SÃO PAULO (os coadjuvantes) – Antes de descascar a corrida, seus destaques e seus fiascos, algumas figurinhas merecem post à parte depois dessa prova de Melbourne. A começar por Sergio Pérez. Quem vive criticando os pilotos pagantes deveria repensar um pouco suas convicções — que, em geral, servem para sustentar a tese de que os […]
Publicado em 27/03/2011 às 05:32
Atualizado em
5 min de leitura
Compartilhar
SÃO PAULO (os coadjuvantes) – Antes de descascar a corrida, seus destaques e seus fiascos, algumas figurinhas merecem post à parte depois dessa prova de Melbourne.
A começar por Sergio Pérez. Quem vive criticando os pilotos pagantes deveria repensar um pouco suas convicções — que, em geral, servem para sustentar a tese de que os brasileiros são injustiçados, coitados, tão bons e sem lugar na F-1 porque tem um monte de piloto cheio de grana por aí.
Pérez é um pagante, como Petrov — apoiado por empresas russas, entre elas a gloriosa Lada. O comedor de nachos só está na Sauber porque Carlos Slim, um dos homens mais ricos do mundo, comprou a vaga. Como comprou a Embratel, também. E quem, depois da corrida de hoje, é capaz de contestar o investimento? Pérez tem 21 anos, fez um grande campeonato na GP2, chegou a ser o mais rápido num dia da pré-temporada em Barcelona. Foi o melhor estreante no grid e fez uma corrida exemplar. Brilhante, daqueles cartões de visitas que poucos foram capazes de apresentar em suas primeiras corridas.
Para começar, foi o único a fazer uma só parada. Uma façanha. Que deve ser creditada também à Sauber. Foi a equipe que, aparentemente, mais se preocupou em fazer um carro que gasta pouco pneu. Típico de Peter Sauber, um sovina juramentado que não gosta de gastar nem grafite do lápis. Fico imaginando-o na sala dos engenheiros, quando o carro estava sendo projetado. “Olha aí esse negócio da borracha, hein! Pneu tá caro, não dá pra ficar trocando o tempo todo! Tratem de economizar! Não pode gastar muito não!” Kobayashi fez duas paradas, e talvez isso se deva ao fato de ter largado com pneus usados, já que foi ao Q3 — e os dez primeiros, como se sabe, largam com os pneus usados na classificação.
Vai dar muito trabalho essa equipe em 2011. Trabalho para aqueles do pelotão intermediário, que fique claro. Nada de ganhar corridas, nem de namorar o pódio com frequência. Mas vai andar bem, com consistência. E o menino deu um show de maturidade e talento. Nunca tinha andado nessa pista. Aprendeu rapidinho. Não cometeu um erro sequer. Nadica de nada. Chegou em Massa como se estivesse enfrentando alguém com um velocípede. Só não precisou passar porque o brasileiro resolveu ir para os boxes antes de sofrer uma humilhação inesquecível.
É justo, pois, dizer que o Chapolim é ruim só porque entrou com grana? A grana não é dele, ora bolas. Pilotos só se sustentam com patrocinadores. Raros, raríssimos, são os que colocam a mão no próprio bolso. Mais ainda aqueles que ascendem do nada, sem grandes apoios, “descobertos” por alguém — caso de Hamilton. Quase todos, em algum momento, contaram com dinheiro de outrém. Barrichello, por exemplo, chegou à F-1 via Arisco. Errou, a Arisco? Claro que não. Schumacher só ganhou um cockpit porque a Mercedes bancou os 300 mil doletas que Eddie Jordan pediu pela vaga naquele GP da Bélgica de 1991. Errou, a Mercedes? Claro que não. E por aí vai.
(Ah, mas vejam que injustiça com o Bruno Senna, o Heidfeld é uma porcaria!, dirá algum nacionalista mais exaltado. Heidfeld não é uma porcaria. Foi muito mal o fim de semana todo, mas não tomem o alemão por essa corrida. É estupidez. Ele fez uma baita largada, pulou de 18º para 12º na segunda curva, mas foi abalroado por alguém não identificado. Seu carro ficou todo detonado e não teve como andar decentemente. A Renault mostrou que tem bala para pódio. Nick, assim, vai buscá-los ao longo do ano. E vai encher o rabo de pontos.)
Pérez ofuscou os demais debutantes e podem ter certeza de que olhos crescerão em sua direção a partir de algumas equipes de ponta que andam fartas de certos pilotos. Mas tem mais gente que merece ser citada neste GP australopiteco, para o bem e para o mal. Buemi, por exemplo, que vai a cada dia se firmando como primeiro piloto da Toro Rosso, foi bem e pontuou. Já Schumacher, que como largou no pelotão da merda ficou exposto às cagadas que frequentemente acontecem do meio do grid para trás, foi mal. Péssimo. Barrichello, que fazia uma prova excepcional depois de cair para último na largada, se entusiasmou demais quando foi passar Rosberg. Aí estragou tudo de bom que fizera nas 20 primeiras voltas, chegando até a nona posição. Se o resultado foi um desastre (acabou sendo punido por acertar o piloto da Mercedes no meio e abandonou com problemas de câmbio), o carro deu alguma demonstração de força. Mas que ninguém se iluda demais. A Williams não tem muita grana e sua curva de evolução tende a ser pouco acentuada.
Das grandes, e da cara que deve ter essa F-1 de pneus inconstantes, asas que abrem e fecham, muitas paradas e otras cositas más, falo daqui a pouco. Enquanto isso, levantem-se, coloquem a mão no peito e chorem, infames capitalistas! Reconheçam a superioridade soviética e aplaudam sempre que virem um Niva por aí.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.