SÃO PAULO (pra embrulhar peixe já não serve) – Acabou o primeiro treino do dia, último livre, desimpedido e sem censura do fim de semana. Com muita, mas muita mesmo, água na pista, Webber fez o melhor tempo, 1min27s891. Grojã, Kovalento, Sapattos, Heisenberg, Verme, Gutierros, Maldanado, Resta Um e Fútil fecharam os dez primeiros.
Todo mundo reclamou de aquaplanagem e das dificuldades para manter seus carros na pista. Fiquei com medo de que alguém estampasse no Café. Aquele trecho, no seco, não oferece risco algum a carros de F-1. Embora a curva jogue o carro para o lado de fora em direção ao muro, a aderência é enorme e só escapa ali quem tiver algum problema mecânico, tipo uma suspensão arrebentada, um pneu furado ou uma coceira na sola do pé.
Mas, na chuva, isso não vale tanto assim. Webber que o diga. Ele se lembra bem do acidente de 2003.
Felizmente ninguém estampou. Uma hora, achei que Vettel ia. Mas não foi. Quatro pilotos nem fecharam voltas: Rosberguinho, El Segundón, Massacrado e Bonitton. Preferiram ficar nos boxes, no seco.
Neste exato momento, não está chovendo e tem uns Fuscas com aerofólio dando umas voltas. Até as 14h, a pista não vai secar, mas pode ser que, se não cair mais nenhuma gota d’água, o Q2 e o Q3 já permitam arriscar um pneuzinho slick.
Vai ser divertido, em resumo, o treino que define o grid. Que não é treino, a gente usa mal esse termo, é classificação, mesmo. Sendo assim, a primeira frase lá no alto está errada, foi o último treino do fim de semana, não o primeiro do dia.
Usamos, há décadas, “treino oficial” para nomear a sessão que define as posições de largada, o que não é muito preciso, porque os outros treinos todos também são oficiais, não são clandestinos. E a classificação não é treino, é pra valer. Mas é um pouco culpa da F-1, que nos primórdios usava os termos “free practice” e “official practice” para distinguir os livres da classificação.
Enfim, isso não tem muita importância, foi só para encher linguiça.
Público: razoável no setor A, da reta dos boxes, pequeno no resto do circuito. Chuva demais, preços altos, F-1 nunca foi um negócio barato, e um certo desinteresse pela corrida, pelos carros e pela vida que acontece fora de um espertofone, de modo geral. Li hoje no jornal que a Globo perdeu 60% da audiência na F-1 nos últimos dez anos. Acho que isso está acontecendo, mesmo. Porque além de tudo, tem muito mais corrida de madrugada do que antes. Mas é isso, as pessoas não ligam muito mais para corridas, paciência.
No setor G, o mais popular e selvagem, eu diria que o primeiro gomo, perto da freada do Lago, tem uns 70% de lotação. Os outros três estão vazios. Eu disse “gomo”, não “gnomo”. Espero que compreendam “gomo” como sinônimo de “lance de arquibancada”. Ando me explicando muito ultimamente porque percebi que os mais jovens não entendem algumas expressões, o que me espanta porque quando eu era mais jovem entendia perfeitamente as expressões usadas pelos mais velhos.
Digo isso porque outro dia falei “bidu” para uma moça da comunidade que tinha adivinhado a resposta para uma pergunta despretensiosa e ela não entendeu.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.