SÃO PAULO(garra & paixão) – A treta da Ferrari foi relevante. Talvez uma foto das duas juntas, uma colada na outra, pudesse ser a escolhida como a mais importante do fim de semana. Achei, mas a foto em si não era grande coisa, esteticamente. Daí a escolha dessa aí em cima. Tem uma certa dramaticidade: o piloto da casa abandonando a corrida na primeira volta. Tem, também, algo de inédito – ou, pelo menos, raro: Max Verstappen cabisbaixo. Não lembro de ter visto nada parecido recentemente.
Mas o domingo de Zandvoort teve outro momento marcante. E, por isso, já coloco a segunda melhor imagem da corrida aí embaixo. Trata-se da ultrapassagem de Lando Norris sobre Kimi Antonelli na 53ª volta da prova. E, poucos metros depois, ele passa Lewis Hamilton, que liderava a corrida momentaneamente. Ele ainda tinha de fazer uma troca de pneus. Mas era o líder. E manobras que deixam primeiro e segundo colocados para trás não são corriqueiras.
Norris passa Kimi e ataca Hamilton: momento decisivo
Norris fez um corridão na Holanda. E levou a McLaren à terceira vitória seguida no circuito que se despediu da categoria ontem. Ele mesmo tinha vencido em 2024. No ano passado, foi a vez de Oscar Piastri. As três edições anteriores, 2021, 2022 e 2023, ficaram com Verstappen.
Mas ele ainda está longe de brigar pelo título. O mau começo dos papaias em 2026 está cobrando um preço. Se é verdade que a Mercedes não tem, neste momento, o carro mais rápido do grid – e quem disse isso foi Antonelli, não eu –, o time alemão está longe de viver um momento de decadência. Somando Sprint e GP da Holanda, a Mercedes saiu de Zandvoort com 46 pontos. A McLaren fez 43. Num fim de semana ruim, resumindo, a equipe foi melhor que todo mundo.
Mercedes: dia ruim, melhor que todo mundo
No quadro acima, vale também destacar que a Audi se aproximou bem da Haas, que não pontua há seis GPs, desde Mônaco. Já os quatrargólicos terminaram com pontos as últimas quatro corridas. No placar, Haas 21 x 16. Mas é questão de tempo, a ultrapassagem na briga pelo sétimo lugar.
Já a luta pela quinta posição segue forte entre Racing Bulls (estou sem tempo para apelidos hoje), com 66, e Alpine, com 63. A filial da Red Bull, que não marcou em Zandvoort, vinha de sete corridas seguidas pontuando. E só tinha zerado uma vez no ano, em Miami.
Pilotos: Kimi segue avançando
Entre os pilotos, Antonelli abriu mais um pouco em relação ao vice-líder. Estava 50 pontos à frente de Hamilton depois do GP da Hungria, agora tem 59. E Lewis, embora tenha a mesma pontuação que George Russell, 183, não está mais em segundo no campeonato. Perde no desempate para o companheiro de Kimi na Mercedes.
Conclusão: mesmo sem ter vencido no fim de semana, na Sprint e na corrida principal, o italianinho ampliou sua vantagem na caminhada pelo título.
O NÚMERO DA HOLANDA
…vezes o pole-position venceu o GP da Holanda nas seis edições da corrida desde a volta do país ao calendário, em 2021. Norris, porém, não foi quem mais liderou a prova. Esteve em primeiro por 31 voltas, contra 32 de Antonelli. Hamilton também ocupou a ponta por nove voltas.
Falando em Hamilton, talvez ontem tenha sido seu dia mais tenso na Ferrari. No ano passado, o heptacampeão passou por um processo de autoflagelo por conta dos maus resultados em sua primeira temporada de vermelho. Chegou a dizer que precisava dar um reset no cérebro, e falou que se sentia um inútil, um peso morto em Maranello.
Mas, ontem, ficou pistola. Queria que o time tirasse Charles Leclerc da frente porque tinha mais ritmo que o monegasco. A chefia pediu, Charlinho não atendeu. Quando seu engenheiro, ao final da prova, disse algo como “não tivemos muita sorte hoje”, Lewis retrucou com a…
FRASE DE ZANDVOORT
“Não foi azar. Perdemos muito tempo e isso nos custou um pódio. É difícil aceitar quando você vê que a Mercedes manda uma ordem aos seus pilotos e eles executam na hora. Aqui as coisas não são assim.”Lewis Hamilton
Arte: Autosport
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… da corrida de Nico Hülkenberg, que largou em 12º e terminou em oitavo, igualando o melhor resultado da Audi no ano – Gabriel Bortoleto foi oitavo na Inglaterra e na Bélgica. E, com muito reflexo, ainda evitou um acidente que poderia ser muito sério com seu companheiro na primeira volta. Foi bem, o alemão. E ele já tinha sido nono na Hungria.
