamb\u00e9m se vale das redes sociais para tentar mostrar uma imagem mais positiva ao mundo.<\/p>\n<p>\u201cEu acho que o reino do Bin Salman est\u00e1 usando bastante os esportes e tamb\u00e9m a internet. Voc\u00ea v\u00ea muitos influencers viajando agora a convite para a Ar\u00e1bia Saudita, tirando fotos de lugares bonitos, mas sem contextualizar, sem colocar quest\u00f5es de respeito aos direitos humanos, ao direito das mulheres e tudo mais em quest\u00e3o\u201d, recorda. \u201cOu seja, \u00e9 realmente um perigo de passar, de ir mudando essa imagem pouco a pouco. E hoje em dia, o pouco a pouco \u00e9 r\u00e1pido pela velocidade da internet, da superficialidade da comunica\u00e7\u00e3o nas redes sociais, ent\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia inteligente. Cabe a n\u00f3s denunciarmos tamb\u00e9m o quanto ela tem de interesse por tr\u00e1s e como \u00e9 a realidade dentro do reino\u201d, alerta.<\/p>\n<p>Perguntado se a visita mudou a imagem que tinha da Ar\u00e1bia Saudita, Andr\u00e9 respondeu: \u201cN\u00e3o acho que tenha mudado muito, n\u00e3o. \u00c9 claro que \u00e9 sempre diferente voc\u00ea ver estando no lugar, vivenciando, mas n\u00e3o mudou muito a minha opini\u00e3o, n\u00e3o, porque at\u00e9 s\u00e3o coisas que s\u00e3o inegoci\u00e1veis, n\u00e9, como desrespeito aos direitos humanos, como eu falei. Talvez tenha me impressionado bastante essa quest\u00e3o de perceber que n\u00e3o h\u00e1 mesmo nenhuma voz dissonante, movimentos de contestar esse tipo de regime, que s\u00e3o aquelas not\u00edcias que a gente v\u00ea de meninas que fogem para outros pa\u00edses. Elas est\u00e3o fugindo, \u00e0s vezes, da fam\u00edlia, da sociedade que compra aquela ideia como um todo, daquele conservadorismo, ent\u00e3o isso talvez tenha me chocado mais, de ver que a sociedade tamb\u00e9m abra\u00e7a esse tipo de regime. Com raras exce\u00e7\u00f5es, claro\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, ao ser questionado sobre como resumiria o reino saudita, o jornalista retrucou: \u201cEu tenho um certo receio em resumir pa\u00edses, mas, no caso da Ar\u00e1bia Saudita, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, porque, realmente, era um povo no deserto, ent\u00e3o, enquanto, por exemplo, no Ir\u00e3, que \u00e9 ali do lado e o maior antagonista deles por disputa por \u00e1reas de influ\u00eancia na regi\u00e3o e no mundo, estava passando por diversos imp\u00e9rios \u2015 persas, o primeiro, o segundo \u2015 e v\u00e1rias inven\u00e7\u00f5es e inova\u00e7\u00f5es, eles eram um povo vagando no deserto. E a\u00ed vem a quest\u00e3o do wahabismo, uma refer\u00eancia de Meca e da religi\u00e3o isl\u00e2mica, um centro dessa grande religi\u00e3o, eles adotam esse extremismo religioso, e, depois, o surgimento do petr\u00f3leo, trazendo toda aquela riqueza e dando a eles essa voz mais ativa e essa posi\u00e7\u00e3o de lidar com aliados e parceiros internacionais, mas sem ser muito contestado, ent\u00e3o acho que \u00e9 o extremismo religioso aliado \u00e0 riqueza do petr\u00f3leo. Talvez seja um bom resumo para a Ar\u00e1bia Saudita\u201d.<\/p>\n<div>\n<div class=\"imagem-noticia\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s3-us-east-2.amazonaws.com\/cdngp\/grandepremium\/images\/20202181254356_4-1017905270-LAT-20191121-SG1_0589_O.jpg\" width=\"1600\" height=\"1066\" \/><\/div>\n<div class=\"legenda-imagem\">F\u00f3rmula E serviu de porta para entrada de jornalistas brasileiros na Ar\u00e1bia Saudita (Foto: F\u00f3rmula E)<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Palco recente de F\u00f3rmula E e Rali Dakar, a Ar\u00e1bia Saudita usa o esporte para tentar passar para o mundo uma imagem de pa\u00eds em transforma\u00e7\u00e3o. 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