Verstappen na escaldante Singapura: 50 poles na carreira

Desde 2013 a Red Bull não fazia uma pole-position em Singapura. Desde os tempos dos povos Orang Laut, os nômades do mar que antes de todo mundo ocuparam a ilha do Sudeste Asiático — os chineses só os encontraram no século XIV, mas eles estavam lá fazia um tempão —, holandeses chamados Max Verstappen não largavam na pole-position de um GP de F-1 por aquelas bandas.

Pois o tabu que já durava séculos, milênios, acabou! E outro deve acabar amanhã. Max nunca venceu nas ruas da cidade-estado que já fez parte do Império Britânico, da Federação da Malásia e, independente desde 1965, se transformou em tempo recorde num dos países mais ricos do mundo.

Os povos Orang Laut, nômades do mar: nunca viram um holandês ganhar corrida

Às vezes me pergunto como esses países da Ásia conseguiram crescer tanto em tão pouco tempo, independentemente do caráter político de cada governo — os quatro Tigres Asiáticos, nesse sentido, são bem diferentes entre si. Seis décadas atrás, um espirro na História, Singapura era uma ilha cheia de cortiços e favelas, sem infraestrutura e saneamento básico, violenta e com sérios problemas de corrupção. Tudo resultado dos anos de exploração colonial e, depois, da ocupação japonesa na Segunda Guerra. Aliás, foi na Batalha de Singapura que os britânicos sofreram aquela que alguns estudiosos de assuntos militares consideram uma de suas piores derrotas, com uma força gigantesca de 60 mil soldados tendo de se render em fevereiro de 1942 depois de levar um cacete do Exército Imperial Japonês.

Hoje com cinco milhões de habitantes, um Uruguai e meio, aquela ilha até outro dia fodida e mal paga tem um dos cinco portos mais movimentados do mundo, é o quarto principal centro financeiro do planeta, segundo mercado de cassinos e não vende chiclete nos botequins, nem nas padarias, nem nos supermercados, nem no Oxxo. Quando estive lá, já não lembro quando, me disseram que se eu jogasse chiclete na rua poderia ser preso e ter a mão amputada. Perguntei qual delas, mas o gracejo não foi bem recebido pelo cidadão local — que não confirmou se arrancariam mesmo minha mão, tampouco negou. Na dúvida, fiquei na minha e não masquei nenhum chiclete em Singapura. Saiba disso quando for para lá. Leve uma latinha de balas de cevada Sönksen. Ou uma caixinha de Mentex.

Voltemos às coisas da F-1. Foi a 50ª vez que Verstappen conseguiu uma primeira posição no grid, segunda no ano. Ele se junta a outros quatro pilotos na história que chegaram à marca de meia centena de pole-positions: Lewis Hamilton, o recordista com 104, Michael Schumacher (68), Ayrton Senna (65) e Sebastian Vettel (57). Amanhã Max larga em um GP pela 250ª vez.

Vamos, então, saber como foi essa classificação da antiga ilha fodida que virou uma potência porque não pode mascar chiclete que eles te cortam a língua.

Max leva seu carro à segunda pole no ano, 50ª na carreira

Mal começou o Q1 e Esteban Ocon quase deu de frente no muro, mas não bateu. O mesmo se passou com Lance Stroll. Diagnóstico para ambos: freios frios, apesar dos 30°C de temperatura pelas bandas de Marina Bay. Logo depois Isack Hadjar ficou sem potência e teve de se arrastar de volta aos boxes — ele já havia abandonado a Sprint com problemas de câmbio.

Enquanto isso, tempos pouco emocionantes eram cronometrados sem muito esforço do pessoal da frente, porque a primeira parte da classificação, neste ano, tem sido quase protocolar. Cadillac, Williams e Aston Martin se revezam nas últimas posições e normalmente as ocupam. Não há risco de ser eliminado no Q1 a não ser em casos muito excepcionais. Mesmo equipes intermediárias como Audi, Haas, Racing Bulls e Alpine evitam fazer das tripas coração para avançar ao Q2. E sempre tem um ou outro de time grande que acaba tendo um probleminha e livra a cara de algum sortudo da galera do fundão. Hoje o infeliz foi Hadjar. Na garagem da Red Bull, constataram que um problema no motor não permitiria sua volta à pista.

