
Na contramão: Vettel perde a corrida de novo na primeira volta
RIO (glacial) – A imagem nem é esteticamente muito marcante, mas não tem jeito. Essa foto aí em cima resume o GP da Itália. A discussão é: Vettel errou?
Tem gente dizendo que ele ver errando muito. Nico Rosberg foi um deles. E que num campeonato desses, essas coisas são fatais. Não se é campeão fazendo cagada. Já falei sobre o assunto segunda, no textão pós-GP da Itália. Acredito que o maior e mais desastroso erro de Sebastian no ano tenha sido o da Alemanha. Esse aí, OK, podia ter sido um pouquinho mais cauteloso, mas… Vocês já sentaram num carro de F-1 numa largada? Muitas vezes, não acontecer nada e acontecer tudo é só uma questão de sorte. De bumbum virado para a lua, que é o que está se passando com Hamilton.
De qualquer maneira, se a fase é instável, melhor optar pela cautela. O mais seguro ali era mesmo tomar o lado de fora, para fazer a segunda perna da chicane com alguma preferência. Só que é fácil falar depois. Sigo isentando Tião Italiano. O que não quer dizer que as consequências de sua escolha não tenham sido trágicas.
O que me incomoda um pouco é esse resmunga-resmunga sobre pegar o vácuo no sábado, perder a pole, correr “contra três carros”. Pombas, Kimi tem direito de fazer uma pole. Esse festival de choramingo só faz mal para todos, internamente. OK, Raikkonen nem liga, não sabe nem se vai ficar na equipe, mas numa hora dessas, harmonia 100% é muito necessária.
Em frente?
O NÚMERO ITALIANO
…pódios soma Kimi Raikkonen agora na F-1, e conseguiu atingir os três dígitos num lugar bem apropriado, o templo de Monza. A primeira taça foi a do terceiro lugar na Austrália em 2002, pela McLaren. Com a equipe inglesa, juntou 36 troféus. Pela Lotus preta, quando voltou à F-1, foram 15. E nas duas passagens pela Ferrari, 49. Os pilotos na frente dele que têm as maiores estantes no mundo são Schumacher (155 troféus), Hamilton (128), Vettel (107) e Prost (106). O brasileiro com mais pódios na F-1 é Senna, com 80, em sétimo nas estatísticas.
A alegria “contagiante” de Kimi no pódio talvez tenha incentivado a turba italiana a apupar Hamilton, que não estava nem aí. Uma semana depois de tomar uma surra na Bélgica, deu o troco na Ferrari ganhando na casa dela, com uma atuação muito, mas muito convincente.
Segundo nosso cartunista Maurício Falleiros, fez seu carnavalzinho fora de hora e particular em Monza, deixando os bailes de máscaras de Vaneza para quando eles chegarem. Curti a folia!
E o Verstappen, hein? Menino marrento dos infernos, mas gosto… Se bem que, de novo, aparentemente, ele mudou a direção numa freada, tocando as rodas de Bottas. O moleque não aprende, acha que está certo, que isso é corrida, que ninguém o deixa em paz.
Pode até ser, mas já tem um tempo que não pode. Se não pode, não faz. Fácil. E nem adianta reclamar.
Quem tem de reclamar é Ricciardo, que vive o famoso fim de feira na equipe que ele mesmo já dispensou. Seu carro quebrou de novo — sexta vez no ano, quarta por problemas mecânicos. Será assim até o fim do ano, uma má vontade desgraçada da Red Bull com ele.
A FRASE DE MONZA

Buemi: Toro Rosso?
“Ciao Seb! Our reserve driver stopped by earlier today for another seat fit.”
Vou desvirtuar a bagaça, porque a frase foi escrita hoje em Faenza, que não é longe, e pelo Twitter. Mas significa notícia importante, após um GP de declarações pouco bombásticas. A Toro Rosso postou a foto de Buemi fazendo um banco no seu carro de F-1 na fábrica que fica no norte da Itália. Será?
E terminamos com a nossa tradicionalíssima “Gostamos & Não gostamos” na versão graficamente mais pobre — que, no entanto, continua um show de conteúdo.
GOSTAMOS – De ver a pobre Williams colocar os dois carros nos pontos, ainda que na rabeira do top-10. Não é alento nenhum, mas pelo menos Sirotkin não deixará o mundo da F-1 sem largar para trás o pequeno rastro de um ponto conquistado com suor e lágrimas.
NÃO GOSTAMOS – De ver o esforço todo de Grosjean indo por água abaixo, após um sexto lugar difícil, correndo de motor Ferrari, e em Monza. Foi desclassificado, e o pior é que receio que ele já sabia que seria desde o início, assim como a Haas. A Renault protestou o carro assim que acabou a prova.
Flavio Gomes
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.