SÃO PAULO (simples assim) – Ninguém duvidava que o tetra viria na Índia. Vettel dominou todos os treinos, desde sexta-feira, e qualquer coisa que não fosse mais uma vitória seria uma clamorosa surpresa. E mesmo se não aparecesse no autódromo hoje para correr, depois de, sei lá, passar a noite nos braços de Maya, Alonso preciava ganhar ou chegar em segundo para adiar a bagaça.
Óbvio que não conseguiu.
E Vettel venceu, claro. E comemorou com estilo seu quarto título mundial aos 26 anos da mais tenra idade.
Se por um lado é meio esquisito ver um título sendo comemorado num autódromo quase vazio (só tinha gente na reta dos boxes, uma tristeza) num país sem a menor tradição no automobilismo, ao menos ele veio numa pista boa e depois de uma corrida interessante, a melhor entre as últimas, que foram menos que sofríveis.
Vettel ganhou na base da estratégia, aquela estratégia que só quem está muito confiante consegue levar a cabo. Depois de largar bem e manter a ponta, parou na terceira volta para jogar no lixo os pneus macios e se colocar no meio do pelotão com médios, esperando pelo sofrimento alheio com a borracha.
Alonso também parou no começo, mas por outro motivo. Na largada, bateu rodas com Raikkonen e perdeu um pedaço do bico num toque em Webber. Se suas chances eram apenas retóricas até então, ali passaram a ser inexistentes.
Quem largou bem (eu ia escrever “bonitamente”; não existe, mas vou adotar, porque acho injusto poder escrever “belamente” e não “bonitamente”) foi Massa. Bem mesmo. Passou dois antes de fechar a primeira volta, a dupla da Mercedes, e se estabeleceu em segundo. Quando Sebastião parou, virou líder, algo que não tem sido muito comum nos últimos tempos.
Lá pela volta 8 a turma que largou com pneus macios começou a ir para os boxes dando uma embaralhada na classificação. Webber, que tinha pneus médios, assumiu a ponta e foi assim até a volta 29, quando trocou para os macios só por obrigação, apareceu nos boxes de novo quatro voltas depois, colocou médios outra vez e iria assim até o final se não pifasse seu alternador (por isso gosto de dínamo).
Lá atrás, Alonso se esgoelava, coitado, disputando posições com caras como Gutiérrez, Bottas, Maldonado, Brambilla e De Cesaris. Na verdade, Vettel já disputou a corrida toda como tetracampeão, dada a impossibilidade de Fernandinho de fazer sua parte. Talvez isso tenha tirado toda a dramaticidade da conquista. Ela foi simples e cristalina.
Mais dois pilotos demoraram horrores para fazer seu primeiro pit stop: Ricardão e Sutil. O primeiro fez como Webber, colocou macio, cumpriu o que pede a regra e colocou outro médio. Adrian foi até o fim com seu chiclete por 18 voltas, depois de parar na 42ª. Ambos conseguiram pontos, Sutil em nono, Daniel em décimo. No fim das contas, deu certo.
Mas foram meros coadjuvantes, nem sei porque estou falando deles. A corrida teve alguns com atuações muito boas, excepcionais, em alguns casos. Rosberguinho, o segundo colocado, foi sólido, constante e impecável. Grojã, o terceiro, um assombro. Largou em 17° com pneus macios, colocou médios na 13ª volta e foi até o final com o mesmo jogo, passando gente de baciada, inclusive Raikkonen, que até oito voltas do fim estava todo pimpão em segundo, quando seus pneus acabaram e ele começou a ser passado por todo mundo: Rosberg, Grojã (veja no post abaixo a gritaria pelo rádio; quase bateram), Massa, Pérez, Hamilton e Mahatma Gandhi, este a pé. Na última volta, Kimi parou no box, colocou um pneu novo, fez a melhor volta da prova e terminou em sétimo. Bem também foram Massa, quarto, Pérez, quinto, e Di Resta, oitavo. Hamilton, o sexto, teve um domingo discreto.
E acabou o campeonato. Ou, ao menos, acabaram as disputas por títulos. Entre as equipes, a Red Bull levou a quarta taça seguida ao atingir 470 pontos. A briga pelo vice está boa. A Mercedes voltou a passar a Ferrari e tem 313, contra 309 dos italianos. A Lotus ainda sonha, com 285 — faltam três corridas, não se esqueçam, e cada posição na tabela vale alguns milhões de dinheiros europeus. No Mundial de Pilotos, Tiãozinho bateu em 322 pontos. Alonso estacionou nos 207, Raikkonen foi a 183 e depois aparecem Hamilton (169), Webber (148), Rosberg (144) Grosjean e Massa (ambos com 102, mas Romain leva nos critérios de desempate).
Não esperem muito da próxima corrida, em Abu Dhabi, circuito tão feérico quanto ridículo. As duas últimas provas da temporada, porém, devem ser bem divertidas, porque acontecem em circuitos de verdade. O de Austin é bacana e Interlagos, com toda sua zona atávica, é sempre gostoso de ver e de correr. Com todos relaxados e sem grandes preocupações, quem sabe esses GPs redimam uma temporada que, sendo bem honesto, não foi das melhores. Muito pelo contrário.

Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.