Aos 21 anos, Diogo Moreira vai marcar um ponto final em um longo jejum e recolocar o Brasil na MotoGP. Anunciado pela Honda como piloto da LCR na temporada 2026, o hoje titular da Italtrans na Moto2 vai aos poucos encantando a torcida, mas, muito antes de qualquer espectador, é a família quem mais celebra os rumos de uma carreira marcada por esforço e lágrimas.
Nascido em Guarulhos e descoberto por Alexandre Barros no motocross, Moreira deixou o Brasil muito cedo, aos 12 anos, e emigrou para a Espanha para perseguir o sonho de viver da motovelocidade. Nove anos mais tarde, Diogo se vê na briga pelo título da Moto2 e com o passaporte carimbado para estrear na classe rainha do Mundial de Motovelocidade.
O caminho, porém, não foi indolor. A mudança para a Espanha ainda no início da adolescência forçou uma separação. No primeiro momento, apenas o pai, Luiz Nascimento, acompanhou Diogo. Dois anos depois, a mãe, Sandra, juntou-se a eles, mas o irmão mais velho, Rafael Moreira, assiste ao sucesso do caçula à distância desde então.
Responsável por apresentar Diogo ao mundo das duas rodas, o pai não esconde o orgulho, mas frisa o empenho dedicado até aqui.
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“Eu me sinto muito orgulhoso. Minha esposa e eu, a gente se sente… Não é que nós já chegamos. Chegar, nós chegamos, mas a gente tem de continuar trabalhando — e muito — para se manter ali”, disse Luiz ao GRANDE PRÊMIO. “Estou muito feliz e orgulhoso. Mas, principalmente, esse mérito é do Diogo. Acompanhei, ajudei, trouxe para o mundo das duas rodas, mas o mérito todo é dele. Trabalhou muito para isso”, seguiu.
O sentimento é compartilhado pelo irmão mais velho, que entrega que a dor da saudade foi uma companheira de caminhada na trajetória do #10.
“Não tenho nem palavras para descrever o sentimento, a emoção, o orgulho que a gente tem dele”, falou Rafael ao GP. “Desde pequeno, a gente cresceu junto e, infelizmente, devido à carreira, ele se mudou cedo para a Espanha. A gente acabou se afastando fisicamente, mas se fala todo dia. Temos nossas bagunças, a gente joga videogame todo dia, fala um com o outro, é muito legal. Carreguei esse menino no colo, acompanhei desde o início a batalha dele. Sei que sofreu demais”, apontou.
“Muita cobrança desde pequeno. Praticamente não teve infância. Era muito triste quando vinha me visitar aqui no Brasil, passava ali dez, 15 dias comigo, e eu parava tudo, todo meu trabalho, tudo que eu estava fazendo, para viver intensamente com ele, porque a gente se via uma vez a cada dois anos, três anos, às vezes um ano. Quando dava, ele passava aqui uma semana, dez dias, e mesmo assim era muito corrido. E é assim até hoje”, revela. “Era muito triste, porque era uma tristeza de ambas as partes quando ele ia embora. Ele chorava, eu chorava. Ele queria ficar. Eu lembro que uma vez, ele era mais novinho, a gente foi levar ele no aeroporto e ele começou a chorar que não queria ir embora, que queria ficar comigo. Ali eu dei uns conselhos para ele, para ele não desistir, que ele ia chegar longe, que ele ia voar. E está aí”, acrescentou.
Oito anos mais velho, Rafael não esconde a emoção com o novo voo de Diogo, mas confia que pode chegar ainda mais longe.
“Foi muito esforço e está aí a prova de que talento ele tem de sobra. A palavra que tenho para descrever é orgulho. É muito emocionante, é muito gratificante. Carreguei esse menino no colo e ver onde está chegando é uma coisa que, para a família, não tenho nem palavras para descrever. É orgulho, é superação, é muito emocionante”, destacou. “Amo o meu irmão demais, demais, torço muito por ele. Sempre estive na torcida aqui por ele e sempre vou estar. Infelizmente, não consigo acompanhar de perto, mas estou sempre aqui na torcida. Nas corridas, vendo ao vivo todo domingo, estamos aqui na torcida, mandando energia positiva lá para ele. E eu tenho fé de que esse menino vai voar muito mais alto do que já está”, torceu.
