Teve de tudo naquele 25 de outubro de 2015, quando a Fórmula 1 aterrissou em Austin para a disputa do GP dos Estados Unidos, 16ª etapa da temporada. Com nuances que todo o público gosta, a rivalidade entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg atingia o cume, com provocações do piloto britânico e cara feia do alemão, além de muita chuva e batalha até as voltas finais.
Resultado? Triunfo para o #44 e tricampeonato garantido por antecipação, com direito a Elton John junto no pódio. O GRANDE PRÊMIO recorda o que está Na Garagem e lembra como foi aquela corrida, uma década depois.
Domínio amplo de Hamilton e furacão à vista
Era a quarta edição do GP dos EUA disputado no Circuito das Américas. Algumas curiosidades daquele fim de semana enquadram Alexander Rossi pela Manor-Marussia, fazendo com que um norte-americano corresse em casa na F1 depois de muito tempo. Seria, ainda, o 200º GP da trajetória da Red Bull na F1.
No campeonato, a Mercedes levou o troféu no Mundial de Construtores para casa após a rodada em Sóchi, na Rússia. Fora o segundo dos oito vencidos em sequência entre 2014 e 2021. Já na competição de Pilotos, Hamilton dava show. Chegou a Austin com nada menos do que 11 poles em 15 corridas disputadas, além de nove vitórias e 13 pódios. Eram 62 pontos de vantagem para Sebastian Vettel, ainda vice-líder naquele momento (302 a 236). A diferença para Rosberg, outro personagem principal daquele dia, era ainda maior: 73. Diferente de 2014, onde o duelo entre os companheiros de Mercedes foi até o último momento do campeonato, 2015 era todo de Lewis.

O Texas passou o fim de semana sobre ameaça da chegada do furacão Patrícia, considerado o ciclone tropical mais intenso no hemisfério ocidental do Pacífico àquela altura, com ventos tão fortes quanto 345 km/h durante quatro dias. O ciclone tocou terra firma na costa mexicana, em Tehuantepec, e chegou até países da América Central. Oito pessoas morreram diretamente — e mais cinco indiretamente — por conta da tempestade.
E, com esse cenário de caos, a chuva veio forte e inundou todo o circuito, cancelando a segunda sessão de treinos livres da sexta-feira. No sábado, mais caos: água a 10 cm acima do solo do Circuito das Américas e impactou negativamente o trabalho do sistema de drenagem, com fiscais obrigados a utilizar bombas especializadas para minimizar o problema.
E se você pensa que isso afetou o bom humor das equipes, meu caro leitor, está enganado. Ao longo das três horas de paralisação, antes do posterior cancelamento da atividade pela direção de prova, foi um show de entretenimento. Daniel Ricciardo e Daniil Kvyat improvisavam alguns passos de dança pelos lados da Red Bull, enquanto na Sauber fizeram até um barco de papel sobre rodas, no melhor estilo Pica-Pau descendo as Cataratas do Niagara.
Teve quem não gostasse daquele tipo de comportamento. Maurizio Arrivabene, então chefe da Ferrari, esbravejou. “Somos uma equipe de Fórmula 1, não o Cirque du Soleil”. Kimi Räikkönen, que também corria pelos italianos, endossou as críticas. “Acho que isso é a F1 e não o circo. As pessoas obviamente não estão felizes quando não estamos correndo, mas não podemos fazê-las felizes com o que quer que façamos além de correr”. Assim, a classificação teve de ser adiada e ficou para a manhã da prova.

Uma chuva de punições
Ainda chovia forte nos arredores de Austin, mas o então diretor de provas Charlie Whiting não pensou duas vezes para dar o sinal verde para o início da classificação. Mas também teve de sacudir a bandeira vermelha logo de cara, por acidente de Carlos Sainz.
A aquaplanagem era a protagonista daquela atividade difícil e, com mais água caindo na pista, o Q3 foi cancelado e a definição da posição de largada foi definida com base nos tempos do Q2.
Rosberg, desta feita, conquistou a pole-position – a 19ª na carreira, a 50ª das Flechas Prateadas -, com 1min56s824 e teria ao seu lado o companheiro Hamilton, que cravou 1min56s929. A segunda fila teria a dupla da Red Bull, Ricciardo e Kvyat. A partir daí, um show de punições.
Vettel e Raikkönen trocaram os motores de suas Ferrari e caíram dez posições no grid. Valtteri Bottas, da Williams, perdeu cinco lugares por trocar a caixa de câmbio após a classificação. Will Stevens levou incríveis vinte posições de punição por diversas mudanças feitas pela Manor, a ponto de ser colocado atrás de Sainz, que não conseguiu anotar um tempo de volta, mas foi autorizado pela direção de prova a correr.

