2025 provou que a Red Bull sabe como se reinventar, mesmo em adversidades extremas. No ano passado, a equipe austríaca se viu em meio a uma debandada técnica, incluindo a saída do último grande pilar da estrutura, Christian Horner. O francês Laurent Mekies foi quem assumiu o posto de chefe em meados de julho e precisou reorganizar o time todo em pleno campeonato e ainda diante da iminência da mudança de regulamento. Mesmo assim, o engenheiro tocou um importante processo de atualização do carro que nas mãos de Max Verstappen viu a chance de entrar na briga pelo título. O neerlandês entendeu o recado e foi capaz, em meia temporada, de descontar mais de 100 pontos, para chegar à etapa final na disputa. Perdeu para Lando Norris, mas isso não tirou o brilhou daquela remontada. Aí veio 2026 e uma era de carros da F1 — e um novo desafio também para os energéticos, que passaram a desenvolver a própria unidade de potência. O começo foi naturalmente difícil, e isso acabou determinando o destino do tetracampeão. Até agora.
O projeto do RB22 nasceu com muitos pontos a serem desenvolvidos, além do motor. O carro era imprevisível e seguia uma tendência de rigidez das últimas temporadas, mesmo em um conceito aerodinâmico diferente. Havia problemas em termos de equilíbrio e de comportamento em frenagens. A Red Bull também sofreu com a confiabilidade na primeira parte de temporada, enquanto Verstappen tentava se entender com a complexa unidade de potência. O primeiro pódio aconteceu apenas no Canadá, mas foi mais circunstancial do que propriamente em cima do ritmo. Algumas semanas depois, Max voltaria aos holofotes na Áustria, com um segundo lugar. Mas foi a partir da Bélgica que o cenário começou a mudar. Os pódios em Spa e em Budapeste já sinalizavam os pequenos acertos em atualizações pontuais. A etapa dos Países Baixos acabou tirando o neerlandês cedo demais, após um acidente forte logo no início e interrompeu esse crescimento.
Então, veio a Itália e mais um pódio, depois de uma briga aberta contra a Mercedes. Outro pódio foi conquistado na novata Madri, sete dias depois. Só que os taurinos só foram capazes de colocar para jogo o maior conjunto de atualizações da temporada — o último de 2026, diga-se — no fim de setembro. O Azerbaijão foi o palco escolhido e lá mesmo algumas respostas foram dadas. O pacote incluiu um novo assoalho, mudanças nos sidepods e alterações na geometria dos retrovisores para melhorar a geração de carga aerodinâmica e a estabilidade do fluxo de ar. Max foi segundo em Baku e pressionou o vencedor George Russell até a linha de chegada. Duas semanas depois, a Malásia comprovou a qualidade das novas peças.
Em uma pista cheia de retas e curvas de todo o tipo, além de um asfalto bastante particular, Verstappen foi soberano. Com a não permissão para desenvolver o motor — a unidade acabou inelegível para o ADUO (sistema de concessões e evolução dos motores) —, os engenheiros de Milton Keynes tiveram de focar mesmo nos elementos aerodinâmicos e na eficiência mecânica. O trabalho com as asas dianteiras e traseiras colocou RB22 no topo da performance em velocidade de reta, e isso impulsionou o ritmo em Sepang. Ao mesmo tempo, o equilíbrio nas curvas de média foi decisivo. Assim, mesmo diante de uma etapa confusa pela chuva e marcada por uma falha bizarra da FIA, o tetracampeão conquistou a pole e venceu com autoridade.
Uma semana depois, replicou a atuação, mas em um traçado completamente diferente. Importante dizer ainda: a performance em Singapura foi a mais impressionante desde a introdução do pacote de novidades. A nova configuração de asa dianteira, voltada ao aumento da carga aerodinâmica em Marina Bay, além de saídas maiores nos dutos dos freios traseiros para melhorar a refrigeração completaram o que faltava ao RB22 — que ainda sofreu com as ondulações do asfalto. Mesmo assm, Verstappen soube como lidar com as oscilações e foi decisivo quando o cenário dependeu apenas dele. Ou seja, a classificação, quando cravou a pole, desbancando a ascensão da Ferrari, e na corrida, ao controlar Charles Leclerc no apagar das luzes e permanecer à frente nos 300m que separam o grid da primeira freada, ponto mais determinante da corrida.
