
Hamilton: 75 vitórias, seis em Xangai, terceira dobradinha da Mercedes no ano
RIO (esperava mais) – Desde 1992 que uma equipe não começava uma temporada com três dobradinhas seguidas. A Mercedes igualou na madrugada de hoje em Xangai a marca da Williams, que fez 1-2 com Mansell e Patrese, sempre nessa ordem, nos GPs da África do Sul, México e Brasil daquele ano.
Surpresa nenhuma, Mansell acabaria conquistando o título por antecipação na Hungria. Não sei se a história vai se repetir com Hamilton, que ganhou duas das três provas deste Mundial até agora — Bottas abriu o campeonato na frente, em Melbourne. Mas se a Ferrari não reagir logo, e se não deixar de bobagens como a ordem de equipe para Leclerc deixar Vettel avançar, a chatice se avizinha.
Podemos começar a contar o que foi o GP da China com a Ferrari, então. Acho que todo mundo torcia para que a milésima corrida da história da categoria tivesse ao menos alguma disputa pela vitória, e se tinha alguém capaz de fazer isso era a dupla de Maranello. Mas não houve briga em instante algum. Na segunda fila, os dois carros vermelhos viram os prateados dispararem na frente na largada e em nenhum momento a dobradinha alemã foi ameaçada.

Passa, Vettel: Ferrari, mais uma vez, com suas ordens toscas e inúteis
Para piorar, Tião da Vittela, terceiro no grid, perdeu a posição para Lec-Lec antes da primeira curva e já na 11ª volta começou a resmungar pelo rádio que estava mais rápido. O time, então, solicitou ao pequeno e paciente Charles que saísse da frente para Vettel tentar buscar Bottas, que estava em segundo. O menino das bochechas rosadas aquiesceu, mas ficou meio puto. Porque Vettel, claro, não conseguiu nada que ele mesmo não pudesse tentar. Mais um capítulo da histórica babaquice ferrarista que parece contaminar cada alma que assume a posição de chefe por ali — ainda que seja tão evidente a inutilidade dessas ordens em começo de campeonato e em corridas claramente perdidas.
Essa história só atrapalhou Leclerc, que teve de se preocupar com Verstappen chegando, logo atrás. O holandês parou para trocar pneus e logo depois, na volta 19, a Ferrari fez o mesmo com Vettel, para garantir sua posição em relação ao piloto da Red Bull. Ambos colocaram pneus duros. Charlinho foi esquecido pelo time e ficou na pista por mais cinco voltas. Quando lembraram dele, era tarde.
Resultado: Vettel voltou de seu pit stop com Max de pneus mais quentes em seus calcanhares, foi atacado no grampo no fim da enorme reta chinesa, deu o “X” no rubro-taurino e protagonizou o melhor momento da prova, mantendo-se à frente. Leclerc, por sua vez, quando saiu dos boxes após a primeira parada estava atrás de ambos, e lá ficaria até o fim do GP, num discreto quinto lugar.

Vettel x Verstappen: raro bom momento de uma corrida aborrecida
Enquanto tudo isso acontecia, lá na frente Hamilton controlava a prova como queria, depois de largar melhor que o pole Sapattudo — o finlandês deu uma desculpa esfarrapada, de que sua roda patinou numa faixa branca pintada no asfalto. Os dois mercêdicos, no entanto, concordaram que a largada decidiu a corrida. Fizeram seus dois pit stops sem problemas, com o requinte de, na segunda visita aos boxes, realizarem a parada na mesma volta. Foram oito pneus trocados num intervalo de cinco segundos, numa coreografia perfeita do time.
Hamilton chegou à 75ª vitória de sua carreira, sexta em Xangai. Foi também a 90ª vitória da equipe na história. Lewis subiu para 68 pontos e assumiu a liderança do campeonato, com seu barbudo parceiro seis atrás. Verstappinho, quarto colocado ontem, tem 38, seguido por Vettel (37), que fechou o pódio chinês, e Leclerc (36).

Gasly: melhor volta e ponto extra no final
Numa corrida sem sal, alguns pilotos tiveram lá seus momentos, como Pierre Gasly, da Red Bull, que colocou pneus macios a duas voltas do final para cravar a melhor volta da prova e levar um ponto extra para casa. Conseguiu. Ele estava em sexto, muito à frente de Ricciardo, e teve tempo para o pit stop extra. O australiano chegou em sétimo, marcando seus primeiros pontos pela Renault. Pérez, Raikkonen (com uma parada apenas) e Albon (que largou dos boxes) fecharam a zona de pontos. O tailandês da Toro Rosso foi eleito pelo amigo internauta como “piloto do dia”.
Quando o melhor piloto do dia termina em décimo, está dada a medida da temperatura morna da corrida. O milésimo GP merecia mais um enredo melhor, mais… memorável. Mas não se pode querer tudo na vida.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.