Polêmica na largada acirra ânimos na Mercedes
A chuva deu uma trégua no Texas naquele domingo e mesmo com 19°C de temperatura e a pista ainda escorregadia, os pilotos resolveram calçar pneus intermediários (de faixa verde) para o início da prova. Na largada, Hamilton tracionou melhor que Rosberg e assumiu a liderança na curva 1, não sem antes espalhar o suficiente para jogar o alemão para a área de escape.
Com o movimento, Nico foi ultrapassado pelas duas Red Bull e por Sergio Pérez, caindo para a quinta colocação. Mais atrás, uma colisão entre Felipe Massa e Fernando Alonso prejudicaria a corrida de ambos. No giro seguinte, outro toque, desta vez envolvendo os companheiros de equipe Felipe Nasr e Marcus Ericsson. Por fim, Rossi acertou Stevens na traseira e obrigou o britânico a abandonar a corrida.
Sainz foi o principal beneficiado com a confusão das primeiras voltas, saindo de último para décimo. Após oito giros, o acionamento do safety-car virtual para limpeza do circuito. Rosberg se recuperou e voltou ao segundo lugar, ultrapassando os rivais da frente. Quem também fazia ultrapassagens sem parar era Vettel, que ganhou sete posições e chegava ao sexto posto.
A corrida era movimentada. Kvyat escapou do traçado ao tentar ultrapassar Rosberg, permitindo que o companheiro de equipe Ricciardo tomasse o terceiro lugar. O australiano, por sua vez, fez manobra bem-sucedida em cima do carro #6 para arrancar a segunda colocação. A batalha pela liderança se intensificou após a volta 15. A falta de aderência dos pneus intermediários permitiu várias trocas de posição.
Daniel passou Lewis para assumir a dianteira, enquanto Rosberg tentou, sem sucesso, ir na mesma barca para cima de Hamilton, na volta 16. Um jovem Max Verstappen, então novato na F1, assumiu o sexto lugar de Vettel uma volta depois, apenas para perder a posição em seguida. Vettel ainda passou Hamilton, que decidiu ser o primeiro do pelotão dianteiro a trocar pneus e investir num composto de pista seca.

Na metade da prova, a Sauber de Marcus Ericsson enguiçou na pista, obrigando a entrada do carro de segurança. Rosberg, Hamilton, Ricciardo, Kvyat e Verstappen formavam o top-5 naquele momento. Na volta 35, outro bate-rodas envolvendo Ricciardo, desta vez com Nico Hülkenberg e, com a quebra da suspensão dianteira, o então piloto da Force India também foi obrigado a abandonar.
No 43º giro, outra aparição do safety-car, desta vez por batida de Kvyat, que perdeu o controle sozinho e acertou o muro antes da última curva do traçado. Tanto Hamilton quanto Vettel usaram isso para trocar os pneus novamente e preparar a parte final da corrida.
O safety-car voltou para a garagem no final da volta 46, e o reinício da prova naquele momento tinha, na ordem, Rosberg, Hamilton, Verstappen, Vettel e Alonso nas cinco primeiras posições. Max tentou passar Lewis logo na curva 1 e levou a pior, também sendo ultrapassado pela Ferrari de Vettel.
Dois giros depois, um vacilo decidia tudo naquele caótico fim de semana: Rosberg travou as quatro rodas e passou do ponto na curva, perdendo a liderança da corrida para Hamilton. Mais tarde, afirmou que o erro foi causado graças a uma rajada forte de vento. Ainda deu tempo de Vettel chegar no compatriota, embora sem conseguir a manobra. Era, enfim, a exclamação de uma temporada de gala de Hamilton.
A 43ª vitória na carreira chegou e, com ela, a confirmação do tricampeonato antecipado da Fórmula 1 em 2015. E dá-lhe choro no rádio, zerinho na pista e agradecimentos ao trabalho da Mercedes. “É o melhor momento da minha vida. Muito obrigado a todos”, falou. Verstappen, Pérez, Jenson Button, Sainz, Pastor Maldonado, Nasr e Ricciardo completaram a zona de pontuação. Mas quem disse que acabou aí?