Uma vez na frente, o neerlandês não tomou conhecimento de ninguém. E levou a Red Bull a uma segunda vitória consecutiva — novamente dominante. Essencial detalhar que as rivais enfrentaram uma temporada irregular também. Até mesmo a líder Mercedes. A Ferrari despontou na primeira metade do campeonato, mas não foi capaz de estabelecer um desempenho constante, enquanto a McLaren até deu a entender que a evolução apresentada entre a Hungria e os Países Baixos poderia virar uma série, só que falhou miseravelmente, especialmente a partir de um novo pacote introduzido em Baku.

Até por isso o que se conclui após esses dois triunfos, além das sequências de pódio e da consistência de Verstappen é que o time austríaco não só acertou em cheio nas mudanças que promoveu, mas também sabe como tirar o melhor de todas as oportunidades. “Acredito sinceramente que nosso carro deu um grande passo à frente. Mas, no fim das contas, se tornou mais fácil de pilotar e mais previsível. Era exatamente isso que eu queria e precisava do carro para dar aquele toque final necessário para lutar pelas primeiras posições”, confirmou Verstappen após a vitória deste domingo (11) em Singapura.
Diante disso, a sensação é de que os energéticos têm nas mãos uma chance de mudar a própria história nesta reta final de 2026. A próxima etapa, nos Estados Unidos, pode trazer uma nova face desse pacote, uma vez que se trata de um circuito de asfalto também muito ondulado, mas em um traçado com retas e muitas mudanças de direção. “Certamente não quero dizer agora que estaremos na disputa em Austin. Mas os últimos fins de semana foram realmente muito positivos”, emendou Max.
“Estou encarando uma corrida de cada vez. Quando chegarmos a Austin, veremos como as coisas se desenrolam. Até porque, mais uma vez, é uma pista muito diferente das que corri recentemente. A pista é incrivelmente irregular. Provavelmente vou precisar de uma nova coluna depois deste fim de semana. É uma loucura”, brincou.
De fato, o tetracampeão tem razão em adotar um tom de cautela, mas não dá para ignorar um ponto importante. As performances recentes parecem consistentes o suficiente para formar uma base sólida para o próximo projeto. Inclusive, foi algo já mencionado por Mekies. Há algum tempo, a Red Bull já trabalha no carro de 2027 — segundo o chefe francês, a maior parte dos recursos de desenvolvimento estão concentrados no modelo do ano que vem. Então, é possível imaginar que as melhorias feitas agora também pavimentam um caminho para que a esquadra retorne à disputa de título no ano que vem, mas desta vez desde o início da temporada, numa trajetória semelhante à da McLaren entre as temporadas 2024 e 2025 — quando alterou completamente o carro, passou a vencer e até conquistou o título entre os construtores. No ano seguinte, assegurou as duas taças.

Lamentavelmente, o renascimento da Red Bull chegou muito tarde em 2026. As oscilações de Ferrari e McLaren ao longo da temporada, bem como os problemas recorrentes da Mercedes não foram devidamente aproveitados pelos taurinos, que também enfrentaram seus demônios. De outra forma, o campeonato, certamente, teria sido mais acirrado e imprevisível. Porque ter Verstappen na briga pelo título é sempre um tempero especial e que não pode ser desperdiçado. Mas não dá para negar o fato de que o futuro, diante do que se viu até agora, parece promissor.
Que a F1 tenha a sorte de um novo acerto dos taurinos.
Com as atividades do GP de Singapura concluídas, a Fórmula 1 tira uma folga no próximo fim de semana e retorna entre os dias 23 e 25 de outubro, para a disputa do GP dos Estados Unidos. A etapa de Austin será a 18ª da temporada 2026.