Na Garagem: Buemi resiste a batida maluca com Di Grassi e é campeão da Fórmula E
Sébastien Buemi e Lucas Di Grassi travaram a disputa por título mais marcante da história da Fórmula E em 2016. Após batida e muita confusão, taça foi decidida na base da volta mais rápida em final eletrizante
Em uma categoria marcada por disputas dramáticas de título e destinos selados na última rodada, a Fórmula E viveu um de seus dias mais históricos — e polêmicos — há exatos dez anos, no dia 3 de julho de 2016. A dimensão daquele eP de Londres, protagonizado por uma rivalidade fortíssima entre Sébastien Buemi e Lucas Di Grassi, repercute até os dias atuais, em que o brasileiro se encaminha para a aposentadoria e o suíço coloca em dúvida a permanência no grid. Há uma década, porém, os dois travaram uma batalha sem igual por uma taça decidida nos pontos da volta mais rápida.
Antes de contar a polêmica ocorrida no Battersea Park, porém, é necessário relembrar o contexto daquela temporada. Com dez corridas previstas, Buemi somou logo duas vitórias e quatro pódios nas cinco primeiras etapas e indicou que caminharia tranquilamente em direção ao título. No entanto, Di Grassi subiu de ritmo no meio do campeonato e, mesmo com a perda de uma vitória na Cidade do México, manteve-se no páreo à medida em que o suíço começava a ter problemas nas classificações.
O brasileiro, então, emendou duas vitórias consecutivas em Long Beach e Paris, respectivamente sexta e sétima etapas, e entrou de vez na briga pela taça. Buemi ainda venceria em Berlim, mas chegaria à rodada de Londres pouco atrás de Lucas. Após a primeira corrida da rodada dupla, no dia 2 de julho, o suíço fez a pole do dia seguinte e deixou os dois rigorosamente empatados para a última e decisiva prova do calendário.
O problema para Di Grassi, contudo, era o rendimento da Renault de Buemi no Battersea Park. Em um traçado extremamente apertado e clássico dos dias iniciais da Fórmula E, as ultrapassagens eram muito arriscadas; ou seja, se cruzasse a primeira curva na liderança, ‘Seb’ ficaria com o título nas mãos, ainda mais com a proteção de Nicolas Prost em segundo. Não à toa, um movimento desesperado do brasileiro mudou a história da corrida logo na largada.
Enquanto Buemi mantinha a dianteira e se preparava para contornar a primeira curva, Di Grassi se jogou para ultrapassar Prost e acertou o suíço, rendendo danos profundos a ambos: a Renault teve a asa traseira destruída, enquanto a Audi de Lucas sofreu principalmente na dianteira. Em frangalhos, os dois se arrastaram de volta ao pit-lane.

Curiosamente, foi a partir daí que a corrida começou de verdade para os dois. Em uma cena impensável nos dias atuais, Buemi e Di Grassi trocaram para o segundo carro (vale lembrar que os pilotos precisavam utilizar dois monopostos ao longo das corridas por questões de bateria) e ficaram esperando o momento certo de voltar à pista. O plano era o mesmo para os dois: aproveitar um trecho de ar limpo para buscar os dois pontos da volta mais rápida. Quem fizesse, levaria a taça.
Desta forma, Di Grassi foi o primeiro a sair à pista e logo tomou a volta mais rápida que o garantiria como campeão, mesmo com o ritmo forte de Stéphane Sarrazin. O problema, porém, é que Buemi também deixou os boxes e foi ainda mais rápido que o brasileiro, com 1min24s150. Lucas até baixou para 1min25s633, mas não foi o suficiente: título para o rival e festa da Renault no Battersea Park.
A disputa lendária entre Di Grassi e Buemi teria um novo capítulo no ano seguinte, dessa vez com o brasileiro vencedor, mas deixou algumas lições à Fórmula E. Nos dias atuais, a categoria só premia o dono da volta mais rápida entre os dez primeiros, o que impediria a dupla de voltar à pista para tentar o ponto extra. Essa regra, inclusive, faria o brasileiro ter sido campeão, já que estava à frente nos critérios de desempate.
Claro que o protagonismo foi completamente roubado por Buemi e Di Grassi, mas a vitória no fim ficou com Prost, o companheiro do suíço na Renault. Daniel Abt — parceiro de Lucas — chegou em segundo, com a Dragon de Jérôme D’Ambrosio em terceiro. Loïc Duval, Sarrazin, Bruno Senna, Nick Heidfeld, Jean-Éric Vergne, Nelsinho Piquet e Oliver Turvey completaram o grupo dos dez primeiros em Londres.

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