Champanhe no gelo: já pensando em 2027

SÃO PAULO (às ruas) – Max Verstappen completou o serviço em Singapura. Passou a régua num fim de semana em que só não levou para o currículo a melhor volta da corrida. O holandês já tinha feito duas poles, para a Sprint e para o GP principal. Ontem, venceu a prova curta de Marina Bay. E hoje ganhou de ponta a ponta a 17ª etapa do Mundial, confirmando seu favoritismo e já acenando para 2027. Porque se alguém não está enxergando, que passe a fazê-lo. O que está acontecendo neste momento do campeonato é uma prévia do ano que vem. O carro da Red Bull acordou. E carro vencedor nas mãos certas geralmente é campeão. Todos se lembram do que fez Verstappen em 2023, por exemplo.

Mas estamos falando de um futuro talvez um pouco distante, considerando a velocidade com que a Terra gira em torno do Sol — é o que dizem, se bem que eu acho que é tudo mentira, está na cara que a Terra é plana, basta ver o abismo que se avizinha se…

Não, não vai acontecer. Chapéus de couro hão de estender suas mãos calejadas para nos tirar de lá.

Coloquemo-nos no presente, pois, este da F-1. O resultado do GP de Singapura hoje estabeleceu a possibilidade de termos um novo campeão já na próxima etapa, daqui a duas semanas em Austin, no Texas. Kimi Antonelli foi o terceiro colocado em Singapura, atrás ainda de Charles Leclerc, da Ferrari. Lewis Hamilton e George Russell, que vêm atrás dele na tabela, chegaram respectivamente em sexto e nono.

Às contas.

Kimi chegou a 340 pontos, contra 238 de Russell e 229 de Hamilton. Matematicamente, restando seis provas para o fim do campeonato, Verstappen (221) e Leclerc (215) também podem ser campeões. Mas para isso acontecer os três primeiros precisariam pegar carona numa cauda de cometa pela Via Láctea, estrada tão bonita, e voltar só para o Natal. Deixemo-los de lado, então.

Para ser campeão nos EUA, Antonelli precisa necessariamente vencer a corrida. Se chegar em segundo, mesmo que Russell não marque nenhum ponto ainda poderia ultrapassá-lo nas cinco provas seguintes. Ganhando em Austin, o italiano fica com o título se Russell terminar abaixo de oitavo e Hamilton, abaixo de quarto. As duas coisas precisam acontecer. É o cenário mais fácil de visualizar. Por outra: se Russell chegar até o oitavo lugar ou Hamilton ficar entre os quatro primeiros, a decisão é adiada para a prova seguinte, mesmo com vitória de Antonelli.

Mas há um detalhe aqui que não pode ser desprezado. Estamos falando de seis corridas restantes. Depois da tripleta EUA-México-Brasil, ainda há a previsão de Las Vegas-Catar-Abu Dhabi. Se essas duas últimas forem canceladas por causa da situação no Oriente Médio, porém, Antonelli já é campeão matematicamente. O atentado de ontem em Riad, que matou 12 pessoas e feriu mais de 300 no aeroporto da capital da Arábia Saudita, acendeu novamente a luz amarela nos organizadores do campeonato. A região, definitivamente, não é segura.

Seja como for, Antonelli será campeão. Agora, se cancelarem dois GPs, ou no máximo até Interlagos, caso o calendário bata mesmo nas 23 corridas previstas por enquanto. E depois do que se viu nas duas últimas provas, na Malásia e em Singapura, talvez o jovem da Mercedes tenha alguma dificuldade para ganhar corridas e tenha de somar pontos do segundo degrau do pódio para baixo. Porque neste momento Verstappen é o nome da F-1.

Sua vitória em Singapura foi tranquila, numa corrida sem grandes emoções. Não choveu, como ontem, e isso acabou eliminando componentes de imprevisibilidade que a água sempre traz com ela.

Com termômetros nos 30°C, pilotos suando às bicas, dez foram para o alinhamento com pneus médios para a largada, contra 12 de macios. Mas, dos primeiros postados na grelha, só Hamilton tinha os médios, com a intenção de esticar o primeiro stint — projeto do qual ele abdicou no início, como veremos adiante. Os demais optaram pelos mais aderentes porque a largada em Singapura é muito importante. Fazer a primeira curva na frente quase sempre determina o resultado final da prova.

Na largada, os seis primeiros se mantiveram onde estavam. Arvid Lindblad perdeu quatro posições e foi o pior do início. Russell, lá atrás, ganhou duas e fechou a primeira volta em 17º. Nico Hülkenberg e Carlos Sainz também foram bem, com o alemão da Audi saindo de décimo para oitavo e o espanhol da Williams, de 13º para décimo.