Williams: batida de Sainz e Albon no final
NÃO GOSTAMOS… da Williams, que ficou de vez para trás, com a ascensão da Aston Martin. A equipe não faz um pontinho sequer há seis etapas, desde Mônaco. E, ontem, Carlos Sainz errou uma freada e acertou Alexander Albon no fim da corrida. É só vexame. Pelo menos o espanhol pediu desculpas. “Estava com pneus muito gastos e freei na ondulação”, explicou.
FLAVIO GOMES é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. (O negócio de dizer que sou professor é só para conferir certa nobreza a este perfil. Fui professor por pouco tempo, numa pós-graduação na FAAP. Três ou quatro anos, se tanto. Mas não renovaram meu contrato porque um dia umas alunas me chamaram para banca de avaliação de seus trabalhos de conclusão e dei notas muito ruins a todas, porque os trabalhos eram realmente péssimos.) Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet (como se vê, texto antigo: jornais e revistas nem existem mais), se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo” (1986-1994), revistas “Placar” (1988), “Quatro Rodas Clássicos” (não lembro quando) e “Revista da ESPN” (2011 ou 2012, não sei direito), rádios Cultura (1984-1986), fazendo programa de ciência para a SBPC), USP (1986), Jovem Pan (1994-2001, quando a Pan era uma rádio, e não um depósito de fascistoides como hoje, que nem rádio é mais), Bandeirantes (2001-2005), Eldorado-ESPN e Estadão ESPN (2007-2013). Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020, quando a emissora foi vendida e fechada pela Disney. Nesse período, morou quase quatro anos no Rio, de 2017 até o final do contrato com a Fox. No fim de 2021 se mandou para a Bahia, abriu um restaurante que deu errado e voltou para São Paulo em fevereiro de 2022.
Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o “Grande Prêmio” passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o “Esporte de Primeira” na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Foi nesse ano, também, que repassou o “Grande Prêmio” a seus funcionários — como bom comunista, entregou os meios de produção aos que produzem.
Em 2005, publicou seu primeiro livro, “O Boto do Reno”, pela editora LetraDelta (o livro teve mais quatro reimpressões pela editora Adelante, a partir de 2021). No final do mesmo ano, precisamente em 5 de dezembro de 2005, colocou seu blog no ar. Ele ainda existe, como uma espécie de peça arqueológica digital. De 1992 a 2019, escreveu o anuário “AutoMotor Esporte”, editado por Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, “Dois cigarros”, pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas “Gerd, der Trabi” (Gulliver, 2019). Em 2021, lançou o best-seller “Ímola 1994” também pela Gulliver — que teve uma segunda edição, revista e ilustrada, publicada em 2024. Em 2022, pela Adelante, mais um livro: “Os anos Schumacher em 334 textos” — uma coletânea de colunas para jornais escritas desde 1995.
Também em 2022 passou a fazer parte do time de colunistas do UOL e da nova plataforma digital de “Placar”. A brincadeira no UOL durou apenas um ano. Na “Placar”, quase três — saiu em 23 de maio de 2025, data que só lembra porque é nome de avenida em São Paulo (a demissão se deu porque o chefe novo disse que o indigitado, eu, “não sabia falar com os jovens”). Ficou quase cinco meses coçando e no dia 13 de outubro estreou como apresentador da rádio TMC, ex-Transamérica. Saiu quatro dias depois porque alguém na empresa concluiu que seus “posicionamentos” eram “incompatíveis”, com o jornal que estava apresentando.
Gomes é torcedor da Portuguesa, frequenta o Canindé e já foi presidente da Leões da Fabulosa. Quando fala de carros, começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. Seu último carro 0 km foi comprado em 1997 e continua com ele. Mas o mais novo é um Twingo 1998. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020. Em 2025 foi aposentado de novo por quebra de motor, trocado por um Gol bolinha 1996 que voltou a usar o número #96 (isso não tem a menor importância para o público em geral, mas para mim, tem).
Na vida pessoal, é casado com uma cearense arretada chamada Laêne e tem dois filhos de seu primeiro casamento. Ambos torcem para a Lusa. “Meu maior legado”, diz.