
SÃO PAULO (mas passa) – Começo a achar que tem razão quem defende o fim dos treinos livres de sexta-feira na F-1. Sim, é preciso treinar. Sim, é preciso acertar o carro. Sim, é preciso descobrir coisas, experimentar, tentar. No fundo, treinos são importantíssimos, mesmo.
Mas nos tempos em que vivemos, de necessidade de saber que “está acontecendo alguma coisa”, como explicar isso a uma geração movida a dopamina alimentada por vídeos de cinco segundos (os mais longos)? Como dizer a eles que antes de um GP é preciso dispor de duas horas, pelo menos, para andar com um carro de corrida ultra complexo e tentar melhorar seu desempenho a partir de variáveis como pressão e temperatura de pneus, ângulos de suspensão, rigidez de molas, calibragem de equipamentos eletrônicos, otimização de gestão de bateria, pontos de frenagem, dosagem de aceleração, distribuição de peso, posições de asas?
Pois é, difícil. E, aí, ficamos nós também sem notícias, porque “nada aconteceu” que possa ser resumido num vídeo de cinco segundos, e estamos tentando agradar a geração dos vídeos de cinco segundos, o que é um erro. É uma geração perdida. Que só crê em IA e naquilo que as telas de seus celulares dizem.
Estamos perdendo tempo.
Bem, vamos a Monza, dia #1.
Sob um calor senegalesco (vivas à “tara estilística do adjetivo” de Nelson Rodrigues!), 31°C e 57°C no asfalto escaldante (vivas de novo!), deu Ferrari no primeiro treino e Mercedes no segundo.
A Ferrari está toda animadinha para o GP da Itália porque estreia uma nova versão de seu motor, atualizada segundo os critérios da FIA que permitem algumas mudanças nas unidades de potência ao longo do ano, tudo absolutamente controlado e regulado com etiquetas e lacres numerados por códigos de barra e QR codes, fiscalização permanente por câmeras de segurança e juras de honestidade dos fabricantes de motores e dos times que os utilizam. Cada parafuso de um carro de F-1, garantem entidade e equipes, é rigorosamente catalogado e contabilizado.
Tá bom.
Seja como for, o tal motor atualizado e upgradado graças às oportunidades adicionais de desenvolvimento (se você encontrar “ADUO” em algum “conteúdo” por aí, acrônimo pronunciado na maior intimidade, como se fosse algo que todos devessem ter a obrigação de conhecer, é isso o que quer dizer, mais ou menos) deu a impressão no primeiro treino de que, beleza, funcionou. Charles Leclerc virou 1min23s008 em sua melhor volta, Lewis Hamilton ficou em segundo e quem andou mais perto foi George Russell, da Mercedes, ficando a 0s304 do monegasco.

Na segunda sessão, debaixo de um sol inclemente (vivas!), Russell passou à frente fazendo 1min22s559, deixando Leclerc em segundo a 0s120 dele, com Kimi Antonelli em terceiro. Hamilton ficou apenas em quinto, deixando no respeitável público italiano uma dúvida cruel: será que os elogios rasgados do primeiro treino foram exagerados e acabaram despertando a Mercedes de um sono profundo? Ou os alemães estão com alguma intenção diabólica e fizeram algum trabalho insano em seus motores para pegar a Ferrari de calças curtas em casa?
Fato é que a alegria contagiante das arquibancadas depois do 1-2 ferrarista foi perdendo força com o bom desempenho dos carros prateados na segunda atividade do dia. Na Mercedes, a aposta do fim de semana será feita em Russell, mesmo, porque Kimi, líder do campeonato, terá de largar na última fila ao lado de Alexander Albon, da Williams, já que ambos trocaram todos os componentes de seus motores e extrapolaram os limites estabelecidos por regulamento. Daí as punições.