Verstappen, que ontem começou mal a Sprint — porque a Red Bull falou pra ele: “Larga em segunda marcha que dá certo!”, e deu errado —, desta vez engatou a primeira e não permitiu que Leclerc fizesse a primeira curva na frente. Era tudo que precisava para determinar o ritmo da corrida.

Mas tinha de combinar com os russos. E Leclerc, que nasceu em Mônaco, não em Leningrado, não estava muito a fim de deixar o holandês escapar. (Suponho que vocês sabem a origem da expressão “combinar com os russos”. É da Copa de 1958, quando o técnico Vicente Feola, antes do jogo contra a União Soviética, traçou uma estratégia mirabolante, apresentou-a ao time em sua prancheta, anteviu lances e jogadas e garantiu: assim a gente ganha. Então Garrincha fez a pergunta mais do que pertinente: OK, professor, mas o senhor combinou com os russos? Dizem que isso não aconteceu de verdade, mas a história é boa e deu origem a uma expressão ótima, que uso com frequência apesar do estranhamento geral dos interlocutores.)

Na oitava volta, Gabriel Bortoleto pifou. O brasileiro estava na reta dos boxes quando seu Audi começou a fazer um ruído estranho no câmbio. Também tenho um Audi. Verdade que é mais antigo que esse da F-1, foi fabricado em 1997. Mas é meu desde zero. Outro dia quebrou, também, pela primeira vez. A bomba d’água arrebentou. Mas já está na oficina arrumando. Como só uso carros ligados à F-1 de alguma forma, agora tenho andado de Twingo, que é da Renault, dona da Alpine. Se quebrar também, vou de Mercedes. Ônibus.

Foi preciso acionar o safety-car virtual para recolher o carro de Bortoleto, que estava com uma pintura linda neste fim de semana — um prata mais claro e umas paradas com fundo azul, fazendo referência à cultura peranakan, ligada aos imigrantes chineses que no século 15 começaram a chegar a Singapura e se casaram com mulheres malaias. A intervenção da direção de prova durou muito pouco e ninguém se meteu a esperto para trocar pneus naquele momento.

E a corrida foi seguindo. Nada acontecia de muito interessante na frente lá pela altura da volta 15. O trabalho maior era dos dois pilotos de times de ponta que largaram no fundão, Russell e Isack Hadjar. O primeiro, naquele momento, aparecia em 12º; o outro, em 16º. Ambos teriam muito trabalho para chegar nos pontos. Tinham largado com pneus médios, para deixar a troca mais para o fim da prova, e sofriam para fazer ultrapassagens a conta-gotas.

Max, na ponta, já tinha 3s de vantagem sobre Leclerc e seguia altaneiro rumo a uma vitória que para ele seria inédita. Hamilton vinha mais distante em terceiro, com Antonelli perto dele e Lando Norris perto de Antonelli. Eram os cinco primeiros. Oscar Piastri, Liam Lawson, Hülkenberg, Pierre Gasly e Oliver Bearman fechavam o top-10. Na volta 19, Hamilton surpreendentemente abriu a janela de pit stops e colocou pneus macios. Se a ideia inicial de largar com médios era esticar a primeira andada — não sei se existe “andada” — e ganhar algumas posições quando os outros parassem, mudou no meio do caminho. Voltou em sétimo e começou a remar de novo.

Na volta 20, a diferença de Max para Chaleclé dobrara para 6s em relação ao nosso último boletim, da volta 15. O monegasco começou a reclamar dos pneus. O segundo dos ponteiros a parar foi Antonelli. Colocou médios e voltou em sexto. Leclerc veio na volta 25, quando já estava mais de 9s atrás do líder. Ao sair dos boxes, deu-se com Hamilton grudado em seu rabo. Não me entendam mal, a expressão ora usada não carrega nenhum sentido sexual, erótico ou pornográfico. Rabo, no caso, é o que poderia ser entendido como a cauda do automóvel, a mesma cauda do cometa. Eu poderia usar outras palavras como popa, retaguarda, traseira, mas nenhuma delas teria o mesmo efeito que rabo.

No rabo de Leclerc, como eu dizia antes de ter de dar explicações, Hamilton entrou no rádio e disse que estava muito mais rápido que o companheiro. De fato. Com pneus macios versus os médios de Charlinho, o inglês tinha um ritmo mais forte. Mas sabe-se que na Ferrari as relações interpessoais não são muito amistosas. Leclerc gostava mais de Sainz, piloto da mesma geração, idade parecida, gostos similares, roupas semelhantes. Lewis, 12 anos mais velho, está em outra. Por isso, ele nunca deixa o parceiro passar.

