SÃO PAULO (Counting the cars on the New Jersey Turnpike/They’ve all come to look for America/All come to look for America/All come to look for America) – Vendo a corrida de Mônaco domingo e a vibração dos mecânicos da Renault quando Fisichella passou Coulthard (aliás, lindíssima ultrapassagem, a mais bonita da corrida), tive a mesma sensação que o Galvão Bueno. Galvão conhece a vida de “meca”, afinal convive com eles por conta da profissão dos filhos Cacá e Popó.
E é exatamente o que ele disse: meca (sem aspas daqui em diante, odeio aspas) gosta de ver seu piloto barbarizar, esteja ele na posição que estiver. Se ganhar a corrida, ótimo. Mas se fizer apenas o que Fisico fez, está ótimo também.
Mecas gostam de corridas, e gostam dos carros que fazem para seus pilotos. E ai do piloto que não tratar bem do carro. Por tratar bem, não entenda voltar aos boxes com o bicho limpinho e alinhado. Não. Tratar bem é esgoelar o carro, é subir em zebra e fritar pneu, passar na grama, ralar o pára-lama, fazer qualquer coisa para andar mais rápido. Mais rápido do que pode, e mais rápido do que alguém mais na pista.
O prêmio de um meca é saber que seu carro aguenta, mesmo se for esgoelado por um piloto destemperado, saber que ele é veloz, é bravo e destemido. Fui eu que fiz, é o que pensa o meca, orgulhoso até a última mancha de graxa e óleo no macacão, when it comes back home.
O carro primeiro, o piloto depois. E um meca (lê-se méca) sabe quando um piloto é digno de seu aplauso e de sua admiração. É aquele que ataca, que não desiste nunca, que chega nos boxes com a asa quebrada, mas pedindo para voltar, é aquele que vê o carro pegando fogo no pitlane, mas não sai do cockpit, porque sabe que os mecas vão apagar, e ele vai lá e ganha a corrida, é Gilles, é Senna, é Schumacher. Por pilotos assim, um meca vira a noite, não come e não dorme, se entrega a um trabalho insano e invisível.
Invisível o cacete. Porque piloto que é piloto vê muito bem o que seu meca faz. E sabe retribuir o esforço e a dedicação. E piloto não precisa da aprovação de ninguém. Nem de chefe de equipe, nem de jornalista, nem de patrocinador, nem de outros pilotos, nem de dirigentes, nem de políticos, nem de engenheiro, nem de projetista, nem do pai, nem da mãe. Piloto precisa da aprovação do mecânico. Piloto corre procurando o mecânico na mureta. Piloto corre procurando o olho do mecânico na mureta, porque o olho do mecânico é que lhe diz se ele está fazendo o que tem de fazer, o que o mecânico espera que ele faça com seu carro.
Seu carro do mecânico, não do piloto.
Sábado passado vi que meus mecânicos ficaram felizes. Rafael e Magrão, os que me acompanham há quatro anos, que me olhavam com desconfiança no começo, com certa pena no meio, a época das quebras, com esperança depois, com muita alegria hoje.
Porque, afinal, estou tratando bem do carro deles. Vi isso nos seus olhos na mureta, na freada para o S do Senna.
PS: e vi também dois anos atrás…
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.