E, sem surpresa nenhuma, Fernando Alonso, Alexander Albon, Stroll, Sergio Pérez e Valtteri Bottas se juntaram ao francês, que não fez tempo, e foram limados no Q1. Dos cativos da degola, quem se safou foi Carlos Sainz, da Williams. Gabriel Bortoleto bateu na trave e se classificou em 16º, bem longe de seu companheiro Nico Hülkenberg, o sexto. O melhor tempo foi de Hamilton, 1min32s429. Charles Leclerc, Lando Norris, Liam Lawson e Oscar Piastri ficaram com as cinco primeiras posições.

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Antonelli: mais uma chance de aumentar a diferença para Russell

No Q2, porém, o buraco é mais embaixo para o pelotão intermediário, que busca as migalhas do Q3 deixadas pelas quatro grandes. Hoje, por causa da quebra de Hadjar, seriam três vagas no paraíso para aqueles que costumam se conformar com o purgatório. E os ungidos foram os dois da Racing Bulls, Lawson e Lindblad, e Pierre Gasly, da Alpine. Ficaram pelo caminho Hülkenberg, Oliver Bearman, Ocon, Sainz e Franco Colapinto. Hamilton voltou a ficar em primeiro com 1min31s529, seguido por Verstappen, Norris, Leclerc, Kimi Antonelli, George Russell e Piastri.

Verstappen foi o primeiro a sair dos boxes no Q3. Fez uma volta em 1min31s373, pior que a da pole para a Sprint, ontem (1min31s156). Mas um bom tempo, sem dúvida. Hamilton, em sua primeira volta rápida, ficou atrás dele, a 0s123. Percebeu que a moleza das duas primeiras partes da classificação não seria a mesma. Max e a Red Bull tinham deixado suas melhores versões para o fim, piloto e carro. O duelo, que ainda não tinha terminado, parecia estar restrito aos dois, Verstappen e Hamilton. Mas o menino Antonelli, com um tempo 0s189 pior que o do holandês até aquele momento, corria por fora.

Na segunda bateria de voltas voadoras, Verstappen foi para a pista depois que todo mundo. Clássica estratégia de ver o que os outros fariam, para saber se precisaria fazer alguma coisa. E não precisou fazer nada. Leclerc foi o único que se aproximou dele, e até chegou perto: fechou uma volta com uma diferença minúscula de 0s054, tirando o segundo lugar do companheiro. Lewis fez uma volta pior que a anterior e larga em terceiro. Antonelli foi o quarto, seguido por Norris, Russell, Piastri, Gasly, Lawson e Lindblad. Como chegou a Singapura punido pela troca de motor, George cai de sexto para a última fila. Todos que ficaram atrás dele subiram um posto. O grid está aí embaixo.

O grid já corrigido: pole costuma vencer em Marina Bay

Eu tinha dito aqui que Verstappen ia passar a régua em tudo neste fim de semana, por isso acho que vocês que me leem, meia dúzia de abnegados e amantes das boas letras, não se surpreenderam com a pole-position. O favoritismo à vitória na corrida de amanhã é claro e translúcido. Não só porque o momento no campeonato é dele e da Red Bull, mas também pelo histórico dessa pista: em 16 edições, foram 11 triunfos de quem largou na pole. O circuito urbano de Marina Bay é complicado para ultrapassagens. Ninguém inventa muito nas estratégias – haverá uma troca de pneus apenas, se não aparecer nenhum safety-car maroto – e milagres não são muito comuns nessas ruas.

O GP de Singapura começa às 9h daqui, 20h de lá, e terá 62 voltas. E cuidado, pilotos! Ouvi dizer que se vocês jogarem na rua aquelas viseiras plásticas que ficam trocando a corrida toda, eles arrancam seus olhos.