SÃO PAULO (boa, menino) – Como de costume, o GP do Brasil teve tanta coisa que não cabe tudo num post só. Então vamos organizar a bagunça aqui. Como se estivesse editando as páginas de um jornal, a primeira retranca do dia vai para Felipe Nasr, nono colocado em Interlagos. [bannergoogle]Felipe II é bom de […]
Publicado em 13/11/2016 às 19:54
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SÃO PAULO (boa, menino) – Como de costume, o GP do Brasil teve tanta coisa que não cabe tudo num post só. Então vamos organizar a bagunça aqui. Como se estivesse editando as páginas de um jornal, a primeira retranca do dia vai para Felipe Nasr, nono colocado em Interlagos.
[bannergoogle]Felipe II é bom de chuva e já mostrara isso num treino em Budapeste neste ano. Hoje, foi um dos nomes da prova. E conseguiu dois pontos para a Sauber que podem significar sua permanência na equipe. Porque esses dois pontos representam um caminhão de dinheiro no caixa do time para o ano que vem. A Sauber assumiu o décimo lugar entre os construtores, deixando a Manor para trás. Os dez primeiros no campeonato recebem valores interessantes, em ordem decrescente. A Mercedes, campeã do ano passado, reforçou a conta bancária em US$ 63,5 milhões. A Marussia, que virou Manor, recebeu US$ 13,5 milhões pelo décimo posto no campeonato.
Como nesta temporada são 11 equipes, a última colocada não vai levar nada por mérito — recebe uma parte do bolo igual às demais apenas pela participação. Assim, numa conta rápida, se graças a este nono lugar a Sauber ficar em décimo no Mundial, vai ganhar US$ 13,5 milhões (ou um pouco mais, depende da arrecadação do ano) para montar seu orçamento para 2017. É um bom dinheiro.
Nasr, assim que recebeu a bandeirada, começou a chorar dentro do capacete e saiu falando pelo rádio com seu engenheiro — ouçam no vídeo abaixo, é bem emocionante.
“É como uma vitória, vocês não sabem quanto!”, disse, e depois: “Nunca deixem de acreditar, nunca, nunca!”. Aí soltou, em português mesmo, o velho “sou brasileiro e não desisto nunca”. Argh. Mas tá valendo, coitado. O alívio pelos pontos, o alívio por ter feito uma prova excepcional, tudo isso acaba justificando o clichê.
Nasr começou a corrida lá atrás, mas na medida em que os mais ousadinhos iam colocando pneus intermediários, foi galgando o pelotão. Assim, na décima volta, a terceira sem o safety-car, apareceu em nono. Até a volta 32, não foi ultrapassado por ninguém. Àquela altura, já era o sexto colocado, posição que assumira na volta 23. Foi quando Ricciardo chegou e levou.
Nenhum motivo para se desesperar. Felipe tinha Ocon atrás dele, servindo como anteparo para alguns carros mais rápidos que vinham chegando. Segurou Alonso um tempão, por 16 voltas, enquanto o espanhol tentava, ao mesmo tempo, se defender de Vettel, primeiro — não resistiu –, e Hülkenberg depois — acabou rodando a 16 voltas do final, e depois teve de remar bastante para terminar em décimo.
[bannergoogle]Hülkenberg também demorou para superá-lo, assumindo o sexto lugar só na volta 59. Verstappen e Ricciardo, que se embananaram com as opções pelos pneus intermediários durante a corrida, acabaram chegando novamente no brasileiro e também passaram. Mas o belo início de prova acabou se pagando. Uma coisa é você estar em décimo e perder três posições no fim. O resultado é zero. Outra, bem diferente, é andar entre os seis primeiros com um carro ruim e ter uma gordurinha para queimar na parte decisiva de uma corrida. Nasr tinha. Caiu de sexto para nono, mas não tinha motivo nenhum para ficar chateado. Ao contrário.
Feliz, emocionado, às lágrimas, Felipe recebeu o abraço de Massa ao final da corrida. “Eu tinha de aproveitar a oportunidade no Brasil e consegui”, disse. Foi, de fato, uma grande virada no momento mais delicado de sua carreira. A Sauber tem de escolher logo seu segundo piloto para 2017. Ericsson, como se sabe, vai ficar. Tem gente na fila, e o mais espevitado é Gutiérrez, que traz apoio de patrocinadores mexicanos endinheirados.
Só que, neste domingo chuvoso e cinzento na metrópole, Nasr mostrou serviço e aliviou o saldo da Sauber no cheque especial. É um bom motivo para que a opção dos suíços seja feita por ele. Pelo que fez em Interlagos, a melhor corrida de sua carreira, o rapaz merece. Hoje, ele foi grande.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.