Desde que o caçula dos Moreira partiu para a Europa, Rafael assistiu quase tudo à distância, com exceção de uma única corrida.
“Acompanhei 99% à distância. A minha mãe foi com ele e eu não pude ir, infelizmente. Eu tenho as minhas coisas aqui no Brasil, tenho empresa, então não posso sair daqui. Um dia, quero poder acompanhar mais de perto. Graças a Deus, tive a oportunidade de no ano passado ter feito uma visita, visto uma corrida de perto, ficado lá nos boxes com ele, conhecido todos os setores da pista, conhecer o box. Foi muito legal. Passei 15 dias com ele, fiquei na casa dele na Espanha, a corrida foi em Barcelona, então foi muito legal. Consegui acompanhar de perto ali no box. Ver ao vivo a corrida foi uma experiência absurda. Não tem nem como descrever”, contou. “Nunca tinha ido numa corrida. Ver de perto ali, e no box, no lugar em que ele fica, foi muito legal, muito mesmo. Espero poder conseguir acompanhar mais. Ano que vem, já estou com a passagem comprada para Goiânia, passagem e estadia acertadas, vou conseguir mais uma vez ter essa oportunidade de vibrar de perto e espero que venha aí um trofeuzão de primeiro lugar nessa etapa de Goiânia. Vamos estar sempre na torcida”, avisou.

“Estou muito feliz, muito contente. A história do meu irmão é muito bonita, muito linda. Ele passou muitos perrengues para chegar aonde chegou hoje, então é orgulho. A gente tem muito orgulho desse menino. Não só eu, como a nossa família toda, amigos que sempre apoiaram, sempre acreditaram nele. Estamos aqui, vamos sempre estar na torcida para ver esse moleque chegar ao auge”, garantiu.
O reencontro, porém, não vai precisar esperar até março de 2026. Hoje, Diogo tem a vice-liderança do Mundial de Pilotos da Moto2, com nove pontos a menos do que o líder Manuel González em uma disputa que promete se arrastar até o GP da Comunidade Valenciana, o último da temporada.
“Essa de Valência, independente de briga pelo título ou não — espero que sim, com fé em Deus —, estarei lá. Vou parar tudo que estou fazendo aqui para ir. Essa corrida aí eu não vou perder por nada, não. Vou prestigiar e vibrar junto dele”, afirmou Rafael.
A briga pelo título, contudo, aconteceu em um momento intenso, com o passe de Diogo sendo disputado por duas das principais fábricas do campeonato: Honda e Yamaha.
“Isso é um sinal de que está trabalhando bem. Sendo disputado pelas marcas, por todas as equipes, é um sinal de que está mostrando bem o trabalho. E o em torno dele também, que trabalha muito”, elogiou Luiz.
Questionado pelo GRANDE PRÊMIO sobre o processo de decisão de Diogo, o pai explica a opção pela Honda: “Ele teve propostas de outras marcas, quase todas as marcas do paddock, mas as duas propostas melhores eram de Yamaha e Honda. Optou pela Honda, pois o projeto da Honda olhando para o futuro era melhor. A Yamaha também tinha uma proposta muito boa para o Diogo, mas a Honda se encaixou melhor no perfil dele em termos de futuro, para a moto e tudo mais. E a decisão foi tomada com a família também. Sempre. Sempre as decisões são tomadas com a família”.
Agora, todavia, o futuro vai ter de esperar. Moreira segue focado na briga pelo título da Moto2, ainda que não encare a taça como uma obsessão.
“Neste momento, nós não estamos — ainda — preocupados com o campeonato. Estamos indo a cada corrida. Cada corrida é uma corrida”, explicou Luiz. “Nós tivemos uma reunião essa semana para que ele não se deixe [levar]. [Diogo] já não vê comentários, não vê nada disso. Muito pouco ele vê de comentários nas redes sociais e agora menos ainda, porque é focar corrida a corrida. Mas eu creio que tem tudo para disputar o título”, encerrou.
A MotoGP volta a acelerar entre os dias 17 a 19 de outubro com o GP da Austrália, direto de Phillip Island, 19ª etapa da temporada 2025. O GRANDE PRÊMIO faz a cobertura completa do evento, assim como das outras classes do Mundial de Motovelocidade durante todo o ano.