O eP de Tóquio da Fórmula E, disputado neste sábado (25), encaminhava-se para um final de certa forma tranquilo. Jake Dennis era o primeiro, Dan Ticktum avisava que não atacaria, em segundo, e Nick Cassidy era o terceiro. Em uma curva, porém, tudo mudou e mostrou de novo como as coisas podem se alternar rapidamente na categoria. Que o diga o agora ex-líder do campeonato, Pascal Wehrlein.

Assim como Ticktum, Wehrlein viu a corrida mudar completamente em uma curva — mas em um sentido bem diferente. Após viver um ano de péssima relação interna com António Félix da Costa, o alemão viu o português partir para a Jaguar e não chegou a se envolver em batalhas polêmicas com o rival desde então. Em Tóquio, a história foi bem diferente.

Com os dois colados no traçado, Wehrlein colocou por dentro na curva 7 e ficou sem espaço, mas não tirou o pé; como resultado, tocou no muro à esquerda e viu o carro ficar danificado. Na sequência, forçou a barra para se manter por dentro na 8 e empurrou Da Costa de vez na barreira de proteção, de frente. Os danos, contudo, forçaram o alemão da Porsche a abandonar.

É bem verdade que Wehrlein ainda voltou à pista depois, mas unicamente para garantir que qualquer punição relacionada ao lance fosse paga na corrida de sábado, sem carregar consequências para o domingo. E foi exatamente o que aconteceu, com os 10s que o piloto levou pelo incidente.

A rixa entre os dois é óbvia e o acidente deixou a clara sensação de que Wehrlein não fez força para evitar que o concorrente fosse no muro, mas o que mais chamou atenção foi a exposição do alemão. Líder do campeonato antes da corrida começar, Pascal andava à frente de nomes como Mitch Evans e Oliver Rowland e tinha desvantagem totalmente acessível para Jake Dennis e Edoardo Mortara, que iam à frente.

No entanto, a opção de mergulhar sobre Da Costa em um trecho apertado do traçado — e que também rendeu outros acidentes — foi absolutamente questionável. Claro que um postulante ao título precisa ter arrojo, mas também é importante saber o momento de segurar o ritmo e garantir pontos; Wehrlein costuma ser ótimo nisso, mas pecou no ataque à Jaguar.

Ticktum venceu de maneira surpreendente e fez até cobrança à Cupra Kiro (Foto: Fórmula E)

Vale destacar que os dois carros da Porsche encontraram o fim da corrida no mesmo ponto. Tresloucado para cima de Da Costa no início da corrida, Nico Müller tentou exatamente o mesmo movimento na curva 7 e também levou a pior, com danos que o empurraram para o fundo do pelotão. Em um time que briga pelos três campeonatos em jogo, errar duas vezes no mesmo setor abre brechas enormes aos concorrentes — e eles aproveitaram.

Dennis liderou praticamente toda a corrida, tática poucas vezes usada na Fórmula E pelo gasto energético que demanda. Dito e feito: na última volta, precisou tirar o pé e foi engolido por Ticktum, que já avisara que não atacaria. A diferença absurda de velocidade entre os dois na última passagem pela curva 16, porém, tornou o movimento da Cupra Kiro inevitável.

Por um lado, Dennis saiu de 25 pontos somados para 18, o que o impediu de colar ainda mais em Evans, novamente o líder do campeonato; por outro, o britânico ainda assim recuperou parte do prejuízo e, a três corridas do fim do campeonato, vê o líder a 14 pontos e vive grande momento junto à Andretti.

O neozelandês da Jaguar foi outro que fez grande prova, com os primeiros pontos em Tóquio e uma recuperação valente que o levou à ponta do Mundial.

Cassidy foi ao pódio e o dedicou a Cyril Blais, chefe da Citroën que morreu na última semana (Foto: Fórmula E)

Além do campeonato, claro, a vitória representa muito para Ticktum. Novamente citando o fato de estar sem contrato após o fim da temporada na entrevista oficial, o britânico não esconde a vontade de permanecer na categoria e entende que o carro Gen4, previsto para estrear na próxima temporada, encaixa melhor com suas qualidades.

O problema é que a temporada tem sido de erros, azar e muita impaciência, o que tem minado a relação de Dan com a equipe. As cobranças públicas são parte disso, evidentemente, mas resultados como o de Tóquio fazem com que Ticktum ganhe força considerável nessas negociações. Ainda assim, segue atrás do novato Pepe Martí na tabela.

Em dia que prometia dificuldades principalmente para Evans e Rowland, a tragédia ocorreu mesmo com Wehrlein e serviu para abrir o campeonato ainda mais. Com três pontos separando os dois primeiros e apenas 14 para o terceiro colocado, a segunda corrida do eP de Tóquio vai definir o desenho do campeonato para a última etapa, em Londres — e qualquer ponto deixado pelo caminho pode fazer falta na busca pela glória.

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