Norris na pole: surpresa na capital espanhola

MACARAÚ (com fome!) – Lando Norris fez uma pole-position espetacular hoje em Madri. O inglês da McLaren não foi o primeiro colocado em treino nenhum desde ontem, e nem pôde andar na segunda sessão, com o câmbio quebrado. A rigor, esteve sempre em posições intermediárias e discretas nas sessões que antecederam a definição do grid para o GP da Espanha. Ninguém apostaria nele na classificação – Mercedes, Ferrari e Red Bull eram as favoritas, e confirmaram isso nos dois primeiros segmentos, o Q1 e o Q2, com as melhores voltas. Mas no Q3, que é o que vale, o campeão mundial fez uma daquelas voltas que lembram gols de placa. E conseguiu sua terceira pole na temporada, 19ª na carreira.

Kimi Antonelli, líder do campeonato, perdeu a pole por 0s011 e divide a primeira fila amanhã com o carro papaia que ostenta o número 1 no bico. É difícil apontar um favorito para a corrida a partir das posições de largada. Muita coisa, aliás, depende das primeiras voltas. A pista madrilenha, estreante no calendário, não é das mais fáceis para ultrapassagens. Na preliminar de F-2, por exemplo, viu-se um trenzinho aborrecido em que as posições da primeira volta mudaram muito pouco até a bandeira quadriculada.

O grande perdedor do sábado foi, adivinhem, George Russell. Vice-líder do Mundial, companheiro de Antonelli, larga apenas em sexto, atrás ainda de Max Verstappen, o terceiro no grid, e da dupla da Ferrari. Será uma prova de pelo menos duas paradas para troca de pneus, de acordo com os prognósticos. As estratégias serão decisivas para ganhar posições. O GP da Espanha, 14º da temporada, começa às 10h de Brasília e terá 57 voltas.

O sábado quente e ensolarado da capital espanhola começou, no terceiro treino livre, com duas batidas: Hamilton e Oliver Bearman. A primeira deu trabalho à organização. Os fiscais de pista levaram 40 minutos para encaixar as peças da barreira de contenção. Com isso, a direção de prova travou o cronômetro a 15min do final para não anular a sessão de vez. No final, o britânico da Haas também bateu, mas faltava menos de um minuto para o encerramento. Seu prejuízo foi enorme: o carro não pôde ser reparado a tempo e ele nem participou da classificação.

Hülkenberg, da Audi: dupla da equipe ficou no Q2

Com 30°C, sol e 53°C no asfalto, a sessão que definiu o grid começou na hora certa, seguindo a programação do sábado. Ninguém precisava se preocupar muito com eliminação porque as duplas da Cadillac e da Aston Martin, além do desafortunado Bearman, já ocupavam cinco das seis vagas da degola. A sexta seria de alguém da Williams, outra equipe que se arrasta neste ano. Por isso, alguns pilotos lá de cima chegaram a fazer suas voltas com pneus médios – Hamilton, Leclerc e Verstappen foram os “alguns”.

Sem surpresa nenhuma, ficaram no Q1, pela ordem a partir do 17º, Carlos Sainz, Fernando Alonso, Sergio Pérez, Valtteri Bottas, Bearman e Lance Stroll, os dois últimos sem tempos de volta. Para os torcedores espanhóis, uma dura realidade: seus dois pilotos não conseguiram avançar ao Q2. O primeiro, por 0s005; o segundo, por 0s081. Do lado de cima da tabela, Russell ficou em primeiro com 1min33s211, 0s056 à frente de Antonelli. Liam Lawson, Verstappen, Norris, Hamilton, Charles Leclerc, Oscar Piastri, Franco Colapinto e Gabriel Bortoleto foram os dez primeiros. Como referência, Antonelli havia sido o mais rápido no último treino livre com 1min32s797. Os tempos cairiam bem até o final. E os indícios até ali apontavam para uma batalha entre os pilotos da Mercedes pela posição de honra.

