SÃO PAULO (faz parte) – A imagem acima mostra bem o que foi o primeiro dia de treinos para o GP do Bahrein, abrindo a temporada 2022 da Fórmula 1. Um Hamilton cabisbaixo, abatido, amuado, desalentado, esmorecido, prostrado, desiludido, derrotado. Que diabo de carro fizeram pra mim neste ano?, perguntava-se o inglês sob o novo […]
Publicado em 18/03/2022 às 15:48
Atualizado em
6 min de leitura
Compartilhar
Hamilton desolado: começo difícil
SÃO PAULO(faz parte) – A imagem acima mostra bem o que foi o primeiro dia de treinos para o GP do Bahrein, abrindo a temporada 2022 da Fórmula 1. Um Hamilton cabisbaixo, abatido, amuado, desalentado, esmorecido, prostrado, desiludido, derrotado. Que diabo de carro fizeram pra mim neste ano?, perguntava-se o inglês sob o novo capacete em roxo e amarelo fluorescente desenhado pelo brasileiro Raí Caldato, que há anos cuida do invólucro que cobre o cocuruto do heptacampeão mundial.
Ótimo capacete, diga-se de passagem — como sempre assinala o Craque Neto –, já que será bem mais fácil identificá-lo na pista do que se continuasse usando o modelo escuro em preto e roxo que vestiu no ano passado. George Russell, seu novo companheiro, também tem capacete preto com um discreto filete vermelho. De noite, todos os capacetes são pardos, é o que reza o ditado. No caso de Hamilton, agora ele se parece com o do ex-amigo e ex-rival Nico Rosberg nos primeiros tempos de Mercedes, lembram?
Amarelo na cabeça de Lewis e, antes, em Nico: bem parecidos
Mas isso não importa agora, é apenas perfumaria, o que interessa saber é: que diabo de carro fez a Mercedes neste ano? “Temos muitos problemas. Grandes problemas, bem maiores que no passado. Que não serão resolvidos em curto prazo. Mexemos em muita coisa no carro hoje e nenhuma mudança funcionou”, disse o piloto. Russell contribuiu para jogar mais sombras sobre o futuro próximo da equipe que venceu os últimos oito títulos mundiais de Construtores e sete de Pilotos entre 2014 e 2020. “Vai levar tempo. Não estamos na briga aqui. Vai ser um fim de semana para limitar os danos. Em condição de corrida estamos mais de um segundo mais lentos que Ferrari e Red Bull. Equipes como AlphaTauri e Alfa Romeo estão no mesmo ritmo que a gente, talvez até melhores.”
Uau. Mercedes brigando com AlphaTauri e Alra Romeo, já pensaram? Divertido é. Principalmente se Bottas, por exemplo, conseguir andar na frente dos carros prateados — o que já conseguiu hoje parcialmente, se colocando em sexto lugar no segundo treino livre; George foi o quarto e Hamilton, o nono. Os tempos estão aí embaixo. Sugiro uma lupa, caso não estejam enxergando nada. Cortesia da nova infografia da F-1, que reduziu o tamanho das fontes (letras seria termo mais adequado e menos informatizado, creio, mas já era, ninguém mais fala letra, só fala fonte) para que ninguém veja nada, mesmo.
Os tempos em letras minúsculas: lupa necessária
Eis aí uma surpresa, a Alfa Romeo nas mãos de Bottas, que no entanto já teve um problema de motor e precisou trocar um componente daqueles que não podem ser trocados ao bel prazer da equipe. Mas como o campeonato nem começou, não teve punição. Guanyu Zhou, seu companheiro, ficou bem para trás, mas é estreante e não tem muito problema começar assim. Outra surpresa, enorme: a Haas.
A equipe que no ano passado se arrastou e que poucas semanas atrás perdeu patrocínio e piloto russos, conseguiu andar bem na última semana nos testes lá mesmo no Bahrein e não é que hoje confirmou que, ao menos, não será uma piada pronta para alegrar “Drive to survive”? Schumaquinho em oitavo e Magnussen em décimo. Tá bom pra vocês?, diria Günther Steiner, estrela da Netflix.
Magnussen: andando bem com a Haas
E aí a gente fecha com os demais coadjuvantes antes de entrar na análise um pouco mais detida da turma da frente. Aqui, destaquemos o bom quinto lugar de Alonso, e o desempenho interessante de Gasly e Tsunoda no treino diurno, com sol e calor (de noite o carro perdeu rendimento). Pronto, do pessoal da meiúca falamos tudo. Agora, aos ponteiros.
Verstappen foi o mais rápido do dia com 1min31s936. Perto dele, de verdade, só Leclerc, que fez um tempo 0s087 pior. O terceiro colocado, a outra Ferrari, de Sainz, ficou mais de meio segundo atrás. Hamilton terminou o dia a 1s208 do holandês que defende o título mundial. Russell foi um pouquinho melhor, 0s593 mais lento.
Nada indica que esse quadro vá mudar muito amanhã na classificação. A Mercedes tentou tudo para melhorar seu carro hoje, trocando até o assoalho de Hamilton. Não deu certo. Há quem aposte na Ferrari como “carro a ser batido”, nas palavras do chefe da Red Bull, Christian Horner. Talvez ele esteja apenas jogando para a torcida. Max é favorito à pole e à vitória — prognóstico que vem sendo feito desde o final da pré-temporada.
Red Bull, Mercedes, Ferrari, McLaren e Aston Martin: duas bem, três mal
A McLaren foi a decepção do dia com Norris e Ricciardo lá para trás. A Aston Martin também não andou nada, o que é uma pena. Vettel, afastado por Covid, vai sofrer neste ano. Hülkenberg, o substituto oficial, ficou em 17º mas, pelo menos, fez tempos muito parecidos com os de Stroll — uma façanha para quem nunca tinha guiado esses carros novos.
No ano passado, o melhor tempo da sexta-feira fora de Verstappen, também, 1min30s847. Os carros, portanto, não estão muito mais lentos do que em 2021 — coisa de um segundo no caso da Red Bull. A pole de Max no GP barenita da última temporada foi obtida com uma volta em 1min28s997. Acho que vai ficar perto disso na classificação de amanhã.
É um começo de temporada interessante, esse. As primeiras corridas serão marcadas pela luta da Mercedes para se tornar competitiva. Carro que nasce mal, a gente sabe, é difícil de arrumar. Mas não estamos falando de um time qualquer. Por enquanto, o discurso da equipe prateada é: temos potencial, só precisamos encontrá-lo. Dá trabalho. É uma situação à qual Hamilton se desacostumou nos últimos tempos, exceção feita ao ano passado — quando a equipe claudicou no início, mas se recuperou rápido e venceu três das quatro primeiras etapas do campeonato.
Às 19h estaremos no “Fórmula Gomes” para falar do primeiro dia no Bahrein. Apareçam!
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.