Um pós-corrida do jeito que a gente gosta
Após a festa na pista, chegou o momento da antessala do pódio, aquele momento em que os pilotos tomam uma água, conversam sobre pormenores da tarefa concluída e assiste aos melhores momentos da corrida recém-encerrada. Enquanto Hamilton transmitia toda a felicidade pelo título, Rosberg estava bastante fazia cara feia, visivelmente irritado pela derrota do dia e do ano, bem como as circunstâncias que a desenharam.
Ainda antes de subir para a cerimônia do pódio, Lewis, em clara provocação, atirou o boné de segundo colocado, dado pela Pirelli aos três pilotos do pódio, no colo de Nico. Como qualquer um imaginaria, Rosberg não gostou nada: pegou o boné e num impulso só jogou de volta, como quem faz o máximo possível, mas o mínimo que gostaria. A rivalidade, escaldante em 2014 e dormente durante boa parte de 2015, reacendeu de vez. Na luta particular enquanto companheiros de equipe, Hamilton chegara a duas conquistas contra nenhuma de Rosberg, pois.
Uma vez, no pódio, Elton John foi o responsável por conduzir a entrevista com os pilotos e, assim, Hamilton foi à loucura, comandando a festa do tricampeonato. As farpas entre a dupla continuariam, com Rosberg inconformado pela manobra do companheiro na largada. Mais tarde, a Mercedes teria de investir numa gestão de crise tocada pelo chefe Toto Wolff e pelo presidente não-executivo Niki Lauda dentro da própria fábrica, em Brackley, na Inglaterra.
“Cometi um erro que me custou a vitória e deu o título a ele”, falou Nico logo após a prova. “Tinha poucas chances de reverter, de qualquer maneira. Gostaria de parabenizar Lewis: ele merece, teve uma temporada soberba e foi bastante consistente”, falou.

“Entendam bem, estou simplesmente enojado. [O erro] não teve um grande impacto na corrida porque assumi a liderança sozinho, ultrapassando carros. Mas a manobra dele foi muito agressiva, ele foi longe demais, e isso não está certo”, completou.
Hamilton deu de ombros após o incidente do boné e defendeu da manobra da largada. “Entramos na curva, mas eu tive um subesterço. Ele [Rosberg] virou na minha direção para fazer a curva e nos tocamos. Mas dizer que fui muito agressivo… Não sinto isso. Estava por dentro, era a minha linha”, opinou.
Teve até certa irritação do campeão com as perguntas sobre o desentendimento. “Não há necessidade de discussão! Cada um tem direito a ter opinião, mas eu venci, e isso não me importa. Nico sempre faz esse tipo de comentário. Discutiremos o assunto, mas não foi nada intencional”, declarou.
Por fim, lembrou de Ayrton Senna, uma vez que igualava os três títulos mundiais. “Para mim, é algo realmente importante. [Senna] é realmente meu ídolo de infância, meu modelo. Ter três títulos como ele é algo que nunca imaginei ser possível. Quando criança, queria ser campeão mundial, é uma loucura pensar que agora sou tricampeão”, festejou.

No restante daquele campeonato, só deu Rosberg: vitórias no México, Brasil e Emirados Árabes – o suficiente para o vice-campeonato. A rivalidade com Hamilton também se estendeu por todo o ano seguinte, com aquela histórica batida na Espanha dando o tom de um duelo duríssimo por todo o campeonato. O alemão finalmente levaria a melhor e conquistaria o título. O suficiente para, dias depois, anunciar aposentadoria das pistas.
A Fórmula 1 retorna neste fim de semana, entre os 24 a 26 de outubro, com o GP da Cidade do México. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.
Além da cobertura tradicional, o GRANDE PRÊMIO estará IN LOCO no Autódromo Hermanos Rodríguez para acompanhar todas as emoções da etapa com o repórter Daniel Balsa.