Piastri, da McLaren: longe do companheiro

E os tempos realmente começaram a desabar já na primeira volta de Kimi no Q2, 1min32s603, melhor tempo do fim de semana até então. Marca que não durou muito: na sequência, Verstappen virou 1min32s557, acenando para os rivais do time alemão: vocês me convidam para esta dança pela pole-position? Seria companhia incômoda para os mercêdicos, que se tornou ainda mais inconveniente quando o holandês bateu o cronômetro em 1min32s431, melhorando ainda mais seu tempo. Abriu 0s160 para Antonelli, o segundo. Foram com eles ao Q3 Hamilton, Leclerc, Lawson, Russell, Norris, Colapinto, Piastri e Arvid Lindblad. Ficaram pelo caminho, a partir do 11º, Nico Hülkenberg, Bortoleto, Esteban Ocon, Pierre Gasly, Yuki Tsunoda e Alexander Albon. Decepcionaram Gasly, pole da última corrida, em Monza, e Tsunoda, já que a VISA Te Leva ao Rock in Rio (minha cota de gracinhas está-se esgotando; bem que a Red Bull poderia mudar de novo o nome dessa equipe) tinha conseguido impressionar bem ontem, com os dois carros entre os dez primeiros.

Antonelli e Russell, então, foram à luta que julgavam ser apenas deles. Abriram o Q3 com excelentes voltas, entrando na faixa de 1min32sBaixo. (O que é isso? Já expliquei outro dia. “Baixo”, nos nossos jargões – “nossos” de pilotos, não esqueçam que sou um deles –, é quando a primeira casa decimal de um tempo de volta fica abaixo de 5. Quando um cara faz 1min32s1, por exemplo, a gente fala “trinta e dois baixo”; 1min32s6 é “trinta e dois alto”.) E, então, apareceu outro convidado indesejado para a festança: Hamilton mandou uma volta igualmente excelente em 1min32s079, colocando 0s061 sobre Antonelli e 0s186 sobre Russell. Verstappen não fez uma boa volta na sua primeira saída e ficou apenas em quinto. Mas estava no jogo, porque suas duas primeiras parciais tinham sido as melhores de todas. Na parte final da volta, porém, a coisa desandou.

Verstappen de cara feia: não gostou do terceiro lugar

A segunda bateria de voltas rápidas teve Max no fim da fila. Seria o último a travar a ampulheta. Kimi arrebentou a boca do balão na sua volta derradeira, 1min31s835, deixando o tempo de Hamilton no chinelo. Lewis ainda melhorou, mas ficou longe do italiano.

Aí, do nada, apareceu Norris.

Por 0s011, o britânico superou o tempo de Antonelli: 1min31s824. Ninguém esperava a McLaren ali. Acabou surpreendendo todo mundo, inclusive ele mesmo. “Foi a volta da minha vida”, exultou. E o grid ficou assim: Norris na pole-position, Antonelli em segundo, Verstappen (a 0s140 do inglês), Hamilton, Leclerc, Russell, Piastri, Lawson, Colapinto e Lindblad nas dez primeiras colocações.

As posições de largada em Madri: 19ª pole da caerreira de Norris

Que seja uma boa corrida, é sempre a torcida de todos. Norris já venceu duas vezes neste ano, na Hungria e na Holanda, onde também largou na pole. São pistas que guardam alguma semelhança com o Madring – pegou, esse nome? Não nas velocidades absolutas, que são maiores na pista espanhola. Mas nas dificuldades para ultrapassar e nas sequências de curvas que tomam muito tempo dos pilotos sem que eles possam atacar ninguém. Veremos. Por enquanto, o novo circuito não empolgou. Mas nunca se sabe. Com muros muito próximos, batidas e intervenções do safety-car estão sempre no horizonte. Por enquanto, é o que acho que pode salvar esse GP.