O jovem italiano, no entanto, mantém uma fé inquebrantável na recuperação ao longo das 53 voltas da corrida, já que o circuito não é dos mais complicados para ultrapassagens. Vai buscar o que for possível, com sua pureza angelical. Um pódio seria uma prova robusta de sua plena condição de ser campeão aos 20 anos de idade, completados há dez dias – ontem levou umas tortas na cara do pessoal da equipe à guisa de comemoração.
Ferrari e Mercedes parecem ser as maiores candidatas à vitória, já que a McLaren, vencedora das últimas duas etapas na Hungria e na Holanda, vive um certo equilíbrio instável nesta temporada – não anda bem em todo tipo de pista. A Red Bull, por sua vez, é a quarta força do Mundial e está distante da luta por vitórias. Seu principal piloto, Max Verstappen, tem sido barbaramente torturado pela inconsistência de seu carro, que ora tem a frente sem aderência, ora não freia direito, ora é lento nas reduções de marchas, e o resultado disso, hoje, por exemplo, foi um discretíssimo nono lugar no segundo treino livre, a 0s818 de Russell. Não há muito o que fazer.
Notícia-notícia, mesmo, veio dos tribunais. Pierre Gasly foi demovido de seu pódio de Mônaco depois das apelações de Red Bull e McLaren contra a revisão do resultado da corrida disputada em maio. Explicando. O francês da Alpine recebeu a bandeirada em terceiro, mas tinha duas punições de 5s cada por excesso de velocidade dos boxes. Caiu para sétimo. E Isack Hadjar, da Red Bull, ficou com o terceiro troféu do dia. A equipe pediu a revisão da medição de velocidade e conseguiu provar que houve um erro dos comissários – a distância da entrada do pitlane até a posição de parada dos carros nos boxes tinha uma imprecisão. Gasly não havia excedido a velocidade máxima de 60 km/h. A FIA acatou o pedido, assumiu o erro e confirmou Pierre em terceiro alguns dias depois.

Mas como outros pilotos tinham sido punidos pelo mesmo motivo ao longo da prova, e pagaram seus pênaltis durante a corrida, Red Bull e McLaren apelaram e conseguiram reverter o resultado. Hadjar retomou o terceiro posto. Oscar Piastri ficou com o quarto lugar. Gasly voltou ao sétimo. Flavio Briatore, chefe da Alpine, disse que a decisão foi injusta e acusou um dos juízes do caso de ter ligação com a McLaren e com o banco Master, de ter pedido dinheiro a Daniel Vorcaro para fazer uma cinebiografia de Ron Dennis e de chamar o banqueiro de lindão. Andrea Stella, chefe da McLaren, diante do oponente na entrevista coletiva, respondeu: esta conversa está indo para um rumo perigoso.
Mas está feito. A demoção de Gasly do pódio representou um prejuízo razoável para a Alpine, nove pontos. Para piorar, quem tinha ficado atrás dele em Mônaco subiu uma posição, e entre eles estava a dupla da VISA Te Leva à Próxima Copa, Arvid Lindblad e Liam Lawson. Com isso, na briga pelo quinto lugar do Mundial de Construtores, a filial da Red Bull se deu bem. Antes da revisão do resultado, estava apenas três pontos à frente dos franceses, 66 x 63. Agora a diferença foi para 16: 70 x 54. Do ponto de vista financeiro, é uma dor lancinante para o time azul & rosa. Para Hadjar, que não correu na Holanda e está fora do GP da Itália por conta de uma contusão no punho, um merecido prêmio. Gasly não ligou muito e recebeu a decisão com uma frieza sepulcral depois de um café da manhã reforçado. O choro convulso ele teve no domingo de Mônaco, mesmo, porque não foi ao pódio no dia da corrida. A taça foi entregue depois, quando esse tipo de coisa já perdeu a graça. Não fará falta em seu espaçoso apartamento de Milão, decorado com uma beleza estonteante em uma rua de verde abundante.
Outra notícia-notícia: no ano que vem, as corridas terão distâncias totais menores, caindo da média de 305 km para 290 km. Isso porque os motores a combustão ganharão relevância na distribuição de potência com seus vizinhos elétricos. Hoje a proporção é de 53% para 47%. A ideia é chegar a 60-40 pró-combustão em 2028. Os motores, portanto, vão gastar mais combustível. Para não mexer no tamanho dos tanques, diminui-se a distância percorrida. Essa redução de cerca de 5% vai tirar, dependendo do circuito, de duas a quatro voltas por GP. Ninguém vai morrer por causa disso.

Por fim, o último anúncio do dia. De 18 a 20 de fevereiro, em Milão, será feita uma apresentação da temporada 2027 num festival chamado “F-1 Live Milan”, dividido em duas atividades. Na primeira noite acontece o “F-1 The Show”: estarão presentes pilotos e dirigentes, carros serão mostrados, ingressos serão cobrados e lautas refeições serão servidas. Já o “Milan Fan Festival” dura três dias e é possível que um ruído infernal de música alta estoure os tímpanos de quem tiver a coragem suicida de pagar para participar em pleno inverno europeu. Ainda não sei quanto vai custar e não disseram onde, exatamente, vai ser. Mas como a apresentação de 2025 em Londres deu certo, resolveram repetir e ampliar.
Faltaram o festejado autor e o fraterno abraço. Bem, o primeiro sou eu. E o segundo não falta mais. Viva Ruy Castro.
Até amanhã.