
SÃO PAULO (estou atrasado!) – Barrichello não venceria a corrida nas condições de hoje. Para ganhar, teria de contar com chuva ou confusões dos outros. Com tempo firme e carro mais leve que Webber, precisaria contar com uma má largada do australiano, o que não aconteceu.
Foi uma prova de leitura muito simples. Webber não podia deixar Barrichello escapar, para aproveitar as cinco voltas que tinha a mais de combustível. Quando Rubens voltou de seu pit stop, caiu no tráfego, o que é normal em Interlagos, e ali perdeu também uma posição para Kubica. O terceiro lugar seria sua posição natural, mas no fim teve o problema do pneu furado e acabou apenas em oitavo. Foi-se a chance de vencer em casa.
O GP do Brasil teve ótimas primeiras voltas e algumas grandes atuações. A começar pelo campeão Button, que se aproveitou das trapalhadas de Trulli, Sutil e Alonso (para mim, tudo culpa do Trulli) para fechar a primeira volta em nono, perto dos pontos, e passou muita gente. Me lembro de Buemi, Grosjean, Nakajima. E de uma disputa doida demais com Kobayashi, grande surpresa, um japa doidinho de pedra e muito rápido e combativo. Será titular da Toyota no ano que vem, isso já está decidido. Estreou deixando excelente impressão.
Button guiou, como ele mesmo disse, “para fazer as coisas acontecerem”. Fez. Entrou nos pontos rápido, sabia do que estava acontecendo com Barrichello e não teve medo de buscar posições. Mereceu o título. Foi a melhor corrida dele desde a vitória na Turquia.
Outra grande, fenomenal, atuação foi de Hamilton. Largou em 17º e foi buscar um pódio. Assim como Raikkonen, que até passou no meio do fogo deixado pela gasolina de Kovalainen nos boxes, depois de cair para último na primeira volta graças a um toque em Webber, após uma grande largada. Ufa. Frase longa, porque aconteceu muita coisa para ele, mesmo, na prova. Terminou em sexto. Tem feito ótimas corridas, Kimi, apesar de já demitido.
Vettel, o quarto colocado, também foi de encher os olhos. Se não tivesse largado tão atrás, em 15º, era o maior candidato à vitória, porque é mais piloto que Webber. A Red Bull, na verdade, sobrou. E palmas para Kubica, que conseguiu sua melhor posição no ano, num time que vive claro estado de fim de feira.
A prova foi melhor na primeira metade. Depois, as posições se acomodaram. Com Barrichello fora da briga pela vitória desde o primeiro pit stop, a eletricidade que tomava conta do autódromo antes da largada se esvaiu.
Foi o quinto ano seguido que Interlagos consagrou um campeão. Alonso em 2005 e 2006, Raikkonen em 2007, Hamilton em 2008 e Button agora. É um bom palco para decidir títulos. Claro que a corrida de hoje não pode ser comparada à do ano passado, que teve desfecho cinematográfico. Mas foi legal. Button é, igualmente, um campeão legal. Cara batalhador, que teve altos e baixos na carreira, estava a pé no fim do ano com a desistência da Honda, e aí veio Ross Brawn, e aí ele começou o campeonato de forma arrebatadora, ganhou seis das sete primeiras provas e passou a administrar a vantagem já sem brilho. Brilho que hoje voltou. À sua pilotagem e, especialmente, ao sorriso e ao olhar. Um campeão feliz.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.