Russell entrou na zona de pontos na volta 30, quase metade da prova. Na volta 31, Franco Colapinto empacou, mas estacionou seu Alpine em local seguro e não foi necessária nenhuma intervenção de safety-car, virtual ou real. Aos poucos, pilotos aqui e ali iam parando nos boxes para trocar seus pneus. Verstappen, Norris e Piastri, os três primeiros de então, seguiam com a borracha que tinham desde o início. Max tinha 19s9 de vantagem para o inglês da McLaren. Na volta 33, parou. Como Norris fez o mesmo, o líder voltou à pista ainda em primeiro.

Levou um tempinho para Verstappen reencontrar o ritmo. Sua diferença para Leclerc, de novo o segundo após as paradas do resto da choldra, chegou a cair para menos de 5s. Mas depois voltou a subir. Na volta 39, Verstappen Soberano, Leclerc Marrento, Hamilton Contrariado, Antonelli Queixoso (pelo rádio, reclamou que tinha alguma coisa molhada entre os pés, e depois que o carro estava esquisito), Norris Envergonhado, Piastri Calado e Russell Infeliz eram os sete primeiros. Então houve um novo safety-car virtual por causa do abandono de Lance Stroll. Leclerc parou, Antonelli também. Russell, idem. Azarado, o inglês ainda trocava seus pneus quando o regime de safety-car virtual foi levantado. Voltou em décimo.

Chacoalhado o pelotão pelos pit stops, incluindo um extra de Piastri com um pneu perdendo pressão, a ordem dos dez primeiros na volta 43 era Verstappen, Hamilton, Leclerc, Norris, Antonelli, Piastri, Lawson, Hülkenberg, Gasly e Russell. No horizonte não havia nada de muito interessante para acontecer até o fim da corrida, exceto uma possível nova refrega entre os pilotos da Ferrari. Lewis tinha pneus macios já bem usados, perdendo ritmo em relação ao seu companheiro — que já tinha parado duas vezes e, portanto, calçava um pisante melhor. Charles efetivamente colou em Hamilton na volta 45. “Estou no rabo dele!”, avisou. Pelo rádio, o time especulou uma segunda parada para o inglês, também. Leclerc acabou passando Hamilton sem muita palestrinha e voltou à segunda posição. Mas estava 15s atrás de Verstappen. Se pretendia ganhar a corrida, há que ser honesto aqui, aplicava-se nova expressão popular: não daria nem que a vaca tossisse.

Deu a impressão de que a vaca tossiu na volta 51, quando Max fez uma volta mais de 2s mais lenta que a do ferrarista. Na verdade ele cometeu um pequeno erro e perdeu tempo. Aprumou-se e foi em frente. A diferença era grande, riscos não havia, mas uma situação meio aflitiva acontecia ali: as comunicações de rádio entre o piloto e o time eram muito ruins, pareciam as gravações falsas que a “Veja” colocou no ar por esses dias, numa ridícula tentativa de eleger o filho do saco de estrume. Foi preciso recorrer a um código simples: “Max, se você quiser trocar pneu, grita qualquer coisa. Se não quiser, fica quieto”, disse o engenheiro. Ouviu-se um grunhido incompreensível, interpretado como “não”.

Na 54ª volta, um pingo de emoção. Norris chegou em Hamilton, com pneus bem melhores. Antonelli veio junto. Lewis chegou a sair para a área de escape, mas não perdeu posição. Quem caiu, sim, foi Lando, que também se atrapalhou e acabou sendo superado por Kimi. Este, na volta 55, passou pelo inglês da Ferrari sem grande dificuldade e assumiu a terceira colocação. No fim da mesma volta, Norris também deixou o #44 para trás.

Os pneus do heptacampeão estavam em petição de miséria, já que a troca para macios tinha acontecido muito cedo, na volta 19. Seu ritmo era tão ruim que em sete voltas ele caiu de terceiro para sexto, tendo sido ultrapassado também por Piastri, o último a riscar seu capacete brilhoso. Depois da corrida, ainda pelo rádio, Hamilton pediu desculpas ao time por ter feito a troca prematura. “Foi decisão minha, deixei vocês na mão”, falou. “Vou melhorar na próxima.” A equipe o perdoou, claro.

Verstappen recebeu a quadriculada 7s3 à frente de Leclerc. Antonelli fechou o pódio. Norris, Piastri, Hamilton, Lawson, Hülkenberg, Russell e Hadjar completaram os pontos. Os dois últimos, como já mencionado, tendo largado do fundão. Mas numa pista como essa, travada, de ultrapassagens complicadas, não dava para esperar nenhum milagre de ninguém, mesmo com carros rápidos.

Foi a 73ª vitória de Verstappen na carreira, a primeira em Singapura, pista onde não tinha vencido ainda. Vai para a próxima, em Austin, como chegou a Marina Bay: favorito de novo, porque a Red Bull agora tem um carro vencedor, e com um carro vencedor vence o melhor; e Max é o melhor.

Esta reta final de campeonato, creiam, está desenhando a próxima temporada. Voltemos a falar do futuro. Verstappen será